Então o Ariel já tinha segurado o Joel antes de saber o nome dele. Agora o jeito do Joel nos capítulos da escola faz outro sentido pra mim, ele gosta dele faz dois anos e o Ariel nem lembra.
Teoria nº 12: A Equação da Sobrevivência
Pensamento
Então o Ariel já tinha segurado o Joel antes de saber o nome dele. Agora o jeito do Joel nos capítulos da escola faz outro sentido pra mim, ele gosta dele faz dois anos e o Ariel nem lembra.
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Domingo, 21 de junho de 2009
Tudo começou com dores no joelho. No início, eram fracas, apareciam no fim do dia, como se fosse apenas cansaço ou crescimento. Meus pais diziam que era normal. Mas as dores foram piorando. Vieram à noite, fortes, profundas, como se o osso estivesse queimando por dentro. Comecei a mancar. Às vezes, o joelho inchava e ficava quente. Teve dias em que eu não conseguia nem apoiar o pé no chão.
Depois vieram os exames. E a palavra que mudou tudo.
Câncer.
Os médicos disseram que eu estava com câncer no osso do joelho e que a doença já estava em estado avançado. Falaram que as chances de sucesso teriam sido maiores se tivesse sido descoberto antes. Eu vi meus pais se sentirem culpados, como se a dor fosse culpa deles. Mas eu não sentia raiva. Só medo.
Passei por uma cirurgia. Minha perna foi amputada. Para tentar me dar mais qualidade de vida, os médicos realizaram um procedimento chamado rotacionoplastia. Eles giraram parte da perna para que o tornozelo pudesse funcionar como um joelho e, no futuro, eu pudesse usar uma prótese.
Agora estou fazendo quimioterapia. Já faz um tempo.
Meu cabelo caiu todo. Às vezes, acordo enjoado, com náuseas tão fortes que mal consigo levantar da cama. Vomito com frequência. Minha boca vive seca, sinto gosto metálico, e meu corpo está fraco, pesado, como se eu tivesse perdido toda a energia. Qualquer esforço me cansa. Minhas pernas tremem. Meus ossos doem.
— Filho, já já isso vai acabar — diz minha mãe, com a voz trêmula, logo após a enfermeira colocar o soro na minha veia para mais uma sessão de quimioterapia.
Mas eu não aguento mais.
Todo dia eles furam o meu corpo. Agulhas, exames, remédios. Eu não aguento mais. Isso é um pesadelo. Vejo o olhar de pena dos médicos e dos enfermeiros. Eles tentam disfarçar, mas eu percebo. Eles me olham como se já soubessem que eu não vou sobreviver.
— Oi, filhão — diz meu pai ao entrar no quarto. — Como você está se sentindo?
Ele toca de leve a minha cabeça raspada.
Estou tão fraco que não consigo responder. Apenas sorrio, com dificuldade. Até sorrir está sendo difícil.
De repente, minha mãe se levanta e sai do quarto. O rosto dela está trêmulo. Eu sei que ela vai chorar no corredor. Ela nunca chora na minha frente.
Depois de alguns dias da quimioterapia, a enfermeira me levou para ver o pôr do sol.
Meu pai tinha ido levar minha mãe para casa, para que ela pudesse tomar banho e pegar algumas roupas limpas.
Eu estou estragando a vida dos meus pais.
Minha mãe é uma arquiteta incrível, mas precisou abrir mão da própria carreira para cuidar de mim. Meu pai só anda pensando na minha situação e já não consegue se concentrar no trabalho.
Tudo por minha culpa.
Às vezes, eu só quero morrer logo... para que eles possam seguir em frente.
Não quero mais ser um peso na vida deles.
— Eu vou te deixar aqui por alguns minutos — diz a enfermeira, enquanto trava a cadeira de rodas. — Daqui a pouco eu venho te buscar.
Ela sorri de leve e se afasta.
Levanto a cabeça com dificuldade e fico observando o pôr do sol tingir o céu de laranja e rosa. As nuvens se movem devagar.
Quando eu morrer, quero me transformar em uma nuvem... e apenas flutuar pelo céu, sem dor, sem culpa.
— Eu não quero — escuto uma voz atrás de mim.
— Vem, Ariel, vai ser legal — diz a enfermeira, retornando enquanto empurra outra cadeira de rodas. — Observe o pôr do sol com o Joel. Vocês têm a mesma idade, então provavelmente vão se dar muito bem — acrescenta, posicionando-o ao meu lado.
— Eu só queria ficar no quarto com a minha irmã — diz Ariel, emburrado.
— A Ariana precisa passar por alguns exames primeiro. Depois você vai vê-la — responde a enfermeira, fazendo carinho em seus cabelos. — Daqui a pouco eu volto.
Ela vai embora, nos deixando sozinhos.
— Como é seu nome mesmo? Eu não ouvi direito — diz Ariel, me olhando confuso. — É Jo... José?
Faço que não com a cabeça.
— Joseph? — ele tenta outra vez, pensativo. — Hm... você não tem cara de Joseph.
Dou um pequeno sorriso.
— Você é carequinha... parece até o Aang — diz Ariel, surpreso. — O Aang, de Avatar.
Meu sorriso cresce um pouco mais. Esse garoto é engraçado.
— Ah, então você já assistiu Avatar? — pergunta ele, animado.
Faço que sim com a cabeça.
— Eu tô muito ansioso para assistir o filme que vai lançar ano que vem — continua Ariel, empolgado. — Mas não sei se vai ser tão bom quanto o desenho. Minha irmã diz que vai ser.
Ele fala com tanta leveza...
Esse garoto é alegre, sorridente. Nem parece que está doente.
E, por alguns minutos, o jeito dele me faz esquecer da dor, do medo...
E até do desejo de desaparecer.
— Eu ainda não entendo por que estou aqui. Eu acordei ontem e estou fraco, nem consigo ficar de pé — diz Ariel, confuso.
— A minha irmã ainda está dormindo... tomara que ela acorde logo. Amanhã a gente tem uma viagem em família. Meu pai acabou de comprar um barco bem bonito — acrescenta, animado.
Fico observando Ariel. Ele com certeza passou por algo traumático para ter esquecido de tudo assim.
— Nossa... agora que eu fui perceber, você é bem magrinho. Seus olhos estão fundos, seus lábios estão secos — diz Ariel, me analisando de cima a baixo.
O olhar dele para de repente na minha perna amputada.
— Você... você também não tem uma perna — completa, encarando a perna toda enfaixada.
Abaixo o olhar e fico pensativo.
— Você deve estar passando por uma situação muito difícil. Espero que consiga superar tudo isso — diz Ariel, com um sorriso acolhedor.
Desvio o olhar e balanço a cabeça em negativa.
— Você não pode desistir — diz Ariel, tocando meu ombro com cuidado. — Você tem que sobreviver. Tem que lutar pelas pessoas que te amam... seu pai, sua mãe, seus irmãos.
Balanço a cabeça novamente. Ariel percebe minha expressão de desânimo.
— Eu só quero morrer logo e acabar com o sofrimento dos meus pais — digo, com a voz quase inaudível.
Ariel me encara com firmeza.
— Mas se você morrer, o sofrimento não vai acabar — diz, sério. — Eles não vão perder a memória depois da sua morte. Vão carregar essa dor pelo resto da vida. Por isso, você precisa lutar para superar esse pesadelo.
Os olhos dele se enchem de lágrimas.
— Vença essa doença para devolver a felicidade aos seus pais — continua. — Se você perder essa luta, eles vão carregar essa dor até a morte. Não deixe seus pais te enterrarem... você é quem deve enterrá-los quando eles estiverem bem velhinhos.
As palavras de Ariel me atingem em cheio.
Ele tem razão.
Eu não posso desistir.
Se eu morrer, toda a minha luta e todo o meu esforço terão sido em vão.
É de manhã, e logo a enfermeira traz o café da manhã. Mesmo sem apetite, começo a comer. É difícil engolir, a garganta parece travar, mas faço força para continuar.
— Não acredito que você está conseguindo comer, filho — diz minha mãe, chorando de emoção.
Olho para ela com esforço.
Mãe, eu juro que não vou desistir. Eu prometo que vou fazer essa dor sumir.
Pouco depois, escuto duas enfermeiras conversando perto da porta.
— Amiga, você viu que recuperaram os corpos daquele casal? — diz uma delas, em tom baixo.
— Eu vi... é uma tragédia. Os filhos sobreviveram por um milagre. Foram encontrados boiando em alto-mar, ficaram quase dois dias na água — responde a outra.
Meu coração aperta.
— A menina acabou de acordar e se lembra de tudo... mas o menino, o Ariel, não se lembra de nada sobre o acidente — completa a enfermeira.
— Meu Deus... pobres crianças. Perderam os pais assim — diz minha mãe, horrorizada, levando a mão à boca.
Fecho os olhos por um instante.
Te desejo forças, Ariel... quando você se lembrar de tudo o que passou.
No dia seguinte, bem cedo, começo a ouvir gritos ecoando pelo hospital. Meu corpo se arrepia. Reconheço aquela voz.
É a voz do Ariel.
— O que está acontecendo? — pergunta minha mãe, assustada, levantando-se rapidamente para espiar no corredor. — O que houve? — questiona ela a uma enfermeira que passa apressada.
— É o menino do acidente de barco — responde a enfermeira, com expressão preocupada. — Ele se lembrou... e está tendo um ataque de pânico.
Minha mãe leva a mão ao peito.
— Pobrezinho... — diz, com a voz embargada.
Os meses se passaram, e entre idas e vindas ao hospital, exames intermináveis e sessões exaustivas de quimioterapia, o tempo pareceu se arrastar. Houve dias em que achei que não aguentaria mais. Dias em que meu corpo parecia desistir antes de mim. Mas, de alguma forma, eu continuei.
Naquela manhã, estou sentado na sala do médico com meus pais ao meu lado. Minha mãe aperta minhas mãos com força, como se tivesse medo de me perder se soltasse. Meu pai permanece em silêncio, rígido demais, tentando ser forte por nós três.
O doutor entra com uma pasta grossa nas mãos. Ele fecha a porta com cuidado e se senta à nossa frente. Seu rosto está sério... sério demais.
Meu coração dispara.
— Joel... senhor e senhora Martins — começa ele, ajustando os óculos — eu analisei cuidadosamente todos os exames mais recentes.
Prendo a respiração.
— Os resultados da quimioterapia foram extremamente positivos — diz ele, finalmente. — O tumor respondeu muito melhor do que esperávamos.
Minha mãe leva a mão à boca imediatamente. Meu pai fecha os olhos, respirando fundo.
— O câncer entrou em remissão — continua o médico, com um leve sorriso. — Não há sinais ativos da doença neste momento.
Por alguns segundos, ninguém fala nada. Parece que o mundo parou.
— Isso... isso quer dizer que ele venceu? — pergunta minha mãe, com a voz trêmula.
O médico assente.
— Sim. Joel venceu essa batalha.
Sinto algo quente escorrer pelo meu rosto. Nem percebo quando começo a chorar.
O doutor se inclina um pouco para a frente.
— Vou ser sincero — diz ele. — Houve momentos em que nós, da equipe médica, achamos que você não conseguiria resistir ao tratamento. Seu corpo estava muito fraco.
Engulo em seco.
— Mas você foi incrivelmente corajoso — ele continua. — Você lutou quando tudo parecia impossível. Poucos pacientes da sua idade suportariam o que você suportou.
Meu pai passa o braço pelos meus ombros, emocionado demais para falar.
— Quanto à cirurgia — o médico prossegue — a rotacionoplastia foi um sucesso. A cicatrização está evoluindo muito bem.
Ele abre a pasta e me mostra alguns papéis.
— E tenho outra boa notícia: sua prótese definitiva já está em fase final de fabricação. Em poucas semanas, ela deve chegar.
Meus olhos se arregalam.
— Eu... eu vou conseguir andar? — pergunto, com a voz fraca.
O médico sorri, confiante.
— Sim, Joel. Você vai andar. Vai correr, subir escadas, trabalhar, viver sua vida. Vai exigir fisioterapia, adaptação e paciência, mas seu corpo tem um potencial incrível.
Ele faz uma pausa, escolhendo bem as palavras.
— A prótese não vai limitar quem você é. Ela vai se tornar parte de você. No começo será estranho, difícil... mas, com o tempo, você vai esquecer que ela está ali.
Minha mãe chora em silêncio.
— Sua vida daqui em diante será diferente — conclui o doutor — mas não pior. Apenas diferente. Você vai precisar de acompanhamento médico regular, cuidados com o encaixe da prótese e atenção ao seu corpo... mas você terá uma vida plena.
Saímos do consultório abraçados.
E, naquele instante, eu soube:
Eu estava vivo.
E ainda tinha muito a viver.
Terça-feira, 01 de fevereiro de 2011
Já se passaram dois anos. Fiz fisioterapia, me adaptei à prótese e agora consigo andar normalmente. Finalmente estou voltando para a escola. Durante todo esse tempo, estudei em casa com professores particulares, mas agora vou, enfim, me misturar com colegas da minha idade.
É uma rotina nova. Vou entrar para o ensino médio.
Minha mãe me deixa na escola. Ela voltou a sorrir, e isso aquece meu peito. É tão bom ver meus pais alegres e vivendo outra vez. Mas há uma coisa que eles não sabem: eu lutei muito mais por eles do que por mim mesmo.
Assim que entro na sala, faço amizade com um garoto chamado Wei — ou Luiz, como ele prefere ser chamado. Ele acabou de se mudar da China para o Brasil. Ainda está aprendendo português, fala um pouco enrolado, mas dá para entender bem.
Na hora do recreio, estou na fila da merenda ao lado do Luiz. De repente, alguém passa esbarrando em mim, e eu acabo caindo no chão.
— Meu Deus, você está bem? — pergunta alguém, enquanto me ajuda a levantar.
Quando olho para cima, meu corpo gela.
É o Ariel.
Ele estuda aqui também.
— Você se machucou? — acrescenta ele, preocupado.
— Não... — respondo, sem jeito.
— Eu sou o Ariel — diz ele, com um sorriso aberto.
— Eu sou o Joel — respondo, todo bobo.
Meu rosto começa a esquentar.
— Presta atenção, Ariel, você atropelou o menino — repreende um garoto que se aproxima.
— Não exagera, Rafael — rebate Ariel.
Depois de pegarmos a merenda, nós quatro nos sentamos à mesma mesa.
— Então você veio da China? — pergunta Rafael, curioso, olhando para o Luiz.
— Sim — responde ele.
— Vocês têm que falar um pouco mais devagar, senão ele não entende — digo.
— E você, Joel — diz Ariel, me encarando com interesse — me conta sobre você.
Ele não me reconhece. Também... naquela época eu estava careca, muito magro, quase irreconhecível.
— Eu... bom, eu curto animes e jogos de RPG — digo, animado.
— Eu também! — diz Ariel, sorrindo. — Olha, Rafael, parece que finalmente encontramos alguém para jogar com a gente.
— Vai ser da hora — diz Rafael, empolgado.
— Eu também gosto de RPG — acrescenta Luiz.
— Então, a partir de agora, somos o Quarteto Fantástico — declara Ariel, com um sorriso confiante.
Fico observando aquele sorriso.
Nossa... ele é muito lindo.
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