Pular para o conteúdo
Carregando…

Teoria n°11: O Paradoxo da Dor Invisível

hyan_amorim

Conteúdo da publicação

Sexta-feira, 20 de março de 2026

Voltei para casa com o Joel, mas ainda estou intrigado com o fato de ele não ter sentido dor. A caixa literalmente esmagou o pé dele... e mesmo assim ele está andando normalmente.

Entramos, e ele tira os sapatos, mas permanece de meia. Só então percebo algo estranho: eu nunca vi os pés dele antes.

— Você realmente não se machucou? — pergunto, ainda preocupado.

— Eu estou bem, estrela da cozinha. Na verdade, esses sapatos são bem resistentes. Eles absorveram o impacto... nem doeu tanto assim — diz Joel, com um meio sorriso que não convence.

Dou um passo à frente.

— Deixa eu fazer uma massagem, então — digo, me aproximando.

— Não precisa — responde Joel rapidamente, visivelmente desconfortável, enquanto dá alguns passos para trás.

Meu coração aperta.

— Desculpa... eu não quis te deixar desconfortável — digo, sem graça, recuando. — Eu vou preparar o café da manhã.

Viro-me em direção à cozinha, mas sinto sua mão me puxar de leve.

— Ariel, espera — diz Joel. Ele respira fundo antes de continuar. — Eu vou te contar por que não senti dor.

Seguro suas mãos instintivamente.

— Eu estou vendo que você não está confortável... então você não precisa me contar, se não quiser — digo com cuidado.

Ele sorri de leve, um sorriso misturado com nervosismo.

— Tá tudo bem... está na hora de você saber esse detalhe da minha vida — diz ele, decidido, enquanto toca na barra da calça, com a voz baixa. — É por isso que eu não senti dor no pé.

Joel puxa lentamente a barra da calça para cima.

E então eu vejo.

Uma prótese.

Joel puxa a calça um pouco mais para cima. Meu olhar fica preso ali, incapaz de se mover.

— Você... você usa uma prótese? — digo, chocado, levando a mão à boca.

— Sim — responde Joel com calma, enquanto me puxa para sentar ao lado dele no sofá.

Sento ainda tentando processar tudo.

— Mas desde quando, Joel? — pergunto, com a voz baixa. — E por que você nunca me contou?

Ele respira fundo antes de responder, como se precisasse organizar memórias antigas demais.

— Quando eu tinha treze anos, eu tive câncer — diz, sem rodeios. — Um tumor no osso.

Ele faz uma pausa curta.

— Por causa disso, precisei amputar parte da perna... e passar por um procedimento chamado rotacionoplastia.

Franzo a testa, confuso.

— Rotacionoplastia? — repito.

— É uma cirurgia em que eles retiram a parte doente, mas giram o resto da perna em cento e oitenta graus — explica com cuidado. — O tornozelo passa a funcionar como se fosse um joelho. Assim, a prótese fica mais funcional, mais estável... e eu consigo andar, correr, viver normalmente.

Engulo em seco.

— E... o câncer? — pergunto, com medo da resposta.

— Eu fiz quimioterapia por um bom tempo — continua ele. — Agulhas todos os dias, hospitais, cheiro de álcool, máquinas apitando...

Joel aperta minhas mãos com força, como se ainda estivesse lá.

Abaixo a cabeça, sentindo o peso das palavras.

— Agora eu entendo o motivo do seu medo de agulhas — digo, com a voz baixa. — Passar por uma quimioterapia não deve ter sido nada fácil.

— Tá tudo bem, chefe — diz Joel, enquanto toca meu rosto. — Isso tudo foi há muito tempo.

— Mas você desenvolveu traumas por causa disso — digo, preocupado.

— Traumas que eu vou superar um dia — responde Joel, após respirar fundo. — Agora vamos fazer o café — acrescenta, me olhando com um sorriso.

— Você tem razão — digo, retribuindo o sorriso enquanto me levanto.

Vou até a cozinha, e Joel se senta no balcão, me observando enquanto preparo tudo. Estou com a frigideira no fogo quando ele se levanta e vem até mim.

— Isso está cheirando tão bem — diz Joel, me abraçando por trás.

— Está quase pronto, doutor — respondo, enquanto mexo a frigideira.

Ele apoia o queixo no meu ombro.

— Por que tudo o que você faz é perfeito? — pergunta, todo bobo.

— Porque eu passei quatro anos da minha vida me preparando para isso — respondo, com convicção.

— Sabia que você ia dizer isso — diz Joel, antes de cair na risada.

É noite, e estou no restaurante. O movimento está razoável. Estou conversando com o Joel pelo celular; ele disse que está vindo para cá com a galera da universidade.

— Nossa, o senhor está tão sorridente hoje... o que tanto ri nesse celular aí? — pergunta a subchefe, curiosa.

— Não é só hoje. O chefe anda muito sorridente esses dias — comenta um dos garçons, com um sorriso malicioso.

— Vocês estão viajando, gente — digo, sem graça.

— Conta outra, chefe — provoca Rayssa.

— Tá bom, vocês ganharam... estou dando uns pegas em um gatinho — confesso.

— Não me diga que você está pegando o Augusto Prado! Eu vi como ele estava olhando para você na gravação do episódio — diz a subchefe.

— Deus me livre. Eu nunca me envolveria com aquele arrogante — respondo, revirando os olhos.

— Então quem é? — questiona a subchefe, curiosa.

— O doutor Martins — digo, simples.

— O quê?! — exclama Rayssa, incrédula, derrubando uma panela no chão.

— Qual é a surpresa, Rayssa? Você sabe muito bem que o doutor Martins sempre foi apaixonado pelo chefe — diz a subchefe.

— Não acredito que finalmente o doutor Martins conquistou o coração do chefe — comenta um dos garçons, surpreso.

— O senhor não gosta do doutor Martins — diz Rayssa, incrédula, enquanto pega a panela do chão.

— E por que eu não poderia gostar do doutor Martins? — pergunto, confuso.

— Porque o senhor maltratou o doutor Martins todo esse tempo. O senhor com certeza só está fingindo que gosta dele — dispara Rayssa, irritada.

— Garota, você ficou louca? Como ousa falar assim com o chefe? — diz a subchefe, incrédula.

— A partir de hoje eu não trabalho mais aqui, então posso falar exatamente o que penso dele — diz Rayssa, me encarando fixamente.

— Então diga. Fale o que pensa de mim — digo, cruzando os braços e sustentando o olhar.

— Você é um chefe arrogante que se acha melhor do que todo mundo — diz Rayssa, com os olhos faiscando. — Mas em breve eu vou fazer a sua máscara cair.

Ela pega a bolsa e vai embora sem olhar para trás.

— Essa garota ficou maluca! — exclama a subchefe, chocada. — Como ela pode falar assim com o chefe?

— Não sabia que ela era apaixonada pelo Joel — digo, surpreso.

— Chefe, o seu novo brinquedinho sexual acabou de chegar — diz o garçom, enquanto espiava pela porta.

— Eu vou cortar essa sua língua — ameaço, apontando a faca em sua direção.

— O seu doutor está olhando para todos os lados — diz o garçom, ainda espiando.

— Eu vou lá recepcionar meus clientes — digo, enquanto tiro o avental.

— O chefe vai dar oi para o namorado — brinca a subchefe.

Todos então começam a me zoar.

— Para, gente — digo, sem graça, enquanto saio da cozinha.

Olho para o salão e logo vejo Joel. Ele está em uma mesa cheia. Também vejo Wei e Rafael. Há um que eu não conheço, mas o outro me parece familiar.

— Boa noite. Quanta honra ter tantos doutores no meu restaurante — digo, com um sorriso, enquanto me aproximo.

— Você não é aceleração, mas faz meu coração obedecer:

F = m·a...

porque toda força em mim agora aponta pra você — diz Joel, sem tirar os olhos de mim.

Meu rosto esquenta na hora.

— Então essa é a famosa estrela da cozinha do doutor Martins? — brinca o homem que eu não conheço.

— Sou eu mesmo — digo, com convicção, cruzando os braços.

— Já assumiram o namoro? — pergunta Wei, chocado.

— Claro, né — rebate Rafael, dando um leve tapa na cabeça de Wei.

— Vocês estão namorando? — pergunta o cara que me parece familiar.

— É que...

— Ainda estamos nos entendendo — Joel me interrompe antes que eu fale. — É um longo caminho, mas vamos chegar lá.

— Isso é impossível — diz o homem, incrédulo. — Vocês definitivamente não vão ficar juntos — afirma, com firmeza.

— Por que você tem tanta certeza disso? — questiono, encarando-o.

Todos na mesa ficam em silêncio, apenas olhando para ele, assim como eu.

O homem fica totalmente sem graça.

— Eu estava só brincando — diz ele, todo sem jeito. — Ei, Ariel, você não se lembra de mim? — pergunta, me encarando.

— Você realmente me parece familiar, mas não me lembro direito — digo, analisando-o dos pés à cabeça.

— Esse é o Henrique, ele estudou com a gente no ensino médio — explica Rafael.

— Sou Henrique Montenegro. Não se lembra de mim? — diz Henrique, desconfiado. — Éramos bem próximos no primeiro ano.

— Desculpa... é que minhas memórias do primeiro e do segundo ano são um pouco vagas — digo, sem jeito. — Mas eu te achei muito familiar assim que te vi.

— Compreendo — responde Henrique, com um sorriso. — Eu só estudei aqui até a metade do segundo ano.

— Você só quer um pretexto para se achar, né — diz Joel, revirando os olhos.

— Não estou me achando, é só um fato. Estudei na Coreia e fiz faculdade em uma das melhores universidades de Seul — rebate Henrique.

— Não acredito que vocês dois já vão começar... — diz Rafael, impaciente.

— Vamos fazer logo o pedido — acrescenta Joel, respirando fundo.

Então o Joel tem uma certa rivalidade com o Henrique.

Converso mais um pouco com eles e, depois, volto para a cozinha.

O expediente finalmente chegou ao fim. Já estamos do lado de fora. Eu e meus funcionários estamos exaustos, só precisando de um banho quente e de uma cama.

— Olha, chefe, seu namorado está aqui! — provoca um dos garçons.

Quando me viro, vejo o Joel no meio da rua.

Meu coração aquece assim que o vejo. Ele está com um buquê de flores nas mãos, e há uma plaquinha no meio delas com algo escrito: JOARI 🩷.

— O que você está fazendo? — pergunto, com os olhos arregalados, sentindo meu rosto ficar vermelho.

— Ainda não acabou — diz Joel, com um sorriso, apontando para cima.

Olho para o céu, com o coração acelerado. Quando vejo, ele dispara ainda mais.

O mesmo nome da plaquinha está escrito em fumaça, enorme, atravessando o céu: JOARI.

— Ai, meu Deus... — digo, completamente chocado.

— Ai, meu Deus, chefe... — murmura a subchefe, completamente encantada.

— Por favor, para com isso — digo, com o rosto mas vermelho que tomate, enquanto me aproximo. — Você precisa parar com essas declarações em público.

— Por quê? — Joel pergunta, frustrado. — Você não gostou, estrela da cozinha?

— Olha só, gente... o chefe vai ter uma noite quente com o namorado! — provoca a subchefe, antes de soltar um grito escandaloso.

Todos começam a me zoar com a ideia.

— Noite quente? — Joel pergunta, confuso. — Por que noite quente? — acrescenta, olhando para a subchefe, genuinamente perdido.

— É que...

— Já chega! — interrompo, morrendo de vergonha. — Vamos embora. Me leva pra casa.

Seguro a mão dele e o puxo em direção ao carro.

— Você não veio de carro? — Joel pergunta, confuso.

— Amanhã eu pego o meu. Vamos no seu — respondo, sem nem pensar.

— Tá bom, então — diz ele, abrindo a porta para mim, todo cavalheiro.

— Boa noite, chefe! — provocam os funcionários em coro.

Entro no carro sentindo o rosto pegar fogo.

— Desculpa por isso — diz Joel, assim que entra no carro. — Eu exagerei... eu só queria te fazer sorrir.

— É que você é muito intenso, doutor — respondo, respirando fundo.

Joel fica em silêncio por alguns segundos, pensativo.

— É que depois de tudo o que eu passei no hospital... eu comecei a agir mais por impulso — diz, com a voz baixa. — Quando a gente está à beira da morte, muitas coisas passam pela nossa cabeça.

Meu corpo enrijece.

— Você esteve à beira da morte? — pergunto, assustado, virando o rosto para ele.

Joel estaciona o carro e se vira na minha direção. Com delicadeza, toca meu rosto.

— Acho que eu nunca te contei o motivo de eu te amar tanto — diz Joel, após respirar fundo. — Agora você vai saber.

Não consigo dizer nada... apenas fico olhando para ele.

— Quando eu estava fazendo quimioterapia, eu estava fraco... não queria mais me alimentar.

Sinto meu peito apertar.

— Eu só queria desistir — ele continua, enquanto lágrimas escorrem pelo seu rosto. — Até que um garoto apareceu no hospital. Ele me deu forças. Me fez rir. Me incentivou a continuar lutando.

— Não pode ser... — murmuro, com a voz trêmula. — Você é o Aang? O menino do hospital?

As memórias me atingem de uma vez.

O garoto magro, de sorriso fraco.

Depois que me lembrei do acidente dos meus pais, o trauma me fez esquecer do Aang.

Mas agora eu me lembro.

Então Joel... você é o Aang!

#romance

Thoughts

  • oitoemponto

    O Henrique cravando que os dois não vão ficar juntos e logo depois dizendo que era brincadeira. Ninguém brinca com essa certeza toda. Ele e a Rayssa já se conheciam antes dessa noite?

    Permalink

Related posts

  • Teoria nº 12: A Equação da Sobrevivência

    Domingo, 21 de junho de 2009

  • Por trás do Glamour

    Página 28

  • Meu primeiro inigma

    Terça-feira, 02/01/2024

  • Prólogo

    Domingo, 10/06/2018

  • Meu namorado fantasma capítulo 3

    Segunda-feira, 15 de abril de 2024

  • Madson...

    Com Eithan ali se dedicando a me acalmar, fiquei mais tranquila, vendo os dois irmãos entrando em uma quase de discussão por eu estar chorando, para mim só mostrou que neithan era mais frio do que…

  • Capítulo 5 》Madson...《

    Eu segui o corredor para o segundo andar, repetindo cada palavra que o garoto havia dito na minha cabeça para não esquecer o caminho da biblioteca no meio de tantas portas e corredores, até o…

  • Neithan

    Eu estava sentado à mesa, tentando comer em paz, mas, aparentemente, Eithan tinha acordado com a única missão de acabar com a minha paciência.

Pública 1 conversa 2 pensamentos 11 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Sexta-feira, 20 de março de 2026

Em séries

Temas

Em grupos