A fama da Peregrina da Chama Azul espalhou-se pelas estradas da Índia.
Em algumas aldeias, seu nome era pronunciado como uma bênção.
Em outras, como uma ameaça.
Amara, porém, não sabia de nada disso.
Continuava caminhando.
Depois de deixar Devapura, passou por pequenas comunidades onde encontrou crianças sem família, mulheres abandonadas, idosos vivendo sozinhos e camponeses endividados.
Sempre que chegava a algum lugar, fazia a mesma pergunta:
— Quem precisa de ajuda?
E permanecia ali até que a resposta deixasse de existir.
Certa manhã, chegou à cidade de Varanasi.
O rio Ganges brilhava sob o sol nascente.
Barcos atravessavam lentamente as águas enquanto sacerdotes realizavam suas orações nas margens.
Amara ficou algum tempo observando.
Era a primeira vez que via uma cidade tão grande.
Mas, entre toda aquela beleza, percebeu algo que conhecia muito bem.
Pessoas esquecidas.
Sentada nos degraus de uma escadaria havia uma jovem viúva com duas crianças.
Um velho dormia enrolado em um pedaço de tecido.
Um homem doente pedia água.
Amara sentou-se ao lado deles.
— Qual é o seu nome?
— Meera.
— E seus filhos?
— Ravi e Lakshmi.
Amara sorriu.
— Então hoje vamos procurar comida para Ravi e Lakshmi.
Meera começou a chorar.
— Não tenho como pagar.
— Eu não pedi pagamento.
Durante vários dias, Amara ajudou aquelas pessoas.
Mas percebeu que não poderia resolver todos os problemas sozinha.
Foi então que teve uma ideia.
Reuniu algumas mulheres que viviam nas proximidades.
— Temos pessoas famintas.
Temos pessoas que sabem cozinhar.
Temos pessoas que possuem algum alimento.
Se cada uma oferecer um pouco, ninguém precisará dormir com fome.
A princípio, algumas riram.
— E quem cuidará de nós?
Amara respondeu:
— Nós mesmas.
A frase permaneceu na memória delas.
No dia seguinte, três mulheres trouxeram arroz.
Outra trouxe lentilhas.
Um comerciante ofereceu legumes.
Uma senhora ofereceu seu pequeno espaço para cozinhar.
Poucos dias depois, havia uma cozinha funcionando.
Amara chamou aquele lugar de Casa da Compaixão.
Não era um templo.
Não havia sacerdotes.
Não havia cobrança.
Qualquer pessoa podia entrar.
Quem tivesse fome recebia comida.
Quem estivesse doente recebia cuidados.
Quem estivesse sozinho encontrava alguém disposto a escutá-lo.
E quem quisesse ajudar podia fazê-lo.
A Casa da Compaixão cresceu.
Primeiro dez pessoas.
Depois cinquenta.
Depois centenas.
Pessoas de diferentes origens começaram a trabalhar juntas.
Amara insistia:
— Aqui ninguém pergunta de onde você veio antes de oferecer alimento.
Um jovem chamado Arjun tornou-se um de seus primeiros companheiros.
Ele era filho de comerciantes e havia abandonado uma vida confortável depois de testemunhar a morte de um amigo durante uma epidemia.
— Quero aprender com você — disse ele.
Amara respondeu:
— Não aprenda comigo.
Aprenda com aqueles que sofrem.
Arjun não compreendeu imediatamente.
Mas permaneceu.
Com o passar dos meses, tornou-se responsável pela cozinha.
Meera começou a ensinar as crianças.
Uma viúva chamada Savitri passou a cuidar dos doentes.
E assim nasceu uma pequena comunidade.
Amara percebeu então algo extraordinário.
Ela não precisava ser uma grande sacerdotisa para servir àquilo em que acreditava.
Estava construindo um templo.
Mas aquele templo não possuía paredes.
Certa noite, enquanto todos dormiam, Amara saiu para a margem do Ganges.
Sentou-se diante da água.
— Mãe...
Eu ainda não entendo por que me escolheste.
Uma brisa passou por seus cabelos.
A chama azul brilhou.
Não houve voz.
Nenhuma aparição.
Apenas uma sensação profunda de paz.
Amara sorriu.
— Talvez eu não precise entender.
Talvez precise apenas continuar.
Foi quando ouviu passos atrás de si.
Era Arjun.
— Há homens procurando por você.
Amara se levantou.
— Quem?
— Não sei.
Perguntaram por uma jovem com uma chama azul.
O coração de Amara apertou.
A lembrança das palavras do Mestre voltou imediatamente:
"Quando a luz começa a crescer, a sombra também desperta."
— Quantos homens?
— Muitos.
— E onde estão?
Arjun apontou para a rua.
— Próximos à Casa da Compaixão.
Amara fechou os olhos.
Durante alguns segundos, permaneceu imóvel.
Depois respirou profundamente.
— Não vou fugir.
— Eles podem machucar você!
— Talvez.
— Então por que ficar?
Amara olhou para as pessoas que dormiam dentro da casa.
— Porque se eu fugir sempre que alguém ameaçar minha luz, ela nunca servirá para iluminar ninguém.
Na manhã seguinte, os homens chegaram.
Eram liderados por um sacerdote chamado Mahadev.
Vestia roupas negras e trazia no pescoço vários símbolos religiosos.
Entrou na Casa da Compaixão acompanhado por cinco homens.
— Você é Amara?
— Sou.
— Dizem que está se tornando famosa.
— Não procuro fama.
— Dizem que as pessoas a chamam de santa.
— Eu nunca pedi que me chamassem assim.
Mahadev aproximou-se.
— Então pare de fazer o que está fazendo.
Amara franziu a testa.
— Por quê?
— Porque pessoas simples estão começando a acreditar que podem encontrar o sagrado fora dos grandes templos.
— E isso é um problema?
— É uma ameaça.
Amara ficou em silêncio.
Então respondeu:
— Talvez o problema não seja que as pessoas estejam encontrando o sagrado.
Talvez seja que algumas pessoas tenham medo de perdê-lo.
O rosto do sacerdote endureceu.
— Você não sabe com quem está mexendo.
— Sei apenas que há crianças com fome.
Mahadev deu um passo à frente.
— Você deveria ter cuidado.
Amara sustentou seu olhar.
— Passei a vida inteira tendo medo.
Não quero mais viver assim.
O sacerdote saiu furioso.
Naquela noite, Arjun perguntou:
— E se eles voltarem?
Amara olhou para a pequena chama azul.
— Então estaremos juntos.
A Casa da Compaixão continuou funcionando.
Mas algo havia mudado.
Agora havia vigilância.
Portas eram fechadas à noite.
As pessoas se revezavam para proteger as crianças.
Amara, entretanto, recusava-se a transformar o lugar em uma fortaleza.
— Se construirmos muros por medo, estaremos criando outro templo fechado — dizia.
Certa madrugada, enquanto todos dormiam, Amara ouviu uma criança chorando.
Era Lakshmi.
A menina estava tendo um pesadelo.
Amara sentou-se ao lado dela.
— Está tudo bem.
— Eles vão destruir nossa casa?
Amara acariciou seus cabelos.
— Talvez tentem.
— E se conseguirem?
Amara ficou alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu:
— Uma casa pode ser destruída.
Uma ideia, não.
A menina sorriu.
E voltou a dormir.
Naquele instante, Amara percebeu que sua missão havia mudado.
Ela não era mais apenas uma jovem tentando encontrar um lugar no mundo.
Agora havia pessoas que dependiam de sua coragem.
E, pela primeira vez, compreendeu completamente as palavras do Mestre:
"A sombra também desperta quando a luz cresce."
Na manhã seguinte, uma multidão se reuniu diante da Casa da Compaixão.
Não eram inimigos.
Eram pessoas.
Centenas delas.
Camponeses.
Viúvas.
Crianças.
Comerciantes.
Doentes.
Peregrinos.
Todos haviam vindo porque ouviram falar daquele lugar.
Amara saiu diante deles.
Uma senhora colocou uma pequena flor vermelha em suas mãos.
— Não temos ouro para oferecer.
Amara sorriu.
— Então ofereça sua presença.
Outra pessoa trouxe arroz.
Outra trouxe água.
Outra trouxe remédios.
Outra trouxe apenas as próprias mãos para trabalhar.
Amara olhou para aquela multidão.
E finalmente compreendeu.
A Grande Mãe não lhe dera um templo.
Havia lhe dado algo maior.
Um povo.
Naquela tarde, as portas da Casa da Compaixão foram abertas ainda mais.
E a pequena chama azul que começara no coração de uma jovem solitária tornou-se uma chama compartilhada por centenas de pessoas.
Mas, muito distante dali, Mahadev observava tudo.
E percebeu que já não estava enfrentando uma peregrina.
Estava enfrentando um movimento.
Um movimento que não possuía armas.
Não possuía riquezas.
Não possuía um exército.
Possuía algo muito mais perigoso para aqueles que governavam pelo medo:
esperança.
E Mahadev decidiu que, dessa vez, não tentaria expulsar Amara.
Tentaria destruir sua reputação.
Porque sabia que, se conseguisse convencer o povo de que a Peregrina da Chama Azul era uma impostora, talvez pudesse apagar sua luz.
O próximo golpe seria muito mais cruel.
E Amara ainda não sabia que, entre aqueles que se aproximavam da Casa da Compaixão, havia alguém enviado para traí-la.