Antologia de Órion
III
Eu estava mais atrasado do que imaginava! Eu me arrumava desesperadamente, percebi até que troquei minhas meias, mas relevei, pois não tinha tempo a perder. Enquanto me vestia, tentei antecipar a provável advertência que levaria do meu chefe no trabalho. Eu nunca havia atrasado.
Ao sair do elevador e ir em direção ao meu carro, percebi que o ar estava pesado, impregnado por um cheiro inconfundível de terra molhada. Estranhamente, não havia uma única nuvem, sequer, no céu. Acima de mim, se encontrava uma vastidão azul, interrompida apenas pelo horizonte de concreto.
O tráfego estava terrível.
Estranho.
Liguei o som do carro e selecionei Je n’en connais pas la fin, na versão de Jeff Buckley. Era uma canção que falava de uma praça antiga, de um parque de diversões no verão e de um carrossel que tocava uma melodia inesquecível, me pareceu conveniente a escutar. Me remetia a uma nostalgia.
Hoje, havia uma espécie de ausência dentro de mim, como se eu tivesse perdido algo. Depois de um trânsito intenso, eu finalmente estava perto do trabalho, mas continuava aflito por conta da provável advertência. Normalmente, esse meu trecho para o trabalho era bem tranquilo.
Enquanto o congestionamento avançava lentamente e as músicas tocavam, o cheiro de terra molhada persistia dentro do carro, embora as janelas estivessem fechadas. No meio desse devaneio, eu senti uma mão deslizar pela minha coxa. Ela alisou minha pele uma vez e, em seguida, apertou-a com intimidade.
O susto foi tão grande que quase bati no carro da frente. Engoli em seco, olhei para o lado, mas não havia nada no banco do passageiro. Nenhuma pessoa. Nenhuma sombra. Apenas o couro vazio e a luz azulada da manhã atravessando o para-brisa.
Ainda assim, por algum motivo, aquele toque não me pareceu ameaçador. Tinha algo de reconfortante nele.
Como se aquela mão já soubesse exatamente onde me encontrar.
Capítulo 1:
Capitulo 2:
Capítulo 4: -
Capítulo 5: -
Capítulo 6: -
Capítulo 7: -
Epílogo: -