O Lucas pintando no canto e se chamando de bebê do papai ensinou mais solitude do que a conta toda do Fernando, uai. Deus aparece pouco com palavra grande aqui e muito nesses abraços miúdos dele.
Um passo na Escuridão
Pensamento
O Lucas pintando no canto e se chamando de bebê do papai ensinou mais solitude do que a conta toda do Fernando, uai. Deus aparece pouco com palavra grande aqui e muito nesses abraços miúdos dele.
Conteúdo da publicação
solidão ou solitude ?.
solidão ou solitude ?.
Estevão nunes
Sobre o autor
Estevão Nunes é pai, cantor, compositor e músico. Um homem que encontrou na escrita uma forma silenciosa de transformar dor em significado. Muitas de suas poesias nasceram primeiro na mente, antes de ganharem papel.
Brasileiro, nascido em Jandira, viveu grande parte de sua vida em Barueri, onde construiu não apenas sua história, mas também sua visão sobre amor, perda, fé e reconstrução.
Pai dedicado, acredita que a paternidade é sua maior missão e sua maior escola. Na música encontrou refúgio. Na solitude, encontrou força. Na dor, encontrou propósito.
Estevão é alguém que se reinventa a cada estação da vida — entendendo que crescer não é deixar de sentir, mas aprender a transformar sentimentos em evolução.
Seu maior desejo é que suas palavras alcancem corações que, em algum momento, também deram um passo na escuridão… e decidiram voltar para a luz.
DEDICATÓRIA
Dedico este livro ao meu filho,
que foi luz quando eu só enxergava escuridão.
E a todos que, em silêncio,
já choraram sozinhos em um quarto escuro
e mesmo assim decidiram continuar.
PREFÁCIO
Este livro não nasceu da teoria.
Nasceu da dor.
Nasceu de um homem que acreditou em sonhos, que errou por amor, que se perdeu tentando salvar outros, que caiu tentando construir uma família… e que precisou aprender, sozinho, a se reconstruir.
“Um Passo na Escuridão” não é sobre fracasso.
É sobre consciência.
Não é sobre solidão.
É sobre identidade.
Porque às vezes é preciso atravessar a escuridão
para descobrir que a luz que sempre esteve dentro de nós.
Sonhos
“Sonhos são um mistério do além.”
Quem nunca sonhou?
Quando somos crianças, sonhamos com coisas simples: uma festa de aniversário cheia de presentes, amigos ao redor, um brinquedo novo, uma bola, uma bicicleta. Na mente de uma criança se constroem cabanas, casas, castelos, mundos inteiros.
Sonhar é natural.
É puro.
É leve.
Mas nem toda infância é leve.
Quando eu era criança, também construía templos na minha mente. Criava cenários onde tudo era diferente. Porque, na realidade, eu não era uma criança comum.
Eu era uma criança cuidando de outras crianças.
Entre os anos 2000 e 2004, um dos meus irmãos foi diagnosticado com câncer. Como ele era menor de idade, precisava da presença constante da minha mãe no hospital durante os tratamentos.
E então, meus irmãos e eu ficamos com meu pai.
Eu trocava fraldas.
Eu dava banho.
Eu ajudava a comer.
Eu colocava para dormir.
Quando minha irmã chorava, eu precisava fazê-la parar. Meu pai dizia:
— Se ela continuar chorando, o próximo será você.
Eu chorava baixo. Pedia para ela, quase implorando, que parasse de chorar. Não porque eu estivesse bravo com ela — mas porque eu tinha medo.
Eu só queria minha mãe.
Eu só queria brincar.
Soltar pipa.
Jogar bola.
Brincar de esconde-esconde.
Mas a vida tinha outros planos.
Enquanto outras crianças construíam castelos de fantasia, eu construía resistência.
E, no meio daquela dor silenciosa, um sonho começou a nascer dentro de mim:
Um dia eu seria pai.
E faria diferente.
Sonhos, às vezes, parecem distantes da realidade.
Crescemos vendo na televisão pessoas ficando ricas, ganhando na raspadinha, encontrando dinheiro na rua. A vida parecia fácil. Parecia que bastava sorte.
Mas, à medida que crescemos, entendemos que não é assim.
A vida exige esforço.
Exige renúncia.
Exige escolhas.
Nem todos terão as mesmas oportunidades. Nem todos começarão do mesmo ponto. Existe algo que muitos chamam de “equilíbrio da vida” — enquanto alguns acumulam, outros trabalham duro para sobreviver.
Nada vem de graça.
E nem todo sonho é seguro.
Alguns sonhos, quando não são planejados, quando são movidos apenas pela emoção, quando escolhemos as pessoas erradas para caminhar ao nosso lado… podem se transformar no nosso pior pesadelo.
Um sonho mal construído pode virar
um passo na escuridão.
Mas há algo que aprendi:
Nem todo sonho nasce para ser conquistado imediatamente. Alguns nascem para nos manter vivos. Para nos dar direção. Para nos lembrar que podemos ser diferentes do que vivemos.
Eu não tive a infância que imaginei.
Mas tive a escolha de ser o pai que sonhei.
E às vezes… é isso que salva tudo.
Na escuridão
Desde criança eu sonhava em casar, me formar, ser alguém na vida.
Antes de casar, vivi muita coisa. Era mulherengo. Músico sempre chama atenção — e eu era apaixonado por tocar bateria. Cantava em igrejas, e talvez a única coisa boa que meu pai realmente me forçou a fazer foi me dedicar ao canto.
A música sempre foi meu refúgio.
É uma mistura de sentimento com fôlego de vida.
Sem música, tudo perderia a cor.
Eu me apaixonava fácil. E me perdia fácil.
Um dia, um amigo me apresentou sua prima. Vi as fotos — ela era linda. Juro que, naquele instante, tudo parou. Minha mente foi longe. Meu coração dizia que eu precisava conhecê-la.
Quando a vi pessoalmente pela primeira vez, percebi algo diferente. O semblante era triste, mas o sorriso era doce. Ela estava longe da própria casa por causa de problemas familiares.
Naquele momento, eu senti algo quase heroico dentro de mim. Eu acreditava, com toda convicção, que poderia ser a pessoa que seguraria a mão dela. Que poderia ser o que ela precisava naquele momento — ou talvez para o resto da vida.
Mas cada passo que damos na vida pode ser perigoso — mesmo quando parece certo.
Acreditamos que podemos rasgar as dificuldades no peito e que tudo vai se ajustar com o tempo. Ignoramos sinais. Não queremos enxergar alertas.
E quando tudo desaba… ficamos presos ao “e se”.
E se eu tivesse feito diferente?
E se eu tivesse esperado mais?
E se eu tivesse escolhido outro caminho?
Namoramos por dois anos. Fui casado por sete.
Vivemos momentos incríveis. Aventuras. Alegrias. Mas também vivemos solidão dentro do próprio relacionamento.
Lembra quando sonhos viram pesadelos?
Quando decidi terminar, não terminou só um casamento. Terminou o sonho da família perfeita. Terminou o sonho da casa. Terminou a imagem que eu tinha construído na cabeça desde criança.
No início, a ficha não caiu. Eu ainda estava trabalhando. Ainda estava com meu filho.
Até que, duas semanas depois, a mãe do meu filho — que havia levado ele para passar o fim de semana — mandou uma mensagem dizendo que não iria devolvê-lo.
Naquele momento, o tempo parou.
Eu não sabia pensar.
Não sabia chorar.
Não sabia reagir.
Eu tinha perdido um casamento. Uma casa.
E agora… meu filho.
Meu quarto virou um campo de guerra emocional.
Eu queria gritar. Queria quebrar tudo. Queria me culpar. Queria acabar com aquela dor. Eu não queria machucar ninguém — só queria meu filho de volta. Ou talvez meu casamento de volta. Eu faria qualquer coisa.
O processo corria em segredo de justiça.
E eu corria por fora… tentando sobreviver.
Não comia. Não cantava. Mal falava. Só chorava.
Chorava indo trabalhar.
Chorava durante o trabalho.
Chorava voltando para casa.
Quando fechava a porta do quarto, o céu desabava sobre mim. Eu gritava. Minha mãe sabia que aquele era meu momento — e que ninguém poderia atravessar aquela dor por mim.
Eu orava. Perguntava a Deus o porquê.
Nunca fui perfeito. Mas sempre tentei fazer o bem. E mesmo assim, eu estava ali… no fundo do poço.
Comecei a correr.
Corria por horas. O suor misturava com lágrimas e com a água da garrafinha jogada no rosto. Chegava em casa exausto. Tomava um banho gelado. Deitava. Chorava até dormir.
De 85 quilos fui para 73 em dois meses.
Nunca estive tão íntimo de Deus quanto naquele período.
No trabalho, as pessoas não sabiam se choravam comigo ou me abraçavam. Diziam:
— Vai ficar tudo bem.
Eu não sabia se continuava a faculdade. Afinal, o plano era crescer, ganhar mais, sustentar minha família.
Mas qual família?
Eu andava sozinho pelas ruas. Comia sozinho. Falava sozinho. Foi ali que comecei a entender: tudo dependia de mim.
Tive dois amigos fundamentais nessa fase. Homens que admiro como pais e maridos. Eles me ajudaram com mentoria, com direção, com reconstrução.
A tempestade começou a diminuir.
Conheci novas pessoas. Novas mentes. Novas possibilidades.
E então veio a notícia:
Meu filho iria morar comigo.
Meu mundo voltou a ter cor.
Nunca agradeci tanto a Deus quanto naquele dia.
Quando assinei o divórcio, percebi que algo dentro de mim também foi libertado. Não era apenas o fim de um casamento — era o fim de um ciclo que precisava terminar.
Meu sonho de ter uma família me cegou. Eu não percebi que aquela não era a hora certa. Nem a pessoa certa.
Somos responsáveis por nossas escolhas.
Nem todas as pessoas estão destinadas a caminhar com você até o fim. Nem todas lutarão com a mesma intensidade que você.
Às vezes, para entender isso, precisamos nos machucar.
Precisamos sofrer.
Precisamos cair.
A espera pelo sonho certo é melhor do que conquistar um sonho pela emoção e descobrir que ele não estava pronto.
Porque quando ignoramos sinais, quando corremos pela carência, quando decidimos apenas pela paixão…
Corremos o risco de dar
Um passo na escuridão.
Solidão
Na busca por amor e carinho, muitas vezes nos perdemos.
E não há nada mais cruel do que se perder dentro da própria mente. Se afogar nas próprias emoções tentando encontrar um amor que preencha o vazio que carregamos.
Não dá para saber se estamos no caminho certo.
Não dá para saber se vai dar certo.
Mas a vontade de que dê certo é tão grande que ignoramos qualquer sinal de alerta. Negamos tudo que possa ofuscar o brilho daquele sentimento.
O amor parece bom. Parece intenso. Parece uma droga viciante.
Queremos segurar.
Queremos possuir.
Queremos que seja só nosso.
E então nasce o ciúme. A necessidade de controlar. A loucura de impedir que outras pessoas tenham acesso àquilo que achamos que nos pertence.
Mas o que parecia amor… muitas vezes é ilusão.
Como se desfazer de algo que lutamos tanto para ter?
Como soltar aquilo que achamos que nos completa, mas que, no fundo, está nos esvaziando?
Já tentou pegar açúcar de confeiteiro com a mão?
Ele escorre pelos dedos. O que parecia doce vira apenas um vazio branco nas mãos.
O problema não é o açúcar.
O problema é o lugar onde tentamos colocá-lo.
O açúcar não foi feito para ficar na mão. Foi feito para se misturar à massa, às claras, ao fermento. Foi feito para, depois de tempo, preparo e forno, se transformar em algo maior — um bolo que pode ser compartilhado.
Estamos sempre com pressa de provar o açúcar sozinho. Perdemos a experiência de ver o que ele pode se tornar quando está no lugar certo.
O amor é assim.
Quando espalhado, quando construído com tempo, quando colocado no contexto certo, ele se transforma em algo que alimenta — não só você, mas outras pessoas também.
Mas antes de amar alguém, precisamos nos encontrar.
Precisamos entender que amar o próximo é importante — mas amar a si mesmo é essencial.
Estamos tão ocupados tentando fazer os outros felizes que esquecemos de nos amar, de nos valorizar.
E como fazer isso?
Começando pelo simples.
Você sabe qual é sua música favorita?
Já colocou um fone de ouvido e dançou sozinho no quarto?
É libertador.
Já saiu sozinho para algum lugar só para observar? Sozinho enxergamos detalhes que antes passavam despercebidos. Ficamos cegos por tanto tempo buscando companhia que não percebemos a beleza ao redor.
A solidão, às vezes, é remédio.
Mas existe uma diferença entre solidão e solitude.
A solidão dói.
Ela aparece no pior momento.
Quando os amigos somem.
Quando os familiares se escondem.
Quando o abraço não vem.
Quando o choro parece não ter fim.
Colocamos a música mais triste. Choramos até o travesseiro virar nosso melhor amigo. No quarto escuro, enfrentamos nossos pensamentos mais profundos.
Perguntamos:
Qual é o meu papel no mundo?
Por que eu estou vivendo isso?
Buscamos respostas no subconsciente. Tentamos entender tudo ao mesmo tempo. Mas, muitas vezes, a resposta não vem.
E então, depois da última lágrima… algo muda.
O sono nos abraça.
A mente se reorganiza.
O que parecia impossível começa a fazer sentido.
A alegria volta devagar.
O passarinho na janela volta a cantar.
A folha que cai anuncia mudança de estação.
O preto e branco ganha cor.
O sol volta a aquecer.
Quando entendemos o propósito da solidão, paramos de tentar preencher espaços que deveriam ser ocupados por amor próprio.
Pode parecer egoísmo.
Pode parecer isolamento.
Mas é maturidade.
Não podemos controlar o sentimento dos outros.
Não podemos impedir que alguém vá embora.
Mas podemos controlar nossos limites.
Podemos decidir até onde ir.
Podemos reconhecer onde não há reciprocidade.
Onde não cabe nossa bondade, não é nosso lugar.
Um dia alguém pode deixar de te achar atraente.
Pode ir embora.
Pode te abandonar.
Mas isso dói menos quando você já sabe quem é.
A solidão pode ser uma sala escura…
Ou pode ser uma sala mágica.
Depende do que você escolhe construir nela.
Eu sempre achei que ficar sozinho seria algo ruim. Hoje entendo que pode ser viciante — porque traz paz. Na solitude não há discussões externas. Existe apenas você e suas decisões.
E quando você aprende a ser feliz sozinho, aprende algo poderoso:
Você não precisa de alguém para te completar.
Você precisa de alguém para somar.
Depois que você é feliz consigo mesmo, pode dividir essa felicidade — sem medo, sem dependência, sem dar um passo na escuridão.
A solidão molda.
Fortalece.
Ensina.
Ninguém esteve no meu pior momento. O pior momento foi no quarto escuro, chorando sem receber uma única mensagem perguntando se eu estava bem.
Mas foi ali que eu cresci.
Foi ali que eu me moldei.
Foi ali, na escuridão, que comecei a aprender a caminhar em direção à luz.
Solitude
Diariamente tento entender o motivo de viver.
Na maioria das vezes, nos encontramos sós. Mas, desde pequenos, crescemos acreditando que precisamos de alguém para nos completar. Durante minha infância, vi pais com seus filhos, casais apaixonados, grupos de amigos inseparáveis — e aprendi que estar acompanhado parecia ser a regra.
Sempre queremos estar rodeados de pessoas que nos entendam, que compreendam nossos pensamentos, que validem nossas emoções.
Certo dia, observei meu filho, Lucas, no canto da casa. Ele sussurrava enquanto brincava. Falava consigo mesmo em terceira pessoa, dizendo que estava pintando um desenho lindo e que era o bebê do papai.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Naquele momento, meu filho me ensinou algo poderoso sobre solitude.
Ele me mostrou que podemos ser nosso próprio incentivador. Que podemos nos encorajar. Que, mesmo sentindo falta de alguém, podemos aprender a ser a melhor companhia para nós mesmos.
Ainda assim, admiramos pessoas que não estão presentes naquele momento. Sentimos falta. Mas seguimos.
Claro que me sentei ao lado dele para brincar. Tempo de qualidade é um dos maiores presentes que podemos oferecer. Ensino meu filho sobre generosidade, amor, carinho — e, principalmente, sobre decisões. Porque decisões moldam destinos.
E falar sobre decisões é falar sobre tempo.
Tempo é uma das coisas mais valiosas da vida. E muitas vezes o desperdiçamos com escolhas erradas.
Certa vez, conversava com meu amigo Fernando. Foi uma das conversas mais longas e impactantes da minha vida. Ele disse algo que me marcou profundamente:
“Vivemos, em média, setenta e cinco anos. Mas, a cada aniversário, não estamos vencendo mais um ano — estamos nos aproximando da morte.”
Um dia tem vinte e quatro horas. Especialistas dizem que devemos dormir oito horas. Ou seja, um terço da vida passamos dormindo.
Se vivermos setenta e cinco anos, dormiremos cerca de vinte e cinco.
Restam cinquenta.
Mas de zero a dezesseis anos somos dependentes. Não somos totalmente responsáveis por nossas escolhas. Subtraindo isso, restam aproximadamente trinta e quatro anos de autonomia real.
Uma vida que parecia longa… se torna assustadoramente curta.
Aquela conversa mexeu profundamente comigo. Percebi que vivemos pouco demais para desperdiçar tempo tentando agradar todo mundo, insistindo em erros ou vivendo para expectativas alheias.
Se a vida é tão breve, então que seja vivida com consciência.
Foi nesse raciocínio que compreendi algo importante: se for preciso viver só, eu viverei.
Na solitude encontrei uma paz que um dia me foi tirada.
Na solitude me reencontrei.
Na solitude me valorizei.
Entendi que, por mais amigos que eu tenha, resolver meus conflitos internos é responsabilidade minha. Problemas emocionais e mentais não se terceirizam.
Na solitude, aprendemos a observar.
Observamos borboletas — que, mesmo com o mundo evoluindo, continuam sendo belas e colorindo a natureza.
Observamos o amor de um pai e de uma mãe brincando com seus filhos.
Observamos a dor de um morador de rua, que um dia teve uma história, uma família, sonhos — e hoje está esquecido.
Observamos a criança jogando bola sozinha porque o pai foi embora ou faleceu.
Observamos a mulher que acorda às cinco da manhã, cansada, imaginando como dará sustento aos filhos.
Observamos o pai com a filha nos ombros, aproveitando cada segundo antes de devolvê-la à mãe após uma separação — porque, apesar do fim do casamento, o amor pela filha permanece intacto.
Na solitude, você enxerga o mundo com mais nitidez.
Percebe que a vida é um sopro. Que muitos pagam pelas próprias escolhas. Que alguns sorriem vivendo seus melhores momentos, enquanto outros choram silenciosamente na cama, esperando que o amanhã seja diferente.
Para que vivemos?
Quais são nossos sonhos?
São perguntas assustadoras — principalmente quando entendemos o quão curta a vida é.
Mas de uma coisa eu sei:
Precisamos viver intensamente.
Mesmo que isso signifique criar uma história dentro da solitude.
Amar as pessoas é importante.
Mas amar a si mesmo é essencial.
O grande desafio da solitude é que, mesmo quando precisamos de ajuda, escolhemos fazer tudo sozinhos. Queremos ser um problema resolvido. Não queremos causar desconforto.
Como diz o ditado:
“Quer que algo seja feito perfeitamente? Faça você mesmo.”
A solitude pode ser um veneno — se virar isolamento.
Mas pode ser remédio — se virar autoconhecimento.
Ela traz paz.
Traz clareza.
Traz maturidade.
E, quando equilibrada com amor e propósito, pode até prolongar a vida — não em anos, mas em qualidade.
Porque no fim…
Estar só não significa estar vazio.
Significa estar inteiro.
Felicidade
Felicidade é um sentimento muito louco.
Vivemos tão pouco… e, mesmo assim, queremos ser felizes o tempo todo. Mas a vida nos ensina a chorar, a sofrer. E, no meio de tudo isso, tentamos sorrir — às vezes para esquecer, às vezes para esconder a tristeza que mora dentro de nós.
Há lembranças que fazem o coração bater mais forte. Que enchem o corpo de emoção. Que nos forçam a chorar.
A felicidade parece um pequeno fio de ouro em um rio cheio de pedras brilhantes — pedras que parecem preciosas, mas são falsas. Quem já encontrou ouro em águas correntes sabe: quando encontra, a primeira coisa que faz é esconder. Porque é raro. Porque é pequeno. Porque é precioso.
Tem medo que alguém inveje. Que alguém tome aquilo que, por um instante, o fez verdadeiramente feliz.
No fundo, somos mineradores. Passamos a vida inteira garimpando momentos.
Segundos.
Minutos.
Horas.
Dias.
Semanas.
Meses.
Anos.
Décadas.
Alguns dizem que felicidade é ter bens materiais. Outros dizem que é ter alguém que amam ao lado. Mas afinal… qual é o verdadeiro objetivo da felicidade? Onde ela se esconde? Como se encontra algo que parece durar tão pouco?
Por muito tempo me perguntei:
Por que correr atrás de um sentimento tão passageiro?
Preciso mesmo ser feliz em tudo o que faço?
Certa vez, ouvi uma pessoa dizer que pediu demissão porque não estava feliz no trabalho. Confesso que não entendi. Pensava comigo: será que precisamos estar felizes o tempo todo?
Um dia, eu estava sentado, preocupado com contas, com problemas, com decepções. O coração vazio. A mente pesada.
De repente, senti um abraço pequeno envolvendo meu corpo.
Era meu filho.
Ele disse:
— Papai, o Lucas te ama.
— Papai é amigo do Lucas.
— Lucas te ama, papai.
Naquele instante, as lágrimas escorreram. A voz embargou. O coração se encheu de algo que não cabia dentro do peito.
Ali eu entendi.
Nem sempre é sobre ser feliz.
Nem tudo o que fazemos é por felicidade.
Muitas coisas fazemos por amor.
A felicidade nem sempre move nossa coragem.
Mas o amor move.
Foi o amor pelo meu filho que me tirou da escuridão. Eu estava vagando em meio às sombras da minha própria mente. Mas o amor acendeu uma luz.
E eu dei um passo.
Um passo na luz.
Estamos todos à procura da felicidade. Mas a verdade é que conseguimos viver — e fazer o que precisa ser feito — mesmo sem ela o tempo todo.
A felicidade é vaga. Passageira. Vai e volta. Grande parte da vida vivemos sem ela. E está tudo bem.
Me sinto satisfeito com os pequenos momentos em que ela aparece.
Sem a tristeza, a felicidade não teria valor. Se não existisse dor, não saberíamos reconhecer o brilho. É justamente por ser breve que ela se torna tão preciosa.
Portanto, se a felicidade bater à sua porta… aproveite. Viva cada segundo. Sinta cada detalhe.
Porque ela pode ir embora.
E talvez demore para voltar.
Mas se o amor estiver presente — você continuará firme.
Porque no fim, não é a felicidade que sustenta a vida.
É o amor.
Aceitação
Autoaceitação é um dos caminhos mais difíceis que alguém pode percorrer.
Entender que nascemos do jeito que somos parece simples — mas, nos dias de hoje, é extremamente complicado. Vivemos em um tempo caótico, onde desde pequenos tentamos nos encaixar em lugares, em grupos, em pessoas. Perdemos nossa identidade para agradar os outros. E, quando percebemos, já não sabemos mais quem somos.
Muitas pessoas se tornam espelhos — sem nem ao menos serem exemplo de algo. São frustradas internamente, mas aparentam segurança. Falam palavras que machucam, diminuem, desmotivam. Colocam os outros para baixo para se sentirem maiores.
Levei anos para entender que somos falhos. E que cada um carrega sua própria identidade.
Lembro que, por diversas vezes, fiz coisas que iam contra tudo o que eu havia aprendido. Usei drogas na adolescência apenas para me encaixar em grupinhos. Hoje eu me pergunto: valia a pena?
A falta de um pai presente, amoroso e firme faz diferença. Cresci aprendendo da pior forma. Escolhendo “amigos” errados. Me envolvendo em amores curtos e desgastantes, que me faziam duvidar da minha própria existência.
Muitas vezes me perguntei se a vida fazia sentido. Se algum dia eu seria feliz com alguém. Ou, pelo menos, feliz comigo mesmo.
Como se aceitar do jeito que se é, se o mundo muda o tempo todo?
Qual é o sentido de tudo, se a vida é passageira?
A resposta dói: nada se aprende sem errar.
Errar faz parte.
Mas permanecer no erro é escolha.
Ser autêntico é extraordinário.
Ser seletivo é uma dádiva.
Não há problema nenhum em resolver primeiro o que está dentro da sua mente antes de tentar abraçar o mundo. Temos turbilhões internos para organizar. Precisamos entender que só podemos controlar a nós mesmos. As atitudes dos outros pertencem a eles.
Nem todo lugar é nosso lugar.
Nem todo coração é nossa casa.
Nem toda mente combina com a nossa.
A paz precisa reinar dentro de nós. E, se for preciso se afastar de tudo e de todos para preservá-la, está tudo bem.
Jesus, em grande parte do tempo em que esteve na Terra, orava sozinho. Ele sabia que, mesmo cercado de pessoas, carregaria um peso que ninguém mais poderia carregar. Sabia que não agradaria a todos. E ainda assim aceitou seu propósito.
Ter fé em si mesmo também é assustador.
Certa vez, eu trabalhava como auxiliar em uma empresa quando surgiu uma vaga importante. Durante o processo, mostrei que era capaz. Fui aprovado. Mas, enquanto aprendia, a voz dentro da minha mente dizia:
“Você não vai conseguir.”
“Isso é demais para você.”
“Você não é capaz.”
Eu me autossabotava. Tinha medo de demonstrar insegurança. Queria desistir.
O que me manteve firme foi meu filho — que tinha apenas dois anos.
Eu chorava escondido e repetia para mim mesmo: eu preciso ser forte por ele. Preciso ser exemplo.
Com toda certeza, a falta de um pai torna o caminho mais difícil. Mas a presença de um filho nos transforma em super-heróis. Nos tornamos mais fortes do que imaginávamos. A dúvida começa a desaparecer.
Consegui me destacar. Aprendi mais do que achava possível. Meu filho me deu força e esperança.
Demora para nos reencontrarmos. Mas esse momento chega.
Eu só me encontrei de verdade depois que meu filho nasceu. Foi ali que me aceitei como sou. Eu precisava ser a paz que não tive na infância.
Meu pai me ensinou algo importante — mesmo sem querer: ele me ensinou o que eu não queria ser. Aprendi que é possível quebrar ciclos. Que maldições familiares podem ser interrompidas. Que podemos escolher ser melhores.
Escolher ser exemplo.
Escolher ser inspiração — no bom sentido.
Entendi que estar sozinho não é fracasso. Às vezes, é identidade.
Está tudo bem sair sozinho.
Assistir um filme sozinho.
Tomar algo sozinho.
Estar sozinho não significa estar perdido. Significa se conhecer.
Uma frase que marcou minha vida diz:
“Ser verdadeiro é a melhor escolha. Porque a mentira acaba. E o que resta é a verdade.”
Aceite seu destino.
Aceite o ciclo que se encerrou.
Aceite o amor que acabou.
Aceite a perda.
Aceite o momento presente.
Toda dificuldade é passageira.
Tome atitudes que trarão bons retornos — sem machucar ninguém. Se alguém te deixou ou tentou te prejudicar, tudo bem. Você aprendeu. E agora sabe o que não aceitar novamente.
Trabalhe sua mente.
Estude.
Leia livros.
Ouça pessoas que agregam.
Se conecte com quem inspira crescimento.
Afaste-se de quem te puxa para baixo.
Quando entendemos que tudo na vida tem retorno — seja bom ou ruim — começamos a agir diferente.
Você vai se encontrar.
E, quando isso acontecer, pode ter certeza:
Você nunca mais dará
um passo na escuridão.
A Cura
Você já parou para analisar o processo de um machucado?
Quando nos ferimos e sentimos uma dor intensa, não há como anulá-la. Não importa qual seja. Dor é dor.
Uma vez, pisei em um prego em um rio perto de onde morava. Era para ser um dia incrível, em um lugar incrível. Mas se transformou em um dia ruim. Voltei para casa com o pé sangrando e uma dor que parecia atravessar a alma.
O processo de cicatrização foi um dos piores. O ferimento infeccionou. Doía ainda mais cada vez que eu tentava calçar um tênis ou simplesmente pisar no chão. Chegou um momento em que eu preferia ficar deitado, parado, suportando a dor, esperando o tempo fazer o seu trabalho.
Demorou quase um mês para cicatrizar.
Mas, durante esse processo, muitas vezes eu me esquecia da dor. Colocava o pé no chão distraído — e ela voltava com tudo. Eu chorava. Em alguns momentos, pensei que, se arrancasse meu pé, resolveria o problema. Pensei que, se tivesse ficado em casa naquele dia, nada daquilo teria acontecido.
Mas não existe sensação melhor do que estar curado.
Voltei a andar. Voltei a correr. E, dessa vez, muito mais atento aonde pisava. Passei a analisar melhor os caminhos. Aprendi a olhar o chão antes de dar o próximo passo.
A dor me ensinou.
Na adolescência, namorei diversas meninas. E sempre vinha o pior momento: o término. Embora terminar um relacionamento não seja necessariamente algo ruim — afinal, muitos namoros existem para nos preparar para a pessoa certa —, a dor sempre estava lá.
Minha pastora, que também foi como uma mãe na fé para mim, dizia:
— “Você é uma excelente pessoa, é bom em tudo o que faz. Mas o seu mal é mulher.”
Essa frase ficou marcada na minha mente.
A partir daquele dia, decidi que lutaria por um amor. Que faria de tudo para permanecer e nunca desistir.
Conheci uma menina que passava por dificuldades familiares. Talvez desacreditada. Talvez esquecida pelos seus. Quando me apaixonei, parecia que o mundo tinha parado. Eu era apenas um rapaz cheio de sonhos, desempregado, mas determinado a mudar o meu destino — e o dela.
Namoramos por dois anos. Depois, nos casamos.
Era um sonho se realizando. Mas, na prática, muitas vezes parecia um jogo de sobrevivência.
Eu era jovem. Casei cedo demais. Poderia ter estudado mais, feito faculdade, escolhido outros caminhos. Mas escolhi estar ali. E, sempre que as dificuldades vinham, a frase da minha pastora ecoava na minha mente. Eu precisava provar que não desistiria.
Passei por momentos muito difíceis. Houve dias em que eu olhava minha esposa dormindo e, no desespero financeiro, pensamentos ruins atravessavam minha mente. Chorei inúmeras vezes. Achei que certas fases seriam passageiras, mas pareciam piorar.
Até que consegui meu primeiro trabalho.
Acordava às duas da manhã. Caminhava quarenta minutos todos os dias até um posto, onde um carro levava os funcionários até a empresa. Não havia horário fixo para voltar. Muitas vezes eu chegava às dez ou onze da noite em casa.
Eu queria desistir. Queria voltar para a casa da minha mãe. Queria fugir.
Mas permanecia.
Amei. Desamei. Quis ir embora. Quis ficar. Tínhamos motivos suficientes para nos separar. Mas estávamos ali, como uma árvore de raízes entrelaçadas.
Até que, depois de sete anos de casamento, tudo desmoronou.
Eu soltei a corda que nos mantinha unidos.
Porque não dá para segurar uma faca que, além de te furar, machuca sua mão inteira — e seu psicológico.
O verdadeiro motivo de eu ter deixado ir foi o dia em que mais precisei dela.
Eu estava trancado em um banheiro escuro, chorando, vivendo minha pior fase: ansiedade, crise existencial, sensação de impotência, à beira da depressão. E naquele dia, ela chamou um Uber e foi para a casa da mãe.
Nas crises dela, eu sempre estive lá.
Na minha primeira grande crise, eu estava sozinho.
Foi ali que entendi: podemos ajudar e até curar pessoas, mas algumas nunca serão a nossa cura.
O término do meu casamento foi a pior dor que já senti.
Eu gritava para ver se a dor saía. Dormia no chão. No dia seguinte, ia trabalhar como um corpo sem alma. Chorava escondido. Não comia. Nenhuma palavra me confortava. A pergunta “e se?” me perseguia todos os dias.
O processo de cicatrização dessa vez foi o mais difícil de todos.
Tentei conhecer outras pessoas. Tentei me distrair. Mas não há como desrespeitar o tempo da cicatrização. É preciso se isolar. É preciso se tratar. É preciso se curar — para não machucar alguém inocente no meio do seu caos.
Cheguei a acreditar que nada mais faria sentido.
Voltei a estudar. Fiz mentorias. Passei por sessões de psicólogo. E aprendi, na prática, que o tempo realmente cura.
Até que chega um dia em que a dor vira memória.
E de uma coisa eu sei: nunca amarei outra pessoa da mesma forma que amei aquela garota. Porque cada amor é único. E cada dor também.
Não existe caminho fácil no processo de cicatrização. Existe escolha. Existe aprendizado.
Toda dor é passageira — mas é extremamente importante.
Melhor do que se curar é aprender como nunca mais se colocar no mesmo lugar de dor.
Cicatrizar é amadurecer.
É escolher novos caminhos.
É entender que o fim de um relacionamento ou a perda de um trabalho não é o fim do mundo.
Ciclos se encerram para que outros comecem.
Quando entendemos isso mais rápido, a cura chega mais leve.
E não estou dizendo para você se tornar frio ou ignorar sua dor. Seja bom. Seja amoroso. Seja paciente. Seja educado. Mas, acima de tudo, seja feliz.
Entenda que tudo é passageiro.
Se for o último abraço, abrace.
Se for o último beijo, beije.
Se for o último “eu te amo”, diga.
Se for o último olhar, olhe até cansar.
Se for a última conversa, converse até não restar mais assunto.
Seja positivo, mesmo nos dias ruins. A positividade chama luz. Agradeça pelo dia — esteja ele frio ou quente, seco ou chuvoso.
Vivemos várias vezes em diferentes fases da vida.
Mas morremos apenas uma vez.
Então aproveite.
Aprenda com os erros.
Se corrija.
Se cure.
Depois de tudo o que passei, tenho certeza de uma coisa:
Eu nunca mais darei um passo na escuridão.
E espero, de coração, que você também encontre sua cura.
Não Doi Mais
Correr, cair e se machucar eram rotinas quando éramos pequenos.
O pior era saber que, depois daquela dor aparentemente insuportável de ralar o joelho, ainda teria o merthiolate. E ele ardia mais do que o machucado.
Existem dores que nunca deixaremos de sentir.
Bater o dedinho do pé na quina do móvel e ver estrelas.
Uma dor de dente que parece pulsar na alma.
Uma dor de cabeça que tira a paz.
Para quase todas essas dores existe um remédio. Algo que cura ou, pelo menos, ameniza.
Mas existe uma dor para a qual não há farmácia.
Seguindo pelos caminhos das dores que somos obrigados a sentir, chegamos a uma das piores: a dor do amor.
O amor é estranho. Em alguns dias traz felicidade intensa. Em outros, traz uma dor que parece não ter fim. O complicado é que nunca sabemos o que ele trará ao nosso coração. E o pior: mesmo sabendo que pode doer, não conseguimos ignorá-lo.
Diferente das outras dores já citadas, o amor é o único que demora para se curar.
A cura exige tempo.
Exige respeito por si mesmo.
Exige lágrimas.
Exige noites sem dormir.
Exige silêncio.
Exige solidão.
Palavras de amigos ou parentes quase nunca aliviam. É como atravessar uma escuridão completa.
A dor de um coração partido é feroz. É como se alguém rasgasse o peito com as próprias mãos.
Muitas pessoas tentam seguir a vida normalmente. Mas, na maioria das vezes, quem vive como se nada tivesse acontecido talvez nunca tenha amado de verdade. Porque quem ama de verdade sente. E sente muito.
A dor aparece no olhar distante. No isolamento. Na falta de vontade de conversar.
A maioria dos homens da minha geração descarrega essa dor na academia, no futebol, na corrida. Eu mesmo fiz isso. E ajuda — mas não cura cem por cento.
Mesmo depois de sair da escuridão, muitas vezes, ao dormir, meus sonhos me levavam de volta a quem talvez eu mais amei neste mundo. Havia noites em que era difícil fechar os olhos, porque bastava um segundo para lembrar que o outro lado da cama estava vazio.
Que não haveria mais abraço ao chegar em casa.
Nem reclamações sobre o trabalho.
Nem beijo de bom dia.
Nem beijo de boa noite.
Naquele momento, parecia que a dor seria permanente.
Aprender sobre relacionamentos e sobre minha própria fragilidade foi essencial para iniciar a cura.
Essa dor exige muito porque é uma mistura de sentimentos:
Ódio de si mesmo.
Tristeza por não ter dado certo.
Medo de acontecer de novo.
Medo de nunca mais ver aquela pessoa.
Medo de ela não ser mais “sua”.
A felicidade fica ofuscada.
As cores perdem intensidade.
Mas aprendi que não podemos nos responsabilizar pelas escolhas dos outros — apenas pelas nossas. Aprendi que as atitudes de alguém não definem quem nós vamos nos tornar.
Quando decidimos não nos fragilizar por qualquer coisa, discutir e bater boca deixam de fazer parte da nossa identidade. Às vezes, o silêncio é a melhor resposta para uma pergunta mal-intencionada.
Ter razão nem sempre é saudável.
Nem sempre é necessário.
Sorrir abre portas.
Educação não é qualidade — é obrigação.
Gentileza nos deixa mais leves e mais bonitos por dentro.
Aprendi que amizades sem propósito já não fazem sentido. Que a beleza exterior é importante, mas a interior é essencial. Que olhar a vida por outra perspectiva traz novos pensamentos, novos caminhos, novos amores.
Minha fragilidade me obrigou a reorganizar meus sonhos e metas. Entendi que nem sempre precisamos estar vivendo um amor para conquistar o que queremos.
Estudar sobre relacionamentos me fez perceber sinais que antes eu ignorava. Se apaixonar é maravilhoso. Mas enxergar os sinais é fundamental.
Traz paz?
Traz conforto?
Traz estabilidade?
O melhor momento é quando aprendemos tudo o que precisamos aprender para viver de forma mais tranquila. Quando entendemos que a vida é feita de amores e desamores. De coração partido e paixão. De felicidade e tristeza.
E que o único remédio verdadeiro para um coração partido é o tempo.
É estranho olhar para alguém que um dia amamos intensamente e não sentir mais nada. As lembranças passam pela mente, mas já não machucam. São apenas memórias.
A pessoa que antes parecia insubstituível se torna apenas alguém comum. Não é mais a princesa encantada que idealizamos. É apenas um ser humano, como qualquer outro.
E então, um dia, você percebe.
Respira fundo.
Lembra do passado.
E não dói mais.
Hoje, com toda certeza, posso dizer:
Não dói mais.
“Alivia quando se escreve o que se sente.
Melhor ainda é ler o que se escreveu… e não sentir mais nada.”
Liberdade
Liberdade é algo bonito de se falar e de ouvir.
Mas o sentimento de liberdade soa diferente em cada situação.
Uma mãe não vê a hora de libertar seu bebê dos braços do médico para poder abraçá-lo. Mas o bebê, sem saber, já carrega dentro de si a vontade de sair e conhecer o mundo. Esse sentimento de liberdade é regido pelo amor.
Sabemos que, do nascimento até a vida adulta, vivemos uma crescente fonte de conhecimento e libertação. Libertação de sentimentos acumulados, de medos, de dúvidas — coisas que jamais aprenderíamos trancados em um quarto ou em uma prisão.
Falando em prisão, para um prisioneiro, a liberdade é o pensamento mais alto durante todos os dias atrás de uma muralha de concreto. Longe da família. Longe dos amigos. Longe dos abraços. Longe do toque na areia do mar. Longe das pequenas felicidades diárias.
Imagine um único dia longe de quem você ama.
Você conseguiria?
Conseguiria viver sem tocar os pés na areia? Sem sentir o vento do mar? São lembranças que fazem o coração bater mais forte. Mas de que adiantam as lembranças se não houver liberdade para reviver e sentir tudo outra vez?
Quando eu era criança, achava que o momento mais glorioso da minha vida era quando meu pai me deixava jogar bola depois que meus amigos iam lá em casa pedir autorização. Aquilo era liberdade. Era como se eu estivesse sendo autorizado a viver o que eu amava.
Mas, quando eu jogava até tarde e esquecia o horário de voltar, vinha a correção. A surra. E, em segundos, aquela sensação de liberdade desaparecia.
Era uma falsa liberdade.
Fui crescendo. Vivi romances e sofrimentos de adolescente. E, conforme amadurecia, acreditava que a verdadeira liberdade seria ter o controle total da minha própria vida.
O complicado da vida é que somos obrigados a vivê-la sem manual de instruções. Nossa mãe não está sempre ali para puxar nossa orelha. Nosso pai não está sempre ali para proibir uma decisão errada.
Sempre dei muito valor à família — talvez porque fosse o que eu menos tinha. Cresci em meio a brigas e confusões. Muitas vezes apanhei mais do que fui abraçado. Eu me sentia perdido. Mas prometia a mim mesmo que comigo seria diferente. Eu teria a minha família.
Com dezenove anos, me casei.
Foi difícil. Muito difícil. Mas também foi libertador. O amor transbordava, enquanto o medo ocupava a mente. Porque não existe liberdade maior para um casal do que viver sob a própria responsabilidade.
A diferença entre estar na casa dos pais e estar casado é simples: quando você erra com seus pais, eles corrigem, repreendem, ensinam — e continuam te amando, não importa quantas vezes você falhe.
No casamento, a palavra liberdade ganha outro peso. Nunca sabemos o limite dela. Alguns usam a liberdade para trair. Outros para brigar. Outros para se afastar.
O ser humano demora para entender o poder da liberdade.
E existe um estágio ainda maior dela: a liberdade sentimental.
Não estou falando de perder alguém que morreu. Estou falando de perder alguém que continua vivo — alguém que você amou com todas as forças, alguém por quem você morreria.
Perder alguém que ainda está por aí, vivendo novos dias, escrevendo uma nova história… isso é assustador.
É como viver em uma prisão emocional sem grades visíveis.
Por dias e noites, choramos. Revivemos momentos felizes na mente. Tentamos entender onde tudo se perdeu.
Alguns anestesiam a dor com bebida.
Outros com drogas.
Outros procuram um novo amor.
Outros mergulham no que gostam — ler, jogar, trabalhar, se distrair.
Tudo em busca da cura do coração.
Mas não há nada mais libertador do que acordar e perceber que já não dói como antes.
Nada mais libertador do que lembrar e não sentir o peito apertar.
Nada mais libertador do que entender que aquela pessoa foi apenas alguém que passou na sua vida para te ensinar algo.
Sobre amor.
Sobre limites.
Sobre você.
Sobre liberdade.
Liberdade sempre será um sentimento confuso. Por mais simples que a palavra pareça, nunca sabemos o resultado que ela trará. Mas sabemos que ela transforma quem a experimenta.
E posso dizer com convicção: não há nada mais libertador do que se desprender de um amor que um dia pareceu eterno.
Às vezes, a verdadeira liberdade é como olhar o mar ao entardecer e ver um barco se afastando no horizonte.
Você sabe que ele não volta.
Mas, pela primeira vez… isso já não dói.
Futuro
Desde que saí da escuridão, muitas coisas mudaram. Algumas se encaixaram no lugar. Voltei a ser eu mesmo.
Voltei a ser o pai que sempre quis ser.
Voltei a ser o filho que minha mãe nunca deixou de amar.
Sempre fomos próximos. Mesmo brigando como dois irmãos teimosos, sempre nos amamos. Minha mãe sempre esteve por mim. Ela enxergava minha dor mesmo quando eu não dizia nada. Já passou fome para que eu pudesse comer. Já abriu mão de si para que eu tivesse um pouco mais.
Jamais quero, na minha vida, carregar a infelicidade de odiar ou ter medo da minha mãe. O único medo que me assombra é acordar um dia e não tê-la mais ao meu lado, me ajudando a ser melhor, me lembrando que ainda sou um filho amado.
Voltei a ser o irmão engraçado.
O irmão que, mesmo triste, sempre cuidou dos outros.
Muitas vezes saía de manhã cedo para pegar o pão do dia anterior na padaria, só para que meus irmãos pudessem tomar café. Voltei a ser o irmão chato, que pega no pé, que briga por respeito, que tenta ensinar liderança dentro de casa. Aquele que, com a experiência, aprendeu o valor do amor e entendeu que cada um tem seu jeito, seus gostos, seus sonhos.
Voltei a ser o irmão acolhedor.
E sempre serei o irmão mais velho presente — mesmo quando eles não querem estar perto de mim. Mesmo quando me rejeitam sem motivo. Mesmo sendo, muitas vezes, a “ovelha negra”.
Eu os amo do mesmo jeito.
Acompanhei o choro deles desde bebês. O choro de adolescente. As paixões. As decepções. As fases rebeldes, os estados apaixonados e até os momentos de embriaguez. As piadas ruins. Os sonhos impossíveis. Eu estava ali.
Voltei a ser um pai que ama ainda mais.
Antes, eu só trabalhava como um louco para dar o melhor ao meu filho. Me desgastei. Perdi tempo. Perdi energia. Hoje eu entendi que não basta prover — é preciso estar.
Agora eu ensino.
Brinco.
Assisto filmes.
Converso.
Sou mais paciente. Mais amoroso. Mais consciente.
Um pai que abraça quando o filho pede carinho.
Que corrige quando ele erra.
Que ensina quando há dúvida.
Que mostra como ser autossuficiente.
Que encoraja a ser forte, mas também ensina que chorar não é fraqueza.
Que o faz enxergar sua beleza interior e exterior.
Que lembra todos os dias: você é amado. Você é desejado. Você nunca estará sozinho.
Ele sempre terá um amigo.
Um pai.
Um irmão.
Um companheiro.
Eu.
Se fosse possível, eu trocaria a oportunidade de ir para o céu apenas para nunca envelhecer e poder acompanhar toda a evolução dele aqui na terra. Daria meu tempo. Daria minha vida. Pararia de respirar se isso significasse dar a ele uma segunda chance de viver.
Eu amo ser pai.
E, se eu pudesse, devolveria a ele tudo aquilo que a vida tirou.
Voltei a ser um menino sorridente. Com mais brilho no olhar. Com mais virtude. Com mais vontade de crescer. Voltei a sonhar.
Hoje eu acredito que, um dia, posso ter minha família restaurada — ou que Deus ainda pode me conceder um amor que nunca me abandone.
Voltei a me cuidar.
A viver como se não houvesse amanhã.
A entender que o hoje é mais importante que o ontem.
Ser educado hoje pode ser meu último ato de bondade.
Perdoar hoje pode ser meu último gesto.
Amar hoje pode ser minha última chance.
Voltei mais calmo.
Mais reflexivo.
Mais forte.
Com mais vigor.
Sempre esperei por um futuro melhor. Já desejei que a fome passasse rápido. Já esperei a manhã acabar para poder almoçar arroz, feijão e salada — qualquer mistura que matasse a fome do café da manhã que não existiu.
Precisei aprender o que é passar necessidade.
Precisei sentir a falta de dinheiro.
Tomar banho gelado ou de caneca para entender o valor de um chuveiro quente.
Aprender o que é ser homem dentro de casa.
Aprender que conforto é privilégio.
Aprendi também que nem todos que se dizem melhores amigos permanecerão. Alguns vão embora no pior momento. E isso também ensina — ensina sobre caráter, sobre valor, sobre quem realmente fica.
Hoje eu entendo: tudo foi escola.
E no futuro, espero muito mais de mim.
Mais maturidade.
Mais sabedoria.
Mais amor.
Mais coragem.
Porque sair da escuridão não significa nunca mais tropeçar.
Significa saber que, mesmo se cair, eu sei o caminho de volta para a luz.
Amar pela última vez
Existem dores que não começam no momento da perda.
Elas começam no amor.
Não há como falar sobre “amar pela última vez” sem sentir os olhos marejarem. Nascemos uma vez. Morremos uma vez. E, entre esses dois extremos, aprendemos a amar — muitas vezes sem saber que pode ser a última oportunidade.
O choro nos acompanha desde o início. O bebê nasce chorando. Sem maldade, sem entender o mundo, mas já sentindo. Chora porque é a única forma de pedir ajuda. Chora para comer, para dormir, para avisar que a água está quente demais ou fria demais. Chora porque existir, no começo, é assustador.
Talvez a vida adulta não seja tão diferente assim.
A diferença é que, com o tempo, aprendemos a chorar por dentro.
Mas nada se compara ao momento em que segurei meu filho pela primeira vez. Eu acompanhei todo o parto. Vi a dor. Senti cada contração como se fosse minha. Da tentativa do parto normal até a cesariana, eu estava ali — impotente, mas presente.
E então ele nasceu.
Saiu chorando alto, como se anunciasse ao mundo:
“Papai, estou aqui!”
“Mamãe, pode descansar.”
Naquele instante, tudo fez sentido.
Como pode um ser tão pequeno reacender sonhos que estavam quase apagados? Como pode um coração tão pequeno preencher um vazio tão grande? Meu sonho sempre foi ser pai. Mas eu tinha medo. Medo de não ser suficiente. Medo de falhar. Medo de repetir erros. Medo de mim mesmo.
Eu achava que tinha perdido tempo demais na vida. Sonhos deixados para trás. Anos que não voltam. Momentos desperdiçados. Mas, mesmo no fundo do poço, havia uma centelha acesa: o sonho de ser pai.
Eu não sabia, mas Deus já tinha escrito minha redenção em forma de criança.
Acordar todos os dias com ele correndo pela casa, fazendo bagunça, aprendendo a falar, aprendendo a viver… ensinar o certo através de conversa e abraço… perceber que amor não se impõe, se constrói. Tudo isso me transformou.
Meu filho não nasceu apenas.
Ele me fez nascer de novo.
E então, três anos depois, a vida me ensinou outra lição.
Meu irmão.
Ele já tinha vencido o câncer uma vez. Tinha lutado, tinha sido curado. Mas a doença voltou em forma de convulsões. Uma queda. Um mês de espera. E o silêncio definitivo.
Antes de tudo acontecer, tivemos nossa última chance.
Eu ia viajar. Estávamos brigados. Orgulho de um lado, orgulho do outro. Mas algo nos fez pedir desculpas. Nos abraçamos. Um abraço simples. Normal. Como se o amanhã fosse garantido.
Deixei meu computador e meu videogame à disposição dele. Ele amava jogar Minecraft. Gostava das músicas de Michael Jackson. Assistia Jackie Chan como se fosse a primeira vez.
Hoje eu penso:
Se eu soubesse que seria o último dia… eu teria jogado mais uma partida. Teria escutado mais uma música com ele. Teria abraçado mais forte. Teria ficado mais tempo.
Mas a gente nunca sabe quando é a última vez.
Na véspera de Natal, recebi a pior notícia da minha vida. Três anos antes, eu havia recebido o maior presente do mundo: meu filho. Agora, perdia meu irmão.
Foi ali que eu entendi.
A vida não avisa.
Pode ser a última conversa.
O último abraço.
A última risada.
A última briga.
O último “me perdoa”.
O último “eu te amo”.
E somos nós que decidimos como esses momentos vão acontecer.
Desde então, eu mudei.
O parquinho não fica para amanhã.
A pizza pode ser pedida à meia-noite de uma segunda-feira.
O suco favorito pode ser aberto hoje.
A música pode tocar no último volume.
A dança pode ser desajeitada mesmo.
Não dá para viver de qualquer jeito — mas também não dá para viver pelas opiniões dos outros. Quem sente a dor é você. Quem enfrenta o médico é você. Quem trabalha, quem paga as contas, quem carrega os próprios medos — é você.
Demorei para entender que viver do meu jeito não é egoísmo.
É responsabilidade com a minha própria felicidade.
Hoje eu sei o valor de chegar cansado em casa e receber o abraço do meu filho. Ligar o videogame e jogar Minecraft sorrindo, lembrando do meu irmão. Colocar minha música eletrônica e deixar o mundo lá fora desaparecer por alguns minutos.
Eu durmo em paz.
E acordo decidido a viver como se fosse a última vez.
Sorrir como se fosse a última vez.
Perdoar como se fosse a última vez.
Abraçar como se fosse a última vez.
Amar… como se fosse a última vez.
Porque um dia será.
Meu filho veio ao mundo para me ensinar sobre o amor que começa.
Meu irmão partiu para me ensinar sobre o amor que permanece.
E foi assim que eu aprendi o significado mais profundo da vida:
Não é sobre viver para sempre.
É sobre amar intensamente…
mesmo quando pode ser a última vez.
PAZ
“Às vezes, a paz não chega quando tudo se resolve, mas quando aprendemos que nem tudo precisa ser resolvido para continuarmos vivendo.”
Segundo algumas definições, a palavra “paz” representa um estado de calma, harmonia e ausência de conflitos, guerras ou perturbações.
Confesso que a falta desse sentimento é perturbadora.
Não há sono tranquilo. Não há descanso para a mente. Quando a paz está ausente, parece que o ódio e a tristeza encontram espaço para reinar em nossos corações.
Desde o início da história contada neste livro, uma das coisas que mais me assombravam era a ausência de sentimentos que hoje considero essenciais para viver.
Durante muito tempo, chorar foi minha única forma de resistência. Há cerca de dois anos, as lágrimas faziam parte da minha rotina. Eram praticamente minhas companheiras diárias. Afinal, recomeçar nunca foi fácil, muito menos trilhar caminhos diferentes daqueles que havíamos planejado.
Por muito tempo ouvi que homem não chorava. Talvez acreditar nisso tenha sido uma das coisas que mais me afundaram na escuridão.
Guardei mágoas desde a infância até a vida adulta. Sentimentos que, por medo ou vergonha, nunca tive coragem de colocar para fora.
Mas aprendi que, quando não encontramos uma maneira de expressar aquilo que sentimos, corremos o risco de deixar que tudo exploda dentro de nós.
Foi então que descobri os benefícios de chorar.
Chorar alivia a alma.
Chorar permite que a tristeza encontre uma saída.
Chorar não nos torna fracos. Pelo contrário, às vezes é preciso muita coragem para permitir que as lágrimas revelem aquilo que tentamos esconder do mundo.
Hoje entendo que nem toda lágrima representa sofrimento. Algumas representam libertação.
Portanto, se sentir vontade de chorar, chore. Não tenha vergonha de demonstrar seus sentimentos. Permita-se sentir, permita-se desabafar.
Porque, muitas vezes, depois da última lágrima, encontramos aquilo que tanto procurávamos:
A paz.
Uma das coisas que mais me atrapalharam durante a vida foi a falta de conhecimento e, principalmente, a falta do hábito de observar as coisas e as pessoas.
As pessoas sempre demonstram quem realmente são.
E fique tranquilo: nem sempre a primeira impressão é a que fica, como diz o ditado.
O ser humano possui várias versões de si mesmo. Com o passar dos dias, nossas impressões e opiniões podem mudar. Aquela pessoa que parecia extraordinária pode revelar atitudes que jamais imaginaríamos. Da mesma forma, alguém que inicialmente não nos chamou a atenção pode se tornar uma das pessoas mais importantes da nossa vida.
Confesso que tive muita dificuldade em aprender a observar.
Eu sempre estava na linha de frente, acreditando que as pessoas eram perfeitas e que todas tinham o mesmo objetivo: amar, ser amadas e encontrar a felicidade.
Nos relacionamentos, principalmente, eu ignorava conflitos que deveriam ter chamado minha atenção.
Não observava com cuidado a maneira como a pessoa tratava seus familiares, seus pais ou aqueles que estavam ao seu redor. Hoje entendo que a forma como alguém lida com as próprias relações familiares pode revelar muito sobre suas dificuldades, seus valores e sua maneira de amar, embora isso não determine completamente quem ela é.
Aquilo que antes eu considerava normal dentro de um relacionamento, como ciúmes excessivos, brigas constantes e desrespeito, hoje pode ser motivo suficiente para colocar um ponto-final.
E isso não significa falta de amor.
Significa maturidade.
Aprendi que os objetivos de vida precisam caminhar juntos. Que a maneira como alguém trata você, respeita seus limites e se comporta diante das dificuldades diz muito sobre o futuro daquela relação.
Nunca se esqueça: as pessoas dão sinais.
Às vezes, estamos tão apaixonados que preferimos fechar os olhos. Ignoramos atitudes, justificamos palavras e aceitamos situações que, no fundo, sabemos que estão nos machucando.
Tudo isso porque temos medo de perder alguém.
Mas hoje compreendo que nenhum amor, nenhuma paixão e nenhum desejo podem estar acima daquilo que realmente merecemos.
Não vale a pena perder a própria identidade para manter alguém ao nosso lado.
Não vale a pena sacrificar a saúde emocional para sustentar um relacionamento.
E, acima de tudo, não vale a pena perder uma das coisas mais preciosas que podemos conquistar:
A paz.
A raiva é um sentimento cercado de controvérsias.
Segundo estudos sobre as emoções humanas, ela é uma reação natural que pode surgir diante de injustiças, ameaças, frustrações ou situações em que nossos limites são ultrapassados.
É um sentimento que pode funcionar como um sinal de alerta, mas que também pode trazer consequências quando não sabemos lidar com ele.
Controlar a raiva é uma das tarefas mais difíceis que alguém pode enfrentar.
É como lutar contra a própria vontade.
Quando estamos com raiva, queremos responder imediatamente. Queremos provar que estamos certos. Queremos que o outro sinta o peso das palavras que nos machucaram.
Mas será que realmente precisamos responder a tudo?
Será que toda provocação merece nossa atenção?
Aprendi que conhecer meus limites e saber quando devo me retirar de determinados ambientes é uma das maiores demonstrações de maturidade.
Melhor ainda é aprender a controlar minhas reações.
Saber quem sou e quem desejo me tornar faz toda a diferença na hora de tomar decisões.
Hoje, quando alguém tenta me ofender, procuro lembrar de uma pergunta muito simples:
Quem sou eu?
Sou um pai solo, responsável por ensinar a outro ser humano como enfrentar a vida.
Sou um homem que já errou, sofreu, chorou e precisou aprender muitas coisas da maneira mais difícil.
Sou alguém que precisou reconstruir sua própria identidade.
Hoje tenho muito mais controle sobre aquilo que falo, sinto e faço.
Isso não significa que deixei de sentir raiva. Significa que aprendi que nem toda emoção precisa se transformar em uma atitude.
Tornei-me mais firme sobre aquilo que quero da vida. Já não aceito com a mesma facilidade situações que me fazem mal ou atrasam meu crescimento.
Controlar a raiva me trouxe benefícios que jamais imaginei.
Quando surge algum conflito, procuro usar duas ferramentas que considero poderosas:
A educação e o diálogo.
Existe algo extraordinário em conseguir responder com respeito quando alguém espera receber uma ofensa.
A raiva pode despertar a vontade de ferir, humilhar ou atingir a honra de outra pessoa. Mas a educação nos permite demonstrar firmeza sem abandonar nossos princípios.
E descobri que não precisamos vencer todas as discussões.
Às vezes, a maior vitória é sair de uma conversa sabendo que não desrespeitamos ninguém.
É olhar para trás e perceber que, mesmo diante de uma provocação, conseguimos permanecer fiéis à pessoa que escolhemos ser.
Hoje prefiro perder uma discussão a perder minha tranquilidade.
Prefiro o silêncio a palavras que possam machucar alguém.
Prefiro me afastar a permitir que uma situação passageira destrua aquilo que levei anos para reconstruir.
Porque, no final, o resultado que mais desejo não é ter razão.
É ter paz.
O último elemento que transformou minha vida foi o perdão.
Talvez uma das coisas mais difíceis que alguém possa aprender seja perdoar.
A mágoa, a raiva, o desprezo, a tristeza e até a falta de compreensão podem dificultar esse processo.
De maneira geral, perdoar significa escolher abrir mão do ressentimento e do desejo de vingança contra alguém que nos causou uma dor.
Mas falar sobre perdão é muito mais fácil do que praticá-lo.
Desde o nascimento até a velhice, passamos por inúmeras situações que nos ensinam sobre esse sentimento.
As crianças, muitas vezes, praticam o perdão sem sequer compreender sua profundidade.
Brigam por um brinquedo, choram, ficam tristes e, pouco tempo depois, estão brincando novamente.
O desejo de continuar vivendo aquele momento parece ser maior do que a vontade de permanecer brigadas.
Na vida adulta, tudo se torna mais complicado.
As palavras machucam mais.
As atitudes deixam marcas profundas.
O orgulho cresce, as lembranças permanecem e, muitas vezes, esperamos que alguém reconheça o erro antes de permitirmos que a dor vá embora.
Na velhice, talvez muitos compreendam que o tempo é precioso demais para ser desperdiçado com ressentimentos. Quando percebemos que a vida está passando, estar em paz pode se tornar mais importante do que qualquer discussão.
Mas por que esperar envelhecer para entender isso?
Eu precisei aprender a perdoar.
E não foi fácil.
O perdão me ajudou a ser um trabalhador melhor. Mudou minha maneira de lidar com as pessoas e até a imagem que elas tinham de mim.
Me ajudou a educar meu filho com mais paciência, mesmo quando sua energia parece estar acima de mil.
Me ensinou que posso corrigir sem humilhar, orientar sem agredir e demonstrar amor mesmo quando preciso impor limites.
O perdão também melhorou meu relacionamento com minha família.
Aprendi que podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, estabelecer limites.
Que perdoar não significa aceitar novamente aquilo que nos machucou.
Que podemos desejar o bem a uma pessoa sem precisar permitir que ela volte a ocupar o mesmo espaço em nossa vida.
Mas foi na minha vida sentimental que o perdão provocou uma das maiores transformações.
Durante muito tempo, carreguei perguntas que pareciam não ter respostas.
Por que fizeram isso comigo?
Por que tudo precisou terminar daquela maneira?
Por que eu precisei sofrer tanto?
Até que compreendi algo que mudou minha maneira de enxergar a vida:
Não posso controlar as escolhas de outras pessoas. Posso controlar apenas minhas próprias atitudes e a maneira como decido responder ao que acontece comigo.
Não sou responsável pelas decisões que os outros tomam.
Não posso obrigar ninguém a permanecer.
Não posso exigir que alguém me ame da mesma maneira que eu amo.
Mas posso escolher não transformar minha dor em ódio.
Posso escolher não devolver sofrimento a quem me fez sofrer.
Posso escolher seguir em frente.
E, principalmente, posso escolher perdoar a mim mesmo pelos erros que cometi quando ainda não tinha a maturidade que tenho hoje.
Perdoar não apagou minha história.
Não apagou minhas lembranças.
Não fez com que tudo aquilo que vivi deixasse de existir.
Mas retirou de mim o peso de carregar sentimentos que já não precisavam fazer parte do meu presente.
Hoje consigo olhar para trás sem desejar vingança.
Consigo lembrar de momentos difíceis sem permitir que eles determinem meu futuro.
Consigo entender que algumas pessoas fizeram parte da minha história, mas não precisam fazer parte dos próximos capítulos.
E isso é libertador.
Quando a escuridão se transforma em paz
Hoje me encontro vivendo uma fase que, durante muito tempo, parecia impossível.
Estou feliz.
Estou amando.
Estou sorrindo.
Voltei a cantar, escrever, correr, fazer amizades e aproveitar os pequenos momentos da vida.
Voltei a dormir bem.
E talvez essa seja uma das maiores conquistas de toda a minha história.
Porque houve um tempo em que meu quarto era uma verdadeira zona de guerra.
Era naquele quarto que eu chorava até perder as forças.
Era naquele quarto que eu questionava minha existência.
Era naquele quarto que eu me perguntava se algum dia voltaria a ser feliz.
As paredes conheciam meus gritos.
O travesseiro conhecia minhas lágrimas.
E o silêncio conhecia todas as perguntas que eu não tinha coragem de fazer a ninguém.
Mas hoje tudo mudou.
O quarto continua sendo o mesmo lugar onde descanso meu corpo depois de um dia cansativo.
Mas já não carrega o mesmo significado.
Hoje ele é meu refúgio.
É onde descanso, penso, escrevo, escuto minhas músicas e agradeço por mais um dia de vida.
É onde posso fechar os olhos sem medo dos meus próprios pensamentos.
É onde o silêncio deixou de ser meu inimigo e passou a ser uma companhia agradável.
Aquele homem que chorava sozinho, sem saber como seria o amanhã, jamais imaginaria que um dia conseguiria olhar para tudo o que viveu e sentir gratidão por ter continuado.
Não porque o sofrimento tenha sido bom.
Mas porque, apesar dele, consegui encontrar um novo caminho.
Hoje compreendo que a paz não significa ter uma vida perfeita.
Não significa nunca mais sentir tristeza, raiva ou medo.
Significa entender que esses sentimentos podem existir sem tomar conta de quem somos.
Significa reconhecer quando devemos lutar e quando precisamos simplesmente deixar ir.
Significa amar sem perder a própria identidade.
Perdoar sem esquecer as lições.
Ser forte sem ter vergonha de chorar.
E, acima de tudo, compreender que não precisamos viver em guerra com o passado para construir um futuro melhor.
Durante muito tempo, procurei a paz em outras pessoas.
Procurei no amor.
Procurei nos sonhos.
Procurei em lugares onde acreditava que finalmente seria feliz.
Mas hoje entendo que a paz também precisava ser construída dentro de mim.
E foi justamente no lugar onde mais sofri que comecei a encontrá-la.
Naquele quarto escuro.
Naquelas noites intermináveis.
Naquelas lágrimas que pareciam não ter fim.
A escuridão não desapareceu da minha história. Ela continua existindo nas páginas deste livro, nas lembranças e nas cicatrizes que carrego.
Mas já não é o lugar onde vivo.
Hoje, quando olho para meu filho, quando abraço minha mãe, quando canto uma música ou simplesmente deito minha cabeça no travesseiro depois de um longo dia, percebo o quanto minha vida mudou.
Não preciso mais fugir dos meus pensamentos.
Não preciso mais provar meu valor para quem não consegue enxergá-lo.
Não preciso mais carregar o peso de todas as pessoas que passaram pela minha vida.
Porque, depois de tantas perdas, lágrimas, despedidas e recomeços, finalmente encontrei aquilo que tanto procurei.
E se um dia alguém me perguntar qual foi a maior conquista da minha vida, talvez eu não responda que foi um emprego, um casamento, um bem material ou qualquer outra realização.
Talvez eu simplesmente sorria e diga:
“A maior conquista da minha vida foi conseguir voltar a dormir em paz.”
Porque o lugar que um dia foi tomado pela tristeza, pelo medo e pela escuridão...
Hoje se tornou o meu lugar de PAZ.
— Estevão Nunes
Thoughts
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PermalinkMano, a frase da pastora pesou mais do que ela imaginou. Dali você decidiu nunca desistir, e essa promessa segurou sete anos de um casamento que já tinha motivo pra acabar. Pra mim o livro vira quando você para de provar alguma coisa pra frase dela.
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PermalinkO Lucas pintando no canto e se chamando de bebê do papai ensinou mais solitude do que a conta toda do Fernando, uai. Deus aparece pouco com palavra grande aqui e muito nesses abraços miúdos dele.
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PermalinkBem-vindo, Estevão! O quarto escuro abre e fecha o livro inteiro: começa como campo de guerra e termina como o lugar onde você dorme em paz e escreve. Meu palpite é que muita coisa daqui nasceu ali dentro, de madrugada, antes de virar capítulo. Obrigado por trazer um livro inteiro como primeiro post, isso não é pouco :)
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