E, depois de tanto lutar, movendo-me em direções opostas ao meu coração, um sussurro me parou à beira da estrada. Era suave e cantava, levemente, uma melodia sobre o amor, o desejo e a fé. Era como escutar um ancestral rezando magias antigas e uma cura que não era revelada havia muitas décadas. Sua voz me conduzia à ansiedade e me colocava diante de um espelho imaginário, ali, bem no meio da estrada de chão batido, marcada impiedosamente pelo sol de um dia comum. Então, era eu, somente eu e meu reflexo.
Ao fundo, a voz. Ela, finalmente, me ouvira.
Talvez ela estivesse vindo me dizer que, finalmente, eu encontrara o que tanto buscava; que, enfim, poderia me dizer, com todas as palavras, aquilo de que eu precisava, aquilo que eu tanto queria ouvir. Era o momento que eu mais ansiara em mil anos.
Mas seu sussurro, cada vez mais claro em meu ouvido, doce e firme, disse-me algo sobre amar quem eu mais odiava, quem mais repudiava e sobre quem depositava todas as mazelas da vida: a mim mesma. De volta ao espelho, movi meu corpo a frente e me vi confusa em meio aos olhos castanhos escuros, tão assustados quanto raivosos; afinal, quem eu sou? O que há de amor em mim?
No fundo esperava que aquela imagem confusa e leiga sobre a vida, me desse a resposta.
Mas ela não sabe, ninguém presente ali sabia, o que há de amor em mim.