Um relato íntimo e uma motivação para a escrita.
Escrever sempre foi, para mim, desde que tenho consciência da magia da escrita, um desejo latente de materializar idealizações, sonhos e epifanias, expressar o inexpressável de uma subconsciência que sempre teve fome de metamorfosear ideias em letrinhas rabiscadas. Porém, apesar de toda a beleza por trás, há também uma feiura predominante no processo que, pelo menos para mim, sempre esteve presente: a batalha de se desvencilhar da insegurança, de se ver à margem da valorização da própria criação, cair num vazio existencial ao tentar achar o real sentido de produzir a escrita, ver-se na perdição e na desesperança, encarar sua criação como Victor Frankenstein olhou para a sua — uma aberração que deve ser destruída. Tenho recordações claras de me ver diversas vezes em um ciclo vicioso: ao terminar um conto, poema ou qualquer processo de escrita criativa, acabar desvalorizando o fruto da minha criatividade, jogando fora ou apagando com um simples DELETE no teclado. E isso é uma crueldade, um castigo e uma morte para um Eu, e esse fator sempre foi uma grande e terrível pedra no caminho.
Com isso em mente, alguns meses atrás me vi fascinado pelo mito de Sisyphus, uma figura que desafiou os deuses, enganou a morte duas vezes e recebeu um castigo severo: executar um trabalho exaustivo, repetitivo e sem propósito por toda a eternidade — carregar uma pedra até o alto de uma montanha, e toda vez que chegasse ao topo, ela rolava até o começo, e assim, por toda a existência, ele tentaria levá-la ao alto para no fim, vê-la cair de novo, e de novo. Essa figura trágica rondou todo o meu imaginário ao longo dos dias, e não consegui desvincular o reflexo que isso me causou: o de estar preso em um desgaste infrutífero de aniquilar minhas criações, de ficar horas diante da brancura do papel ou da tela do Word para que, logo após, com a mente inundada de ideias, começar a produzir por horas, dias, semanas, ficar vidrado, finalizar e, por fim, descartar tudo por achar que aquilo não tinha valor algum ou por não saber o que fazer com aquilo.
Contudo, ao vincular-me ao rei de Corinto, pensei em revolucionar-me: abraçar e guardar com carinho tudo o que escrevia ou anotava. Decidi largar a pedra — essa culpa de pensar que a escrita é improdutividade, que não me dava nada em troca. Isso me ocorreu após vivenciar, pela primeira vez, a beleza de encontrar um papel amassado no fundo de uma pasta com escritos da faculdade: uma epifania poética de uma aula de literatura, uma poesia escrita a lápis, quase apagada pelo grafite vagabundo. A sensação foi a de reencontrar alguém que eu havia aprisionado, ou como ler uma carta para si mesmo de um tempo longínquo. Revivi as sensações do momento em que fiz o poema, internalizei a graciosidade de poder ter algo meu guardado e, com isso, comecei a caçar coisas minhas e redescobri um universo íntimo de cadernos e agendas com escritos e desenhos de anos atrás — muitas metas e criações abandonadas pela rotina, por vícios, por trabalho e faculdade, mas, principalmente, pela falta de propósito.
Através dessa vivência, comecei a criar o hábito de escrever, guardar e revisitar, valorizar um Eu quase esquecido, e assim decidi migrar para o Savien e tentar criar uma rotina (nada irreal ou tóxica) de colocar aqui um mundo interno que sempre quis deixar voar pelas palavras — seja por resenhas, artigos, textos íntimos como este ou até mesmo textos de opinião acerca do que vivencio e consumo (cinema, literatura, arte etc.). Talvez este post e os que postei até agora, seja o início de uma jornada: expor-me e fazer valer aquilo que sempre almejei para mim — escrever e escrever.
Por fim, trago este pequeno relato para que talvez ele chegue a alguém que, como eu, precisou de um empurrão para se soltar da grande rocha e da montanha, como no mito grego. Pois, diferente da mitologia, Sisyphus ficará lá eternamente; já você e eu somos finitos, morreremos algum dia. E percebo que a escrita é um meio de se eternizar, de deixar um rastro de que, em algum momento da história da humanidade, alguém verá (ou até nós mesmos no futuro) que existiu uma alma com ideias mirabolantes, sentimentos intensos e que fazia da escrita um meio de expressão e recordação, um meio de respiro em meio ao caos e à desordem dos nossos tempos tão endoidecedores.
Tirar um tempo para escrever e para a sua consciência é um dos maiores atos revolucionários para si e para o mundo. Solte a rocha antes que você seja esmagado por ela e esqueça quem você foi um dia.