Eu continuava jogado no sofá, com os braços cruzados e a expressão fechada, tentando aproveitar os poucos minutos de silêncio que aquela casa ainda me proporcionava. Meus pensamentos estavam longe dali, presos naquela sensação estranha que vinha me incomodando desde a chegada da cuidadora e de sua filha.
Foi quando ouvi passos se aproximando da sala.
Virei os olhos na direção do corredor, já preparando alguma reclamação, mas me calei assim que vi quem era.
Era ela.
A filha da cuidadora entrou na sala olhando de um lado para o outro, como se estivesse procurando alguma coisa. Parecia tão distraída que, a princípio, nem percebeu minha presença no sofá.
Ergui uma sobrancelha, acompanhando cada movimento dela com o olhar. O que aquela garota estava procurando ali?
— Perdeu alguma coisa?
perguntei, quebrando o silêncio com minha voz um tanto rouca e impaciente.
Ela pareceu notar minha presença naquele instante. Eu me ajeitei no sofá, apoiando um dos braços no encosto enquanto mantinha os olhos fixos nela.
— Tá procurando o quê?
— perguntei novamente, inclinando levemente a cabeça.
Não era como se eu realmente me importasse. Pelo menos era isso que tentava convencer a mim mesmo. Mas havia algo na maneira como ela observava cada canto da sala que despertava minha curiosidade, mesmo que eu jamais admitisse isso em voz alta.
Soltei um suspiro e desviei o olhar por um breve instante.
— Se estiver procurando meu irmão, ele tá lá fora, no jardim. Provavelmente tentando fazer amizade com as rosas agora.
Revirei os olhos, imaginando Eithan com aquele sorriso idiota de sempre. Depois, voltei a olhar para ela.
— E antes que pergunte, não, eu não sei onde ele deixou as coisas dele. Não fico seguindo aquele garoto pela casa.
Fiz uma pausa, observando-a mais atentamente. A luz que entrava pela janela iluminava parte do rosto dela, enquanto o restante da sala permanecia mergulhado em sombras suaves.
Por algum motivo, aquela sensação estranha voltou.
Franzi a testa discretamente e olhei para o corredor atrás dela. Por uma fração de segundo, tive a impressão de ter visto uma sombra se mover na parede, mas, quando pisquei, não havia absolutamente nada ali.
Meu maxilar se contraiu.
— Que droga...
Murmurei baixinho, passando a mão pelos cabelos.
Então voltei minha atenção para a garota, tentando recuperar minha expressão indiferente.
— Ei, garota...
Chamei, estreitando os olhos.
— Você sempre fica andando por aí desse jeito ou tá escondendo alguma coisa?
Cruzei os braços novamente e me recostei no sofá, esperando pela resposta dela.
Eu não confiava facilmente nas pessoas. E, por mais que tentasse ignorar, aquela garota tinha alguma coisa que me deixava inquieto.
Talvez fosse apenas curiosidade.
Ou talvez eu já soubesse, mesmo sem querer admitir, que a presença dela naquela casa não seria tão simples quanto parecia.
Ela finalmente se virou na minha direção e explicou que estava procurando alguns livros para ler. Por alguns segundos, fiquei apenas olhando para ela, com uma expressão indiferente. Livros? Sério? De todos os lugares daquela casa, ela tinha escolhido procurar livros justamente na sala?
Soltei um suspiro e me levantei do sofá, ajeitando a camisa antes de colocar as mãos nos bolsos.
— Livros? repeti, erguendo uma sobrancelha.
— Você tá procurando livros aqui na sala?
Balancei a cabeça negativamente, soltando uma risadinha pelo nariz.
— Garota, você tá procurando no lugar errado. Essa casa tem uma biblioteca inteira, sabia?
Olhei rapidamente para o corredor e depois voltei minha atenção para ela.
— Fica no segundo andar. Sobe a escada principal, vira à esquerda no corredor e segue até a última porta. É lá que você vai encontrar um monte de livros.
Comecei a caminhar na direção da saída da sala, mas parei depois de alguns passos e olhei por cima do ombro.
— E tenta não se perder por aí. Essa casa é enorme.
Fiquei em silêncio por um instante, pensando se deveria simplesmente deixá-la ir sozinha. Afinal, não era como se eu tivesse alguma obrigação de acompanhá-la.
Revirei os olhos discretamente.
— Ah, e mais uma coisa...
Acrescentei, apontando na direção do corredor.
— Se encontrar uma porta fechada no fim daquele corredor, não é lá. É a porta seguinte, do outro lado.
Voltei a cruzar os braços, encostando o ombro na parede.
— Pronto. Agora você já sabe onde fica. Pode ir.
Minha intenção era voltar para o sofá e continuar aproveitando minha paz, mas, por algum motivo, acabei observando enquanto ela se preparava para sair da sala.
Não fazia ideia do motivo, mas aquela garota conseguia despertar minha curiosidade de um jeito irritante.
— E, por favor, não mexe nas minhas coisas se passar pelo meu quarto
Avisei, com um pequeno sorriso debochado.
— Não que você fosse querer fazer isso, claro.
Afastei-me da parede e voltei para o sofá, tentando agir como se aquela conversa não tivesse significado absolutamente nada.
Mas, assim que ouvi os passos dela se afastando pelo corredor, fiquei olhando na direção da porta por alguns segundos.
— Essa garota ainda vai me dar dor de cabeça...
Murmurei para mim mesmo.
E, embora jamais admitisse em voz alta, uma pequena parte de mim estava curiosa para saber qual livro ela escolheria naquela biblioteca.