Antologia de Órion
VII
A chave girou na fechadura. O cheiro de biscoitos assando me recebeu antes mesmo de eu cruzar a porta.
— Boa noite, amor.
Ele estava na cozinha.
— Oi, meu bem. Finalmente.
— Nossa, até que enfim. Já tava achando que você ia pegar um barco e sair navegando por aí.
— Idiota — respondi, tirando o casaco. — A redação tava um caos.
Ele riu baixo, pegou minha bolsa e a deixou no sofá.
— Imagino. Vem cá.
O apartamento estava quente e limpo demais. Cozinha, impecável. Nem parecia que existia vida ali.
— Essa chuva toda me deu vontade de fazer biscoitos — disse ele, voltando para o fogão. — Acabei de tirar do forno.
Apoiei os cotovelos no balcão e o observei. Ele me serviu uma xícara de café sem eu pedir.
— Parece que você adivinhou.
— Eu sempre adivinho…
Sorriu de lado. O café estava quase perfeito, só um pouco doce demais. Olhei para a janela. Ainda chovia.
— E aí? Como foi o dia?
— Sexta-feira, véspera de feriado, uma puta de um temporal e um crime que parou a cidade. O básico.
Ele se apoiou no balcão na minha frente, xícara na mão.
— Vi que a mulher foi encontrada. Está bem, com a família.
Assenti.
— Tive que finalizar a matéria. Até pareceu um milagre.
Ficamos em silêncio por um instante. A chuva batia fraca no vidro. Lá fora, o céu continuava fechado.
Nenhuma estrela.
— E você? Muito cansado?
— Um pouco.
— Então esquece o trabalho por hoje. Vem.
Deixei a xícara no balcão e me aproximei. Coloquei as mãos na cintura dele e o puxei contra mim. Ele sorriu antes mesmo de eu beijá-lo.