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Sobreviva Jeff Sensível

RafaelDuGueto
Pensamento

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tresPaginas

Ai o Jeff. Larga-o.

Ai o Jeff. Larga-o.

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Capítulo 7 – O que não se fala

A noite chegou devagar, carregando o cheiro de fumaça, suor e bebida. Os corredores dos contêineres se iluminavam com lamparinas improvisados, e o som de risadas e xingamentos se misturava ao estalar de copos batendo contra a madeira das mesas. Era sempre assim: depois de um dia sombrio, os homens e poucas mulheres se afundavam no álcool e no jogo, tentando esquecer que viviam num lugar sem saída.

Jeff, encolhido na sombra, observava. A angústia vinha da dor que carregava no peito. Precisava de respostas, e se havia um momento em que a língua dos adultos se soltava, era quando estavam bêbados.

Aproximou-se devagar. O cheiro forte de cachaça quase o fez tossir, mas ele ficou. Sentou-se na ponta de uma mesa, os olhos ansiosos por informações.

— O que é esse lugar? — perguntou, a voz firme, mas baixa. — Quem somos nós?

Era o mesmo que não estar ali. Por um instante, apenas o tilintar de moedas sobre a mesa respondeu. Depois, uma risada seca explodiu.

— Esse moleque tá perguntando demais… — murmurou um dos homens, jogando as cartas. — Aqui não se pergunta, pequeno. Aqui se sobrevive.

Outro, com a voz arrastada pela bebida, deixou escapar:
— Por isso não deveria ter criança aqui. Foi proibido… desde o começo.

Jeff franziu a testa.
— Proibido? Como assim?

O homem deu um gole longo e não respondeu mais. O jogo continuou como se ele não existisse.

Mas alguém o observava.

Um homem magro, de olhos fundos e sorriso torto, largou seu copo e se aproximou. A mão pesada pousou no ombro de Jeff.
— Quer respostas, garoto? Eu posso te dar. Posso te ensinar tudo que precisa saber.

Jeff, ansioso, concordou sem pensar. Seguiu o homem pelas vielas estreitas de contêineres, onde a música e as vozes iam ficando mais abafadas. O caminho terminava em uma porta iluminada por um vermelho fraco, onde risadas femininas e gemidos ecoavam.

O cheiro doce, misturado com suor e fumaça escapava pelas frestas. Jeff nunca tinha entrado naquele lugar, mas sabia que não deveria estar ali.

O homem empurrou a porta e segurou a mão de Jeff para entrar.

— Aqui você aprende rápido o que ninguém vai te contar.

O olhar dele mudou. Já não era mais de alguém disposto a explicar, mas de um predador. A mão apertou o braço do garoto com força, e o sorriso torto se abriu ainda mais.

O coração de Jeff disparou, e cada passo parecia um mergulho para onde ele não conseguiria sair. As luzes, vermelhas e quentes, piscavam clareando pedaços do espaço, denunciando sua presença. A escuridão não escondia por muito tempo: ao contrário, revelava imagens fragmentadas, recortadas em flashes de perversão.

No chão do salão, corpos se misturavam sem pudor. Mulheres nuas cavalgavam homens como se quisessem devorá-los, seus cabelos grudados de suor. Risos roucos se misturavam a gemidos que mais lembravam gritos de agonia.

No corrimão da escada que levava ao segundo andar, duas mulheres estavam amarradas, a pele marcada por vergões frescos de chicotadas escorriam sangue. O ferro frio da estrutura servia de algema, e, mesmo presas, com olhares de sofrimento e dor, causavam aos homens satisfação, sorriam de forma doentia, como se o sofrimento fosse alimento.

Homens também eram mantidos em cordas e correntes, mas não pediam para sair. Imploravam por mais. Cada golpe, cada corte, cada humilhação parecia arrancar deles um prazer monstruoso. Suas parceiras com olhos ardentes e sorrisos demoníacos reinavam. Seus lábios pintados e ensanguentados se curvavam em gargalhadas que ecoavam pelo ambiente, celebrando a mistura grotesca de sexo e dor.

Era um lugar onde o sensual se perdia no macabro. Onde cada prazer vinha acompanhado de feridas abertas. Um refúgio para psicopatas. Um lar para monstros.

Jeff não sabia como digerir aquilo. Cada imagem parecia gravada a ferro em sua mente: os corpos, os gritos, o riso histérico. Seu peito tremia, e o ar parecia denso demais para ser respirado. O pânico tomou conta de seu corpo, deixando-o imóvel, como se seus pés estivessem presos ao chão.

Foi então que percebeu — tarde demais — a mão pesada em seu braço. O homem que o trouxera estava ali, os dedos afundando em sua pele com força. Jeff tentou se soltar, mas a pegada só apertou, firme, como uma corrente.

O garoto virou o rosto, a angústia estampada em seus olhos. Mas aquilo que para ele era desespero, para o outro se tornou combustível. O homem sorriu, os lábios retorcidos, como quem encontra prazer na dor alheia. O tremor de Jeff, a súplica muda em seu olhar, só atiçavam o desejo torpe que se escondia por trás daquele aperto.

Jeff queria sair dali. Mas o braço preso dizia outra coisa: que estava sendo conduzido não para respostas, mas para algo ainda mais obscuro.

Thoughts

  • poesiabaixinha

    Olha, eu ficava de olho no bêbado que deixou escapar que ali nunca devia ter havido crianças. Esse sabe porque é que o Jeff está naquele lugar, e calou-se logo. Aposto que é a peça que falta.

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  • LaraDeMoraes

    Muito bem escrito!!! Estou ansiosa para o próximo capítulo

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  • tresPaginas

    Ai o Jeff. Larga-o.

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