Antologia de Órion.
VI
O tráfego estava calmo. Me observei a pensar se as pessoas teriam viajado para aproveitar o feriado ou não. Contudo, essa chuva torrencial deve ter frustrado a todos. Nunca presenciei o céu desaguar dessa forma. Eu só conseguia pensar em ficar embaixo das cobertas e dormir sem preocupações. Sentia falta da minha realidade soberana, onde pessoas não conseguiam macular.
— Mal posso esperar pra chegar em casa.
O som da chuva retinindo na lataria do carro isolava todo o som da realidade externa. Para me adequar ao clima, coloquei Once I Was, de Tim Buckley. Eu era fascinado em como, de forma tão simples, ele conseguia expressar sentimentos tão vastos.
— “…And soon there’ll be another, to tell you I was just a lie…”
Cantei em uníssono enquanto olhava para a escuridão quase abissal através do para-brisa. Ao longe, vi Órion, distante, reluzindo diante do céu nublado.
Ao passo que, o céu estava naquele momento crepuscular, mesmo com toda a chuva e nuvens carregadas, era possível observar o carmesim no horizonte. Uma cena de tirar o fôlego, quase como se Apolo estivesse recitando os versos do mundo.
Órion se foi.
Eu e Tim seguimos para casa.