Aquela melancolia dos primeiros invernos que você chama de ser visitante. A gente vê igual em sala de hospital com gente que se muda. Leva tempo pra alma virar do mesmo lugar que o corpo dormiu.
C 21 : Um Norte no Sul./ Flores de Geada
Pensamento
Aquela melancolia dos primeiros invernos que você chama de ser visitante. A gente vê igual em sala de hospital com gente que se muda. Leva tempo pra alma virar do mesmo lugar que o corpo dormiu.
Conteúdo da publicação
Li certa vez que grandes mudanças de vida não são apenas uma questão de logística, mas processos psicológicos profundos. Dizem que leva de três a cinco anos para deixarmos de ser visitantes e criarmos raízes. Olho para trás, para estes quinze anos em Santa Catarina, e vejo que o tempo não apenas passou: ele me transformou em parte desta paisagem. O reassentamento, que no início parecia um deslocamento, hoje é a minha própria história, marcada pelo ritmo das estações.
Esse processo, contudo, foi melancólico por muitos anos. Era uma sensação física e mental constante de 'por que estou aqui nesta terra?'. Não fui bem recebida pela família do meu marido e, em muitas situações, fizeram-me sentir deslocada, como se aqui não fosse o meu lugar. Não escrevo sobre isso com tristeza, mas com uma profundidade reflexiva: apesar dos infortúnios familiares, sinto-me abençoada. Vim do Norte do país, construí uma família, minhas filhas nasceram aqui, ergui minha casa e prosperei.
Se vou falar desta terra e desta gente, tenho que falar sobre contrastes. Assim como a paisagem muda bruscamente do verde das serras para o azul do mar, as pessoas aqui são únicas, moldadas por um clima que exige resistência e entrega. Assim são as pessoas aqui: únicas. E, como as estações do ano, que mudam a natureza, esse ciclo transforma a maneira de viver.
O verão é amado e odiado: o calor acima da média, as filas indianas de carros rumo ao mar, os supermercados cheios, as roupas curtas. As pessoas ficam mais calorosas no verão; sorriem mais e são mais expansivas, talvez porque a escuridão das noites estreladas só chegue após as 20h. É maravilhoso ver o entardecer às 19h. O outono, na minha percepção, traz melancolia; o frio chega a cada dia e os dias tornam-se mais curtos. As massas de ar polar sopram com força. No inverno, as casas ficam fechadas, as pessoas, mais encasacadas e reservadas, encolhidas — talvez pelo frio. Já na primavera, as flores desabrocham, os dias esquentam, as casas abrem as janelas e a vizinhança dedica-se à jardinagem.
Essa renovação da natureza espelha a dignidade do cotidiano que encontrei aqui. Na minha rua, a vida pulsa em uma harmonia silenciosa: vejo o casal de professores, a vizinha diarista, os bancários e a oficina mecânica que abriu nos fundos de uma casa. Listei estas profissões porque elas carregam uma verdade local: aqui, o trabalho é o alicerce da prosperidade e permite uma vida digna a quem se esforça. Essa solidez catarinense também se manifesta nos laços que o tempo não corrói. Tenho uma amiga que não vejo há dois anos; nossa rotina resume-se a mensagens de celular, mas sei que, se o 'inverno' da vida apertar, ela cruzaria cidades para me socorrer. Ela é como as 'flores de geada': raras e resistentes, que provam que o afeto floresce mesmo sob baixas temperaturas. Essa mesma vitalidade eu observo naqueles que já atravessaram muitos invernos. Os idosos estão em toda parte, desafiando a ideia de fragilidade. Dançam, estudam, tricotam e, com uma disposição invejável, atendem nos supermercados ou deslizam de patinete pelas ruas. Eles são a prova viva de que a alegria não tem estação definitiva.
Hoje, quando olho para as minhas filhas correndo no quintal, entendo que a melancolia dos primeiros invernos não era falta de sol, mas o tempo de que a minha alma precisava para florescer em solo novo. Eu trouxe o calor do Norte dentro de mim, e Santa Catarina me deu o frescor da renovação. Criar raízes não é esquecer de onde viemos; criar raízes é permitir que o nosso presente floresça. Aquela sensação de deslocamento foi silenciada pela família que construí, pelos amigos, pelo som do café passando na cozinha e pelo cheiro de pão assando no forno — na casa que construímos nesta terra, o lugar que minhas filhas reconhecem como lar.
Viver este ciclo é um constante aprendizado: ele me ensinou que a vida, assim como as estações, é feita de esperas e chegadas. Santa Catarina não me deu apenas um endereço; deu-me um destino. E, ao abrir as janelas na primavera e sentir o cheiro da grama cortada, eu finalmente não me pergunto mais por que estou aqui. Eu simplesmente sei que, entre cores de arco-íris e ventos polares, eu estou em casa."
Thoughts
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PermalinkAs tuas filhas sabem que vieste do Norte? Ou pra elas Santa Catarina é o princípio de tudo?
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PermalinkEu conheço aquele silêncio de não se sentir bem-vinda. Mas que mudança tu conseguiu fazer. Aquilo que te rejeitou virou lugar onde cresce.
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PermalinkAquela melancolia dos primeiros invernos que você chama de ser visitante. A gente vê igual em sala de hospital com gente que se muda. Leva tempo pra alma virar do mesmo lugar que o corpo dormiu.
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PermalinkOito anos aqui na cadeira, os dedos das minhas clientes contam histórias tipo essa. Ninguém chega de carro novo; chega de ônibus. Depois a gente fica.
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PermalinkAs flores de geada é a parte que marca. Coisa rara que floresce em frio. Aqui no Macapá é tudo quente, tudo aberto. Vocês do Sul já nascem sabendo criar raiz em lugar difícil.
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PermalinkA gente se abre quando tá sozinho. Você ouviu Santa Catarina. Lindo demais.
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PermalinkAcordar num lugar sem conhecer ninguém é como acordar num quarto sem janela. Mas você puxou a cortina enquanto a gente dorme na escala. Quinze anos te fizeram saber onde estás.
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PermalinkAquela sensação de deslocamento. Sento com gente todo dia com datas tatuadas carregando histórias: deixou a cidade, deixou a vida anterior. Sua transformação em raiz é oposto, mas o caminho é igual.
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