Sou uma contradição ilimitada,
Lavada em indolores e esfaqueadas lágrimas.
Martirizo-me por encontros não comparecidos,
Mas sinto-me satisfeito quando não choro por amor.
Sou um pedaço de uma mestiça árvore genealógica,
Com o acréscimo perpétuo de um trago de vinho tinto,
O sangue alcoólico das uvas selvagens
Do qual dependo para inspirar meu peito,
Ainda que nunca lhe faça uso, moderado ou excessivo.
Sou o que vence o frio e o calor com a sutileza da neutralidade,
Sou o que agride a métrica e expande a temática,
Sou o azarado jogo vendido para os cassinos
Em que dormem todos os viciados e todos os que se dizem intelectuais.
A cada nova paixão que não é para mim,
Acabo jurando que esta será a última
E que jamais farei isso outra vez.
Mas então, quando menos espero, lá estou eu novamente,
Atrás de quem nunca demonstrou nada positivo
Ou deu-me liberdade para um afago, um abraço ou um beijo.
Soa íntimo, disso eu sei, mas penso que todo contato físico é permitido
Desde que seja respeitoso e resignado.
Eu mesmo desconheço o dia em que deixei de fugir
Dos olhos e das mãos de uma jovem moça de meu interesse.
Deus, como sou hipócrita no que entendo ou não!
Sou a luz fraca da lua nas fases iniciais
Quando não me lanço feito um amistoso projétil
Na direção tardia e inútil do que diminuo para sentir-me melhor:
O amor, ferido e talhado na madeira dos pés de figos,
Queimando como o fogo solar os corações solitários dos moços,
Das moças e dos velhos carentes de atenção.
É ele o sinal da besta na testa dos homens,
É ele a flecha que acerta o peito e atravessa as costas,
É ele o telhado do Castelo que muitos não adentraram,
É ele o mórbido mensageiro dos dias de luta e de cão,
É ele o prato cheio dos banquetes fartos da realeza,
É ele a saia rasgada que as meninas se envergonham,
É ele, pairando sobre as montanhas e as esfinges,
O observador do tempo e de sua crueldade nas pessoas.
É ele, mortal e naturalmente belo, o triunfo glorioso da paciência
Dos que esperaram e tiveram sua generosidade.
Para mim sei que ele não foi feito,
Nem que aparecesse em carne e osso e me dissesse: "venha, estou aqui!",
Pois tudo o que a nós pertence e é justo negar a devolução
Nos vem logo nos primeiros tempos e estações.
Sou um certo alguém dissimulado,
Que não aprendeu direito os caminhos da cidade,
As ruas do bairro e os endereços dos amigos;
E que, por isso, se faz de bom entendedor de livros e de poesia,
Rondando pelas explicações e pelos devaneios
Com os quais deve se importar toda a sua tediosa vida.
Nada faço para provar o que sirvo à mesa,
Nem para trincar a janela do carro da cultura.
Tento passar pelas drogas chamadas "artes",
E tudo o que não me gerenciam é a respiração ofegante
Do palácio onde me encontro e me dou às traças e aos abutres.
Quando os deixo entrar, rastejando pelo chão e quebrando vidros,
Entro numa distorção do que considero um lotado tabu,
Assim criando o monstro que estou destinado a ser
E sendo devorado vivo pelos que adoram gente como eu.
Sou uma geleira derretida, um fone de ouvido partido,
Uma espada quebrada no ápice vulgar da batalha,
Um parasita causador de doenças incuráveis
Até para os mais fortes entre nós.
Sou mais uma concepção metafórica
Do que seria um músico escritor pouco alfabetizado,
Saindo de casa e do colégio para conquistar o mundo que lhe esquece
Numa sucessão de desentendimentos com os construtores.
Piauí, Agosto de 2025.