Sexta-feira, 20 de março de 2026
Voltei para casa com o Joel, mas ainda estou intrigado com o fato de ele não ter sentido dor. A caixa literalmente esmagou o pé dele... e mesmo assim ele está andando normalmente.
Entramos, e ele tira os sapatos, mas permanece de meia. Só então percebo algo estranho: eu nunca vi os pés dele antes.
— Você realmente não se machucou? — pergunto, ainda preocupado.
— Eu estou bem, estrela da cozinha. Na verdade, esses sapatos são bem resistentes. Eles absorveram o impacto... nem doeu tanto assim — diz Joel, com um meio sorriso que não convence.
Dou um passo à frente.
— Deixa eu fazer uma massagem, então — digo, me aproximando.
— Não precisa — responde Joel rapidamente, visivelmente desconfortável, enquanto dá alguns passos para trás.
Meu coração aperta.
— Desculpa... eu não quis te deixar desconfortável — digo, sem graça, recuando. — Eu vou preparar o café da manhã.
Viro-me em direção à cozinha, mas sinto sua mão me puxar de leve.
— Ariel, espera — diz Joel. Ele respira fundo antes de continuar. — Eu vou te contar por que não senti dor.
Seguro suas mãos instintivamente.
— Eu estou vendo que você não está confortável... então você não precisa me contar, se não quiser — digo com cuidado.
Ele sorri de leve, um sorriso misturado com nervosismo.
— Tá tudo bem... está na hora de você saber esse detalhe da minha vida — diz ele, decidido, enquanto toca na barra da calça, com a voz baixa. — É por isso que eu não senti dor no pé.
Joel puxa lentamente a barra da calça para cima.
E então eu vejo.
Uma prótese.
Joel puxa a calça um pouco mais para cima. Meu olhar fica preso ali, incapaz de se mover.
— Você... você usa uma prótese? — digo, chocado, levando a mão à boca.
— Sim — responde Joel com calma, enquanto me puxa para sentar ao lado dele no sofá.
Sento ainda tentando processar tudo.
— Mas desde quando, Joel? — pergunto, com a voz baixa. — E por que você nunca me contou?
Ele respira fundo antes de responder, como se precisasse organizar memórias antigas demais.
— Quando eu tinha treze anos, eu tive câncer — diz, sem rodeios. — Um tumor no osso.
Ele faz uma pausa curta.
— Por causa disso, precisei amputar parte da perna... e passar por um procedimento chamado rotacionoplastia.
Franzo a testa, confuso.
— Rotacionoplastia? — repito.
— É uma cirurgia em que eles retiram a parte doente, mas giram o resto da perna em cento e oitenta graus — explica com cuidado. — O tornozelo passa a funcionar como se fosse um joelho. Assim, a prótese fica mais funcional, mais estável... e eu consigo andar, correr, viver normalmente.
Engulo em seco.
— E... o câncer? — pergunto, com medo da resposta.
— Eu fiz quimioterapia por um bom tempo — continua ele. — Agulhas todos os dias, hospitais, cheiro de álcool, máquinas apitando...
Joel aperta minhas mãos com força, como se ainda estivesse lá.
Abaixo a cabeça, sentindo o peso das palavras.
— Agora eu entendo o motivo do seu medo de agulhas — digo, com a voz baixa. — Passar por uma quimioterapia não deve ter sido nada fácil.
— Tá tudo bem, chefe — diz Joel, enquanto toca meu rosto. — Isso tudo foi há muito tempo.
— Mas você desenvolveu traumas por causa disso — digo, preocupado.
— Traumas que eu vou superar um dia — responde Joel, após respirar fundo. — Agora vamos fazer o café — acrescenta, me olhando com um sorriso.
— Você tem razão — digo, retribuindo o sorriso enquanto me levanto.
Vou até a cozinha, e Joel se senta no balcão, me observando enquanto preparo tudo. Estou com a frigideira no fogo quando ele se levanta e vem até mim.
— Isso está cheirando tão bem — diz Joel, me abraçando por trás.
— Está quase pronto, doutor — respondo, enquanto mexo a frigideira.
Ele apoia o queixo no meu ombro.
— Por que tudo o que você faz é perfeito? — pergunta, todo bobo.
— Porque eu passei quatro anos da minha vida me preparando para isso — respondo, com convicção.
— Sabia que você ia dizer isso — diz Joel, antes de cair na risada.
É noite, e estou no restaurante. O movimento está razoável. Estou conversando com o Joel pelo celular; ele disse que está vindo para cá com a galera da universidade.
— Nossa, o senhor está tão sorridente hoje... o que tanto ri nesse celular aí? — pergunta a subchefe, curiosa.
— Não é só hoje. O chefe anda muito sorridente esses dias — comenta um dos garçons, com um sorriso malicioso.
— Vocês estão viajando, gente — digo, sem graça.
— Conta outra, chefe — provoca Rayssa.
— Tá bom, vocês ganharam... estou dando uns pegas em um gatinho — confesso.
— Não me diga que você está pegando o Augusto Prado! Eu vi como ele estava olhando para você na gravação do episódio — diz a subchefe.
— Deus me livre. Eu nunca me envolveria com aquele arrogante — respondo, revirando os olhos.
— Então quem é? — questiona a subchefe, curiosa.
— O doutor Martins — digo, simples.
— O quê?! — exclama Rayssa, incrédula, derrubando uma panela no chão.
— Qual é a surpresa, Rayssa? Você sabe muito bem que o doutor Martins sempre foi apaixonado pelo chefe — diz a subchefe.
— Não acredito que finalmente o doutor Martins conquistou o coração do chefe — comenta um dos garçons, surpreso.
— O senhor não gosta do doutor Martins — diz Rayssa, incrédula, enquanto pega a panela do chão.
— E por que eu não poderia gostar do doutor Martins? — pergunto, confuso.
— Porque o senhor maltratou o doutor Martins todo esse tempo. O senhor com certeza só está fingindo que gosta dele — dispara Rayssa, irritada.
— Garota, você ficou louca? Como ousa falar assim com o chefe? — diz a subchefe, incrédula.
— A partir de hoje eu não trabalho mais aqui, então posso falar exatamente o que penso dele — diz Rayssa, me encarando fixamente.
— Então diga. Fale o que pensa de mim — digo, cruzando os braços e sustentando o olhar.
— Você é um chefe arrogante que se acha melhor do que todo mundo — diz Rayssa, com os olhos faiscando. — Mas em breve eu vou fazer a sua máscara cair.
Ela pega a bolsa e vai embora sem olhar para trás.
— Essa garota ficou maluca! — exclama a subchefe, chocada. — Como ela pode falar assim com o chefe?
— Não sabia que ela era apaixonada pelo Joel — digo, surpreso.
— Chefe, o seu novo brinquedinho sexual acabou de chegar — diz o garçom, enquanto espiava pela porta.
— Eu vou cortar essa sua língua — ameaço, apontando a faca em sua direção.
— O seu doutor está olhando para todos os lados — diz o garçom, ainda espiando.
— Eu vou lá recepcionar meus clientes — digo, enquanto tiro o avental.
— O chefe vai dar oi para o namorado — brinca a subchefe.
Todos então começam a me zoar.
— Para, gente — digo, sem graça, enquanto saio da cozinha.
Olho para o salão e logo vejo Joel. Ele está em uma mesa cheia. Também vejo Wei e Rafael. Há um que eu não conheço, mas o outro me parece familiar.
— Boa noite. Quanta honra ter tantos doutores no meu restaurante — digo, com um sorriso, enquanto me aproximo.
— Você não é aceleração, mas faz meu coração obedecer:
F = m·a...
porque toda força em mim agora aponta pra você — diz Joel, sem tirar os olhos de mim.
Meu rosto esquenta na hora.
— Então essa é a famosa estrela da cozinha do doutor Martins? — brinca o homem que eu não conheço.
— Sou eu mesmo — digo, com convicção, cruzando os braços.
— Já assumiram o namoro? — pergunta Wei, chocado.
— Claro, né — rebate Rafael, dando um leve tapa na cabeça de Wei.
— Vocês estão namorando? — pergunta o cara que me parece familiar.
— É que...
— Ainda estamos nos entendendo — Joel me interrompe antes que eu fale. — É um longo caminho, mas vamos chegar lá.
— Isso é impossível — diz o homem, incrédulo. — Vocês definitivamente não vão ficar juntos — afirma, com firmeza.
— Por que você tem tanta certeza disso? — questiono, encarando-o.
Todos na mesa ficam em silêncio, apenas olhando para ele, assim como eu.
O homem fica totalmente sem graça.
— Eu estava só brincando — diz ele, todo sem jeito. — Ei, Ariel, você não se lembra de mim? — pergunta, me encarando.
— Você realmente me parece familiar, mas não me lembro direito — digo, analisando-o dos pés à cabeça.
— Esse é o Henrique, ele estudou com a gente no ensino médio — explica Rafael.
— Sou Henrique Montenegro. Não se lembra de mim? — diz Henrique, desconfiado. — Éramos bem próximos no primeiro ano.
— Desculpa... é que minhas memórias do primeiro e do segundo ano são um pouco vagas — digo, sem jeito. — Mas eu te achei muito familiar assim que te vi.
— Compreendo — responde Henrique, com um sorriso. — Eu só estudei aqui até a metade do segundo ano.
— Você só quer um pretexto para se achar, né — diz Joel, revirando os olhos.
— Não estou me achando, é só um fato. Estudei na Coreia e fiz faculdade em uma das melhores universidades de Seul — rebate Henrique.
— Não acredito que vocês dois já vão começar... — diz Rafael, impaciente.
— Vamos fazer logo o pedido — acrescenta Joel, respirando fundo.
Então o Joel tem uma certa rivalidade com o Henrique.
Converso mais um pouco com eles e, depois, volto para a cozinha.
O expediente finalmente chegou ao fim. Já estamos do lado de fora. Eu e meus funcionários estamos exaustos, só precisando de um banho quente e de uma cama.
— Olha, chefe, seu namorado está aqui! — provoca um dos garçons.
Quando me viro, vejo o Joel no meio da rua.
Meu coração aquece assim que o vejo. Ele está com um buquê de flores nas mãos, e há uma plaquinha no meio delas com algo escrito: JOARI 🩷.
— O que você está fazendo? — pergunto, com os olhos arregalados, sentindo meu rosto ficar vermelho.
— Ainda não acabou — diz Joel, com um sorriso, apontando para cima.
Olho para o céu, com o coração acelerado. Quando vejo, ele dispara ainda mais.
O mesmo nome da plaquinha está escrito em fumaça, enorme, atravessando o céu: JOARI.
— Ai, meu Deus... — digo, completamente chocado.
— Ai, meu Deus, chefe... — murmura a subchefe, completamente encantada.
— Por favor, para com isso — digo, com o rosto mas vermelho que tomate, enquanto me aproximo. — Você precisa parar com essas declarações em público.
— Por quê? — Joel pergunta, frustrado. — Você não gostou, estrela da cozinha?
— Olha só, gente... o chefe vai ter uma noite quente com o namorado! — provoca a subchefe, antes de soltar um grito escandaloso.
Todos começam a me zoar com a ideia.
— Noite quente? — Joel pergunta, confuso. — Por que noite quente? — acrescenta, olhando para a subchefe, genuinamente perdido.
— É que...
— Já chega! — interrompo, morrendo de vergonha. — Vamos embora. Me leva pra casa.
Seguro a mão dele e o puxo em direção ao carro.
— Você não veio de carro? — Joel pergunta, confuso.
— Amanhã eu pego o meu. Vamos no seu — respondo, sem nem pensar.
— Tá bom, então — diz ele, abrindo a porta para mim, todo cavalheiro.
— Boa noite, chefe! — provocam os funcionários em coro.
Entro no carro sentindo o rosto pegar fogo.
— Desculpa por isso — diz Joel, assim que entra no carro. — Eu exagerei... eu só queria te fazer sorrir.
— É que você é muito intenso, doutor — respondo, respirando fundo.
Joel fica em silêncio por alguns segundos, pensativo.
— É que depois de tudo o que eu passei no hospital... eu comecei a agir mais por impulso — diz, com a voz baixa. — Quando a gente está à beira da morte, muitas coisas passam pela nossa cabeça.
Meu corpo enrijece.
— Você esteve à beira da morte? — pergunto, assustado, virando o rosto para ele.
Joel estaciona o carro e se vira na minha direção. Com delicadeza, toca meu rosto.
— Acho que eu nunca te contei o motivo de eu te amar tanto — diz Joel, após respirar fundo. — Agora você vai saber.
Não consigo dizer nada... apenas fico olhando para ele.
— Quando eu estava fazendo quimioterapia, eu estava fraco... não queria mais me alimentar.
Sinto meu peito apertar.
— Eu só queria desistir — ele continua, enquanto lágrimas escorrem pelo seu rosto. — Até que um garoto apareceu no hospital. Ele me deu forças. Me fez rir. Me incentivou a continuar lutando.
— Não pode ser... — murmuro, com a voz trêmula. — Você é o Aang? O menino do hospital?
As memórias me atingem de uma vez.
O garoto magro, de sorriso fraco.
Depois que me lembrei do acidente dos meus pais, o trauma me fez esquecer do Aang.
Mas agora eu me lembro.
Então Joel... você é o Aang!