Terça-feira, 02/01/2024
Hoje faz cinco anos que sou casado com Victor Castellani, um dos maiores empresários do país.
Neste exato momento, estou dentro do elevador, subindo em direção ao escritório dele. Tenho um presente nas mãos: o seu perfume favorito. Foi difícil de conseguir, já que é importado.
- Espero que ele goste. - digo, respirando fundo, no instante em que as portas do elevador se abrem.
Sigo até sua sala, e logo o secretário me permite entrar.
- Pode entrar, senhor. - diz Carlos, o secretário de Victor, enquanto abre a porta para mim.
- Obrigado. - respondo, com um sorriso, entrando na sala.
Victor está sentado atrás da mesa, analisando alguns documentos.
- O que você quer? - pergunta friamente, sem tirar os olhos da pasta em suas mãos. - Seja rápido e vá embora, estou ocupado.
As palavras dele fazem meu sorriso vacilar por um instante.
- É que eu... comprei uma coisa para você. - digo, aproximando-me da mesa. Estendo a sacola em sua direção. - Espero que você goste.
- Já te falei várias vezes! Eu não te amo e acho que nunca vou amar! - diz Victor, friamente.
As palavras saem como facas e atingem meu coração em cheio.
- Eu só te trouxe um presente... Não precisa ser tão cruel comigo - murmuro, tentando esconder a dor enquanto coloco a sacola sobre a mesa dele.
Victor sequer olha para mim; sua atenção está presa a papéis e relatórios.
- Eu sei que nosso casamento foi arranjado, que foi ideia dos nossos pais, mas... hoje estamos completando mas um ano de casados. Pensei que talvez pudéssemos...
- Está bem, então. - Victor corta minha fala e desvia os olhos para o secretário. - Carlos, agende um jantar para mim e Ariel.
Fico observando Victor e seus olhos frios. Eles sempre foram assim, desde que me entendo por gente. Meu pai e o dele eram amigos de longa data, então conheço Victor desde a infância - e ele sempre foi frio e distante, até mesmo com a própria família.
O pai dele, até hoje, não entende. Os pais sempre lhe deram muito amor, mas Victor nunca demonstrou carinho em troca. Nem mesmo quando a mãe dele morreu ele esboçou qualquer emoção. Lembro claramente do velório: não caiu uma única lágrima. Quando me aproximei para dar meus pêsames, ele apenas murmurou um "obrigado" seco. Parecia que quem tivesse morrido fosse apenas um parente distante.
Eu não cresci no Brasil. Fui mandado para um internato na Inglaterra ainda criança e voltava para casa apenas algumas vezes por ano.
Meu pai fez uma fusão com a empresa do pai de Victor, por meio do nosso casamento. Sempre achei que uma das minhas irmãs acabaria se casando com ele. Mas, por alguma razão que ainda não compreendo, Victor me escolheu. Disse que só se casaria se fosse comigo.
Não tive escolha. Meus pais me obrigaram.
Depois do casamento, Victor assumiu o comando da nova empresa, formada pela junção da transportadora do meu pai com a marca de refrigerantes da família dele. Não sei por que ainda tento me aproximar desse "Senhor Gelo" - é assim que os funcionários o chamam, às escondidas, é claro.
Após o casamento, nossas famílias dividiram oficialmente o controle da empresa entre nós dois: 50% para Victor e 50% para mim.
- Senhor, tivemos um problema com o cliente coreano! - anuncia a diretora, entrando apressada na sala.
O aviso me arranca dos meus pensamentos.
- Ele está exigindo a sua presença lá imediatamente!
Victor bufa, impaciente.
- Droga.
- Preparem tudo. Eu viajo para a Coreia do Sul ainda esta tarde.
- Está bem, senhor.
A frieza dele me sufoca, mas tento manter a compostura.
- E o nosso jantar? - arrisco perguntar.
- Sinto muito, Ariel. Vamos remarcar para outro momento.
Já era de se esperar que ele priorizaria o trabalho. Isso nem me surpreende mais. Ainda assim, tento esconder a decepção.
- Está bem, então. Eu vou indo. Não quero atrapalhar - digo, enquanto caminho até a porta.
- Você quer ir comigo?
Fico completamente paralisado.
Meu coração acelera.
Victor dificilmente me convida para fazer alguma coisa.
Por um instante, chego a pensar que ouvi errado.
- Sim! - respondo rapidamente.
- Não demore. Vá arrumar suas coisas. Quando for a hora, Carlos vai buscá-lo em casa.
Chegando em casa, corro para o meu quarto e, sem perder tempo, começo a arrumar a mala.
- Quanta alegria, senhor! - comenta a empregada ao entrar no quarto.
- Victor me chamou para uma viagem! - digo, tentando disfarçar a euforia.
- Uma viagem para comemorar o aniversário de casamento? - ela pergunta, curiosa.
Minha expressão se fecha quase imediatamente.
- Não... é apenas uma viagem de negócios - respondo, frustrado.
Quarta-feira, 03/01/2024
O voo foi tranquilo. Agora estamos na Coreia do Sul, mas há algo neste lugar que me deixa inquieto.
Victor alugou uma casa - um casarão antigo, com uma arquitetura que parece remontar à época da Dinastia Joseon. É estranho. Quase perturbador.
Ele saiu para resolver os problemas com o cliente e me deixou sozinho. A inquietação cresce dentro de mim, então decido explorar o jardim.
Caminho entre as árvores até parar diante de uma delas. É imensa. Há algo estranhamente familiar nela, como se eu já a tivesse visto antes.
No centro do tronco, há um buraco profundo. Curioso, estico a mão e a enfio ali dentro. Logo sinto algo sólido: um objeto pequeno e retangular. Com cuidado, puxo-o para fora.
É um livro antigo.
- O que é isso? - murmuro.
Na capa, escrito em coreano, está: Livro de Feitiços.
Seguro o livro com força e corro para dentro da casa, ansioso demais para ignorar o que acabei de encontrar.
Sentado na beira da cama, abro-o com mãos trêmulas. Um arrepio percorre meu corpo, acompanhado de um embrulho estranho no estômago. Ao folhear as páginas, percebo que está repleto de feitiços.
Um deles chama minha atenção imediatamente:
Poção do Amor.
Meu coração dispara enquanto leio as primeiras linhas.
Talvez este seja o jeito de finalmente fazer Victor me amar.
Antes que eu possa continuar, ouço a voz dele me chamar:
- Ariel, onde você está?
Fecho o livro às pressas e o escondo na mala. Logo em seguida, corro até ele.
- Estou aqui!
Victor me encara com seu habitual olhar frio.
- Vamos jantar. - diz ele, como sempre, com a expressão vazia.
- Onde? - pergunto, animado.
- Em um lugar legal. Acho que você vai gostar.
Victor me leva a um restaurante à beira de um rio. As luzes refletem na água, criando um cenário encantador, quase romântico.
- É lindo aqui! - digo, admirando a paisagem. Uma pontada de felicidade aquece meu peito.
Mas, como sempre, Victor quebra a magia do momento.
- Amanhã de manhã voltamos para o Brasil. Prepare-se.
- Mas já? - minha voz sai carregada de frustração.
- Não viemos aqui para passear. Viemos a negócios. - ele rebate, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Sexta-feira, 05/01/2024
É manhã, e já voltamos ao Brasil. Neste exato momento, estou sentado na beira da cama, com o livro aberto sobre o colo. Ele é incrível e contém muitas poções interessantes.
Sou fluente em coreano, mas ler coreano antigo é muito difícil. Cada poção exige uma erva específica.
"É preciso coar a poção usando a folha..." Nossa, é como fazer café! Então essas poções só podem ser feitas uma única vez.
Anoto os ingredientes e saio de casa em silêncio. Ainda é cedo, e Victor continua dormindo. Vou até a rua, compro tudo o que preciso e também uma chaleira elétrica.
De volta ao meu quarto, começo a preparar a poção. Assim que o líquido começa a ferver, rasgo a folha onde está escrita a receita e, sobre a xícara, começo a coá-la.
"Agora só preciso diluir na bebida do Victor..." - penso, observando o frasco com apreensão.
- Senhor, já está acordado? - pergunta a empregada, batendo à porta do quarto.
- Estou, sim! - respondo.
- O senhor Victor está esperando pelo senhor para o café da manhã.
- Já estou indo! Só estou terminando de me arrumar.
Guardo o frasco no bolso e desço as escadas, tentando controlar o nervosismo.
Ao chegar à sala de jantar, vejo que Victor já está à mesa, folheando alguns papéis com a mesma expressão fria de sempre.
- Sente-se logo. - diz ele, com total indiferença, sem desviar os olhos dos documentos.
De repente, o celular dele toca, e ele se levanta para atender. Meu coração dispara. Essa é a minha chance.
Corro até a xícara dele, tiro o pequeno frasco do bolso e despejo todo o líquido no café. Minhas mãos tremem enquanto derramo cada gota. Volto rapidamente ao meu lugar, tentando parecer indiferente.
Victor retorna, ainda ao telefone. Pega a xícara e a leva à boca. Cada gole que ele toma aquece meu coração.
Ele termina de beber sem notar nada, coloca a xícara sobre a mesa e diz:
- Já estou indo. Tenho uma reunião importante esta manhã.
- Até mais tarde, Victor.
Ele lança um breve olhar em minha direção - frio e distante - antes de sair.
Assim que a porta se fecha, a dúvida começa a corroer minha mente.
- Será que vai funcionar? - murmuro para mim mesmo.
Meu coração está confuso. Victor é frio, inacessível e nunca demonstrou nenhum sentimento por mim. Mesmo assim, há algo nele que me prende. Talvez seja o jeito como seus olhos, tão sérios, me fazem lembrar do meu crush da adolescência: Sasuke Uchiha. Ah... como eu era apaixonado por ele. Assisti ao anime inteiro só por causa dele.
A manhã passa, e a angústia só aumenta. Logo, começo a me perguntar: o que foi que eu fiz?
A resposta virá, eu sei. E, seja lá o que for, vai mudar tudo.
De repente, meu celular começa a tocar. O nome de Carlos, secretário de Victor, aparece na tela. Atendo imediatamente.
- Oi, Carlos!
- Senhor, por favor, mantenha a calma.
Meu coração dispara.
- O que aconteceu?
- O senhor Victor sofreu um acidente e está no hospital.
Meu mundo parece parar.
- O quê? Como isso aconteceu? Ele está bem?
- Ele bateu o carro. O estado dele é estável, mas ainda não acordou. Sofreu uma pancada forte na cabeça.
- Em qual hospital ele está?
Carlos me passa o endereço, e eu saio correndo, sem pensar duas vezes.
No hospital
Ao chegar, vejo o pai de Victor no corredor. Sua expressão é uma mistura de preocupação e alívio.
- Bom dia, senhor. - digo, tentando manter a compostura.
- Bom dia, Ariel.
- Como ele está? - pergunto, incapaz de esconder a ansiedade.
- Graças a Deus, ele está fora de perigo. Só precisa descansar.
- Posso vê-lo?
- Claro, pode entrar. Fique com ele. Vou sair para comer alguma coisa.
- Obrigado.
Entro no quarto devagar, e a visão de Victor deitado na cama aperta meu coração. Ele parece tão vulnerável.
Aproximo-me e seguro sua mão.
- Victor, meu amor... por que isso aconteceu com você? - sussurro, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
Sento-me ao lado da cama, ainda segurando sua mão, e apoio a cabeça no colchão.
De repente, ouço uma voz fraca:
- Não chore.
Levanto a cabeça rapidamente.
- Victor! Você acordou! - digo, em meio às lágrimas, sentindo um enorme alívio.
Mas algo está estranho.
Seus olhos percorrem o quarto como se aquele lugar fosse completamente desconhecido.
- Onde estou? Que lugar estranho é este? - pergunta, confuso.
- Você está em um hospital.
- O que é um hospital? E por que você está vestido com essas roupas tão... diferentes?
Uma onda de desconforto me invade.
- Victor, por que está falando assim?
Ele me encara como se eu fosse um completo estranho.
- Por que me chama de Victor? Esse não é o meu nome. Sou o príncipe herdeiro da Grande Nação de Joseon.
Sinto o chão desaparecer sob meus pés.
- Príncipe herdeiro? Do que você está falando?
Nesse momento, o médico entra no quarto, seguido pelo pai de Victor.
- Ele finalmente acordou! - diz o médico, aliviado.
Aproveito a oportunidade para desabafar:
- Doutor, ele está estranho. Está dizendo que é um príncipe herdeiro... Eu não sei o que está acontecendo!
O pai de Victor se aproxima, visivelmente confuso.
- Victor, o que está acontecendo com você?
Mas Victor - ou melhor, o príncipe herdeiro - o encara com frieza.
- Já disse para não me chamarem assim. Sou o príncipe herdeiro da Dinastia Joseon! E exijo sair deste lugar imediatamente.
O médico se aproxima com cautela.
- Acalme-se, senhor. Isso pode ser um efeito da pancada na cabeça. Vamos conversar com calma.
Mas o príncipe herdeiro se levanta bruscamente, tentando sair da cama.
- Eu não pertenço a este lugar! Soltem-me agora!
O médico rapidamente ajusta o soro e aplica um calmante. Aos poucos, o príncipe começa a perder as forças, até cair novamente sobre a cama.
- O que está acontecendo com ele, doutor? - pergunto, enquanto as lágrimas ameaçam cair outra vez.
O médico suspira, pensativo.
- A pancada pode ter causado algum distúrbio psicológico. Ele parece estar apresentando um quadro dissociativo, como se acreditasse ser outra pessoa.
O pai de Victor leva a mão à testa, claramente abalado.
- Isso vai passar? Ele vai voltar ao normal?
- Ainda é cedo para dizer. Precisamos monitorá-lo e realizar alguns exames.
Olho para o rosto de Victor - confuso, pálido e distante - e sinto meu coração se apertar.
- Por que isso está acontecendo? Quem é você...?
E, pela primeira vez, tenho a sensação de que estou diante de um enigma que vai muito além de mim... e talvez até do próprio Victor.