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Última Carta de Mariana Alcoforado

Ninatina
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Anos depois... Muitos anos haviam se passado desde os dias em que Mariana ainda era jovem e acreditava que aquele amor poderia vencer qualquer distância. O tempo levou consigo a juventude, os dias…

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Pensamento

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vqueiroz90

Amei. Amo. Não me arrependo. Essa tríade quebra meu coração. Como permanecer indiferente diante de alguém que aos oitenta anos ainda se sente jovem quando se lembra daquela noite?

Amei. Amo. Não me arrependo. Essa tríade quebra meu coração. Como permanecer indiferente diante de alguém que aos oitenta anos ainda se sente jovem quando se lembra daquela noite?

Conteúdo da publicação

Anos depois...

Muitos anos haviam se passado desde os dias em que Mariana ainda era jovem e acreditava que aquele amor poderia vencer qualquer distância. O tempo levou consigo a juventude, os dias de espera e tantas lágrimas que um dia pareciam não ter fim.

Mariana permaneceu no convento, carregando consigo as lembranças daquele homem que um dia fizera seu coração bater de maneira que jamais voltaria a sentir por outro. Nunca mais recebeu uma carta dele. Ainda assim, nunca conseguiu apagar completamente aquele amor.

Com o passar dos anos, escreveu muitas cartas que jamais chegaram às mãos de seu amado. Algumas foram guardadas, outras permaneceram inacabadas, e muitas foram destruídas antes mesmo de serem enviadas. Talvez por medo, talvez por orgulho, ou simplesmente porque Mariana já compreendesse que certas histórias pertencem ao passado e não podem ser trazidas de volta.

Agora, já muito velha, sentindo que seus dias se tornavam cada vez mais breves, Mariana decidiu escrever uma última vez.

Não para pedir que ele voltasse.

Não para cobrar o amor que um dia esperou.

Mas apenas para deixar, antes de partir, as palavras que seu coração guardara durante uma vida inteira.

E assim, com as mãos já cansadas pelo tempo, Mariana tomou a pena e escreveu aquela que seria sua última carta...

Portugal, 20 de novembro de 1702

Meu amado,

Já não sei quanto tempo mais me resta, nem quanto tempo ainda vos resta nesta vida. Passaram-se tantos anos desde o nosso amor que, por vezes, parece-me ter vivido uma existência inteira desde aquele tempo. E, contudo, há lembranças que nem os muitos anos, nem a distância, nem o silêncio puderam apagar.

Esta será, talvez, a última carta que vos envio. Não sei quanto tempo mais me será concedido neste mundo, e sinto que não posso partir sem antes vos dizer aquilo que guardei em meu coração durante tantos anos.

Ainda vos amo.

Meu coração, já tão velho e cansado, ainda guarda por vós o mesmo amor que um dia fez minha alma estremecer. Quando torno os pensamentos à minha juventude, encontro-vos em quase todas as minhas lembranças. E, apesar de tudo o que se passou entre nós, são belas as recordações que conservo.

Muitas vezes ainda me pergunto: terá sido assim tão grande a distância que nos separou? Terão sido tantos os anos capazes de apagar aquilo que um dia sentimos? Pois, se o tempo tudo leva, por que razão não levou ele o vosso nome de meu coração?

Não vos guardo rancor. Fostes parte da minha história. Fostes parte daquele que foi o primeiro e único grande amor que conheci. E, mesmo depois de tantos anos, não consegui esquecer-vos.

Escrevi tantas cartas pensando em enviá-las, mas sempre alguma coisa me fazia recuar. Talvez fosse o temor de tornar a abrir uma ferida que jamais se fechara por completo. Talvez soubesse que certas palavras, uma vez entregues, já não poderiam ser recolhidas.

Minha vida foi pequena e passou depressa. Conheci a solidão, a espera e muitas noites de silêncio. Mas, ainda assim, não me arrependo de vos ter amado.

Mesmo depois daquela única carta que me enviastes, tão fria em suas palavras, meu coração não soube deixar de vos amar. Não vos amo pelas palavras que me feriram, mas pelo amor que um dia me fizestes conhecer.

Neste convento, tantas vezes me senti só. Mas então vós aparecestes diante de mim naquele dia, e meu coração, que por tanto tempo conhecera apenas o silêncio, pareceu descobrir, de repente, uma razão para bater.

E ainda hoje, tantos anos depois, antes de repousar, ergo os olhos ao céu e penso em vós.

Lembro-me daquela noite em que nos deitámos naquele jardim, sob a escuridão tranquila, apenas nós dois, contemplando as estrelas. Falávamos baixinho, confiando um ao outro os segredos de nossas almas, as nossas esperanças, os nossos temores e aquelas pequenas dores que jamais havíamos ousado revelar a mais ninguém.

Quem diria que uma noite tão breve poderia permanecer inteira dentro de uma vida tão longa?

Às vezes penso que, enquanto olhávamos aquelas estrelas, não imaginávamos que um dia seriam elas as mesmas que eu contemplaria sozinha, já velha, procurando no céu alguma lembrança de vós.

Talvez nunca mais nos encontremos. Talvez esta seja verdadeiramente a última vez que vos escrevo. Mas, se algum dia vos lembrardes de mim, não vos lembreis das lágrimas, da espera ou da distância.

Lembrai-vos somente daquela jovem que um dia vos amou com todo o coração.

E agora, sendo já tão velha, posso enfim dizer-vos aquilo que durante tantos anos guardei em silêncio:

Eu vos amei. Eu ainda vos amo. E não me arrependo de vos ter amado.

Adeus, meu amado.

Se esta for realmente a minha última carta, que sejam estas as últimas palavras que vos deixo: fostes o meu primeiro amor e, de alguma maneira, permanecestes sendo o meu único.


Mariana Alcoforado

Thoughts

  • Simao

    A carta fria que ele enviou anos depois. Que coragem, ou desespero, precisa-se para passar uma vida inteira amando alguém que não respondeu como esperado? Mariana não escolheu o amor fácil. Escolheu o verdadeiro.

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  • Rui_Salgueiro

    Há uma força em reconhecer que certas histórias pertencem apenas ao passado, que certos amores não podem ser trazidos de volta. Mas ainda assim, insistir em escrever. Em lembrar. Em contar.

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  • Marina

    O convento como prisão, mas também como santuário. Dentro daquelas paredes, Mariana construiu um mundo onde ele sempre voltava, onde as cartas jamais ficavam perdidas. A realidade foi mais dura que qualquer ficção.

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  • vqueiroz90

    Amei. Amo. Não me arrependo. Essa tríade quebra meu coração. Como permanecer indiferente diante de alguém que aos oitenta anos ainda se sente jovem quando se lembra daquela noite?

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  • tresPaginas

    Os primeiros e únicos grandes amores deixam marcas que nunca cicatrizam. O convento, a caneta, as cartas que queimou, as que guardou. Tudo parece um ritual de sobrevivência através da memória.

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  • tmoreira93

    A noite no jardim sob as estrelas. Esse é o fio que a manteve viva por tantos anos, aquela única noite que expandiu-se para toda uma vida. Há algo de raro nisso, de honesto.

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  • sofadasala

    Que tristeza tocante, escrever cartas que nunca chegarão. Mas talvez a carta que finalmente alcançou alguém fosse essa. A que ela não esperava que fosse lida por ninguém, e que de alguma forma chegou até nós.

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  • paginadobrada

    O tempo não apaga as coisas que amamos. A beleza dessa carta está em compreender, aos oitenta anos, que uma vida não foi desperdiçada só porque terminou em silêncio. Mariana não pediu de volta o que nunca voltará. Apenas permitiu que seu coração falasse uma última vez.

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