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Simplesmente Você

Laudeilsonsoares
Pensamento

Pensamento

Laudelina

Uai, a Vivian eu até entendo. Quem me deixou com a pulga atrás da orelha foi o Jhon: emburrado com a viagem da Ana desde o começo e depois aquela mão na cintura do Liam no aeroporto. Esse vai dar trabalho no livro.

Uai, a Vivian eu até entendo. Quem me deixou com a pulga atrás da orelha foi o Jhon: emburrado com a viagem da Ana desde o começo e depois aquela mão na cintura do Liam no aeroporto. Esse vai dar trabalho no livro.

Conteúdo da publicação

— Oi, sou a Ana. Qual é o seu nome?

— Sou o Peter. É um prazer te conhecer, Ana. O que você faz por aqui a uma hora dessas?

Sorri, olhando no fundo dos olhos dele.

— Perdida.

Rimos juntos por alguns instantes. Das duas, uma: ou ele era um psicopata que acabaria com a minha vida ali mesmo, no meio do mato, ou era o príncipe salvador que ia me tirar da maior enrascada da minha vida.

Foi assim que Peter e eu nos conhecemos. Mas, para você entender como fui parar embaixo daquela árvore, preciso voltar um pouquinho.

Os lugares errados

Me chamo Ana, acabei de me formar em jornalismo e estou "morando" por uns dias em Nova York, no quartinho do Liam, no Brooklyn. O Liam é o meu melhor amigo, o irmão que a vida me deu.

Conheci o Liam no meu primeiro dia de faculdade. Eu estava perdida; ele também. Nós dois entramos na sala errada, nos olhamos e nos reconhecemos na hora. Às vezes acho que a minha vida inteira é uma sequência de lugares errados que terminam em pessoas certas.

Foram quatro anos de lutas, batalhas e muito choro nos corredores: ele com as dores da família dele, eu com o meu karma pesado de relacionamentos que só me deixavam cicatriz. Mesmo assim, a gente sobreviveu. Eu me formei primeiro; o Liam ainda tinha um semestre pela frente, e esse semestre seria na Universidade de Columbia, o sonho de infância dele.

Ele está na cidade que nunca dorme há quase três meses. Eu, com o diploma debaixo do braço e a alma pedindo ar novo, aproveitei a deixa para sair do Brasil pela primeira vez e realizar o meu próprio sonho de infância. E, claro, não ia deixar o meu melhor amigo sozinho por tanto tempo.

Ele me buscou no aeroporto no dia da minha chegada. Conversamos por horas, quase não dormimos. O quarto dele era minúsculo, mas para nós estava tudo certo: eram só alguns dias na melhor companhia do mundo.

O único que não ficou nada contente com a minha viagem foi o Jhon, o grande amigo do Liam em Columbia. Lindo, elegante e possessivo como quem guarda a última fatia de pizza. Achei estranho, mas eu estava precisando de ar novo demais para me preocupar com isso.

Uma garota, uma floresta e uma lista

Como o Liam passava os dias entre aulas e trabalho, os meus dias eram livres, e eu pretendia aproveitar cada minuto.

Na primeira semana, explorei o Brooklyn. Era maravilhoso ver como as pessoas viviam do lado de cá, e a vista de Manhattan a partir do Brooklyn Bridge Park é uma daquelas coisas que não dá para descrever: você precisa ver. Na segunda semana, atravessei a ponte. Museus, galerias de arte, a Broadway com dezenas de espetáculos em cartaz... Eu tinha certeza de que passaria as minhas férias inteiras só por ali.

Mas, se você já percebeu que eu amo parques, percebeu certo. Amo qualquer lugar onde dê para encostar na natureza e sentir o que a cidade tem de mais genuíno. Foi assim que escolhi o Forest Park, no Queens: centenas de acres de floresta nativa preservada, trilhas e ar puro, a menos de uma hora de tudo.

Acordei cedo e arrumei a mochila de trilha, certa de que aquele seria um dia perfeito. O Liam sabia exatamente aonde eu ia, mas naquele dia ele tinha workshop na faculdade e plantão na emissora, ou seja, ficaria incomunicável até a noite. Sem problema: a cidade é segura, o parque recebe milhares de visitantes por ano. O que poderia dar errado?

Preciso confessar uma coisa: sou extremamente esquecida. Não sei se é falta de vitamina, de sono ou só de atenção, mas, se eu não faço uma lista, esqueço sempre alguma coisa importante. Naquele dia, a lista dizia que eu tinha colocado tudo na mochila. A realidade tinha outra opinião.

Primeiro esquecimento do dia: a bateria extra do celular. Segundo: a capa de chuva. Os dois ficaram em cima da cama, onde eu os tinha colocado para conferir antes de me distrair com qualquer outra coisa. Mas eu não ia desistir do passeio. O celular estava com pouco mais de cinquenta por cento, o que dava e sobrava para um dia de trilha, e a previsão não falava em chuva.

Peguei um táxi, com ar-condicionado e tudo. Nova York estava mais quente que o normal, mas era verão, então claro que estava. Ao chegar, comprei uma garrafa de água de dois litros, reforcei o protetor solar e separei frutas e barras de cereal para não me preocupar com comida até a volta.

O parque era lindo. Sol, poucas nuvens, o cheiro de terra e de pinheiro no ar. Caminhei mata adentro e, quando cheguei aos primeiros pinheiros imensos, lembrei do filme Planeta dos Macacos, na cena em que o César descobre a floresta pela primeira vez. Que lugar! Nem parecia que eu estava no meio de Nova York.

Sentei, deixei a mochila encostada numa raiz e fiz uma chamada de vídeo para a minha mãe. Ela sabia do meu sonho e eu queria dividi-lo com ela. Falamos por quase vinte minutos, chorei, ela chorou, porque é assim quando a gente vive aquilo que sempre desejou. Tomei água, comi uma banana e resolvi andar só mais um pouquinho.

Tudo estava tão silencioso que parecia que o mundo tinha entendido que aquele era o meu momento. Decidi entrar um pouco mais no bosque. Pensei: quem se perde num parque no meio da cidade? Era como o Ibirapuera, só que com mais esquilos.

Engano meu. Subi num tronco caído para ter uma vista melhor, o tronco estava coberto de musgo e eu escorreguei. Senti uma dor enorme no tornozelo. Na hora achei que era só um susto e tentei seguir caminhando, mas a dor aumentou. Tirei o tênis e vi que o pé já tinha uma cor que não era a minha.

Olhei ao redor e percebi que estava longe da entrada, longe de qualquer lugar movimentado. Minha mochila também não estava comigo: eu a tinha deixado lá atrás, encostada na raiz, enquanto conversava com a minha mãe. Peguei o celular no bolso do casaco para pedir ajuda, e a bateria estava com apenas dois por cento. Claro: a chamada de vídeo tinha cobrado o preço.

Voltei mancando pelo mesmo caminho e, graças a Deus, a mochila estava lá, intacta. Mas, quando olhei em volta, não reconheci nada. O celular morreu de vez. Pelo menos eu tinha água, e, em todos os sentidos, eu tinha água, porque começou a chover.

As gotas vieram fraquinhas, depois fortes, depois acompanhadas de raios e trovões, como se o mundo fosse acabar. Sem capa de chuva, é claro. O relógio de pulso marcava quase quatro da tarde. O parque só fechava às nove, eu tinha tempo, mas o meu chão tinha falhado comigo, literalmente, e eu não fazia ideia de qual direção seguir.

Me abriguei embaixo de uma árvore enorme, que pelo menos diminuía a chuva, e foi aí que eu o vi.

Perdida

Um homem alto, atlético, negro, de cabelo baixinho, com roupa de corrida e uma regata ensopada que não deixava dúvida sobre o quanto ele treinava. Devia ter a minha idade e parecia ter saído de uma estátua grega, dessas de museu bem iluminado, só que andando na minha direção debaixo de uma tempestade.

Ele diminuiu o passo ao me ver e parou a uns dois metros de distância. Eu nem pensei duas vezes.

— Oi, sou a Ana. Qual é o seu nome?

— Sou o Peter. É um prazer te conhecer, Ana. O que você faz por aqui a uma hora dessas?

— Perdida.

— Como assim, perdida? — ele perguntou, sorrindo e ficando ainda mais bonito, o que eu não achava possível.

— Pois é, Peter. Vim fazer uma trilha, subi num tronco, caí, torci o tornozelo, o celular morreu, começou a chover e decidi ficar parada aqui até a chuva passar ou alguém aparecer. Então... você é o meu salvador? — perguntei, já rindo.

— Com toda certeza, princesa — ele devolveu o sorriso. — Precisa de ajuda para sair daqui?

Estendi a mão sem pensar duas vezes. Quando os dedos dele fecharam nos meus, uma corrente quente subiu pelo meu braço, e eu soube. Pode parecer piegas, mas depois de tantos fracassos, alguma coisa boa finalmente tinha me encontrado. E eu nem precisei me encontrar primeiro.

Peter se agachou, examinou o meu tornozelo com as mãos grandes e cuidadosas e disse que parecia uma luxação.

— Dá para andar?

— Dá.

— Mentira.

— Mentira.

Ele riu, me pegou no colo como quem carrega uma pluma com opinião própria e saiu andando pela trilha, debaixo da chuva.

— Se eu te carregar até o carro, você promete que não vai gritar por socorro achando que eu sou o psicopata?

— Depende de quão longe fica o carro.

O carro ficava longe. Eu não reclamei de nenhum metro.

Voltamos para o Brooklyn com o aquecedor ligado e uma toalha seca sobre os meus ombros. Falei da minha vida no Brasil, da formatura recente, do meu trabalho numa redação em São Paulo e da vontade de encontrar alguém com quem construir uma vida. Peter não fugiu de nenhum assunto. Respondeu a todas as minhas perguntas, fez outras tantas, e a conversa fluiu como nunca tinha fluído com ninguém. Meu lado espiritual já cochichava no ouvido: encontro de almas, Ana. Aqui. Em Nova York.

— Chegamos — ele disse, em frente ao prédio do Liam. — Me passa o seu telefone? Estou de férias nos próximos dias e teria o maior prazer em te mostrar a cidade.

Olhei para ele, tentando disfarçar o sorriso. Eu queria, e muito, ter aquele homem como guia pelos próximos dias, mas não quis criar expectativa, porque não sabia se alguma coisa sairia dali.

— Claro. Assim, pelo menos, eu não fico perdida da próxima vez que sair por aí.

Rimos de novo. Ele anotou o número, repetiu o meu nome como quem guarda uma palavra preciosa e eu subi flutuando, com tornozelo torcido e tudo.

O melhor hambúrguer da cidade

O Liam já estava em casa, desesperado. Tinha ligado várias vezes e o meu celular, claro, estava morto. Contei a história inteira, do tronco ao salvador. Ele disse que era só uma luxação, que eu estava exausta e desacostumada de tanto turismo, e me entregou salompas e um remédio. Algumas horas depois, a dor já tinha diminuído e eu conseguia andar pelo quarto sem mancar.

Pedimos comida. Quando fui ver se o celular tinha carregado, havia uma mensagem nova, de um número desconhecido. Peter tinha mandado mensagem de verdade.

Cheguei em casa também, Ana. Foi um prazer passar esse tempo com você. Que tal almoçarmos amanhã? Posso te levar ao melhor hambúrguer da cidade. Passo aí às 12h?

Li a mensagem duas vezes.

— O que você acha que eu devo responder, Liam?

— Que vai, com toda certeza. O seu pé está ótimo e ele sabe onde você mora.

Eu ri alto, porque aquela era exatamente a minha resposta. Não existia a menor chance de dizer não.

No dia seguinte, acordei cedo e organizei o quarto. O Liam já tinha saído para a faculdade, porque ele gosta de madrugar. Meu pé tinha melhorado de um jeito quase milagroso, mas mantive as salompas e o remédio por precaução. Quase na hora do almoço, tomei banho, me arrumei e desci. Peter chegou no minuto exato e desceu do carro para me ajudar a caminhar, mas eu expliquei que já estava ótima.

Fomos ao Shake Shack do Madison Square Park, a barraquinha onde, segundo ele, tudo começou. Ele sugeriu o hambúrguer da casa, e quando o pedido chegou eu entendi o sucesso: era imenso, o cheiro era incrível e o sabor, especial.

Quase no fim do almoço, notei uma mulher do lado de fora. Ela ia e voltava, e sempre ficava uns cinco minutos olhando para dentro, como se monitorasse um de nós dois. Não quis causar alarde, mas o meu sentido jornalístico, quase um sentido de aranha, estava gritando.

Terminamos o almoço e fomos caminhar pelo parque ao lado. Eu me sentia pronta para andar devagar, e ele aceitou o ritmo.

— Obrigada pelo convite — eu disse. — Muito gentil da sua parte. Para ser bem sincera, não achei que você fosse mandar mensagem. Foi quase uma surpresa.

Peter parou de andar e me encarou, muito sério.

— Você achou que eu sou desse tipo de homem que não liga no dia seguinte? — E, sarcástico: — Claro que sou. Eu gosto de conquistar a mulher até o último dia e depois sumir.

Ele caiu na risada. Olhei para aquele sorriso e tive certeza de que era um homem para casar, e, se existisse amor à primeira vista, eu estava completamente rendida. A flecha do cupido tinha me pegado com força.

Foi quando o meu celular vibrou. Número desconhecido: Claramente você é a nova conquista dele, mas quero te avisar que ele tem dona. Cai fora, imigrante.

Mostrei a mensagem para ele.

— Acho que a sua ex clonou o seu telefone.

— Não é possível... — Peter passou a mão pelo rosto. — Esse é o quarto número só esse ano. Ana, eu juro, a gente terminou há mais de um ano. Quase dois, na verdade. Ela ainda não entendeu isso. E eu não sei mais o que fazer.

Aquilo fez muito sentido. A mulher na janela do restaurante tinha nome e sobrenome.

Eu me aproximei, quebrei o nosso espaço pessoal e o abracei com toda a força que eu tinha. Eu sabia exatamente o que ele estava passando: o meu namorado do ensino médio me perseguiu por quase um ano depois que entrei na faculdade, até o Liam me empurrar para a delegacia e a gente conseguir uma medida protetiva. Se aquilo me ensinou alguma coisa, foi que medo não resolve nada, mas limite resolve.

— Vem para o Brasil comigo — falei em tom leve, tentando aliviar o clima. — Eu vou embora daqui a cinco dias.

— Sério? — ele perguntou, segurando a minha mão.

— Claro que não. — Eu continuei: — Uma medida protetiva seria mais eficiente. Não faz sentido você mudar de vida por causa dela, a não ser que ela esteja te colocando em risco. Está?

Ele demorou para responder. Senti a energia dele baixar.

— Ameaçar todo mundo que se aproxima de mim, clonar o meu número mais de quatro vezes no ano, me fazer mudar de endereço duas vezes e de carro uma... isso é risco?

Fiquei congelada. Era uma história com mais camadas do que eu imaginava. E uma pergunta me veio de imediato.

— Com toda certeza é. Mas o que fez você esperar tanto tempo, Peter?

— Medo — ele disse. — Do que ela pode fazer com a própria vida. Ela não tem ninguém por aqui além do pai, que vive para o trabalho, e se apega às pessoas para preencher essa falta. A Vivian é curadora de arte, e das boas. Eu a conheci por meio de um amigo, o Harley Williams, um artista de quem todo mundo anda falando. Ela trabalhou com ele numa exposição. Mas ela precisa, primeiro, se resolver como pessoa.

— Essa responsabilidade não é sua — eu disse, olhando nos olhos dele. — Ela é uma mulher adulta, com carreira, trabalho e vida. Não pode viver te perseguindo por aí.

Peter respirou fundo e concordou com a cabeça. Prometeu que tentaria conversar com ela uma última vez antes de dar o passo seguinte.

De volta ao prédio do Liam, descemos do carro.

— Obrigada pelo almoço — eu disse. — Apesar de tudo, o dia foi muito especial. Foi maravilhoso conhecer um pouco mais sobre você, Peter.

Ele veio ao meu encontro e me beijou. Não foi um beijo apressado: foi profundo, romântico, quente, cheio de interesse e de vontade. Eu retribuí na mesma medida, sem medo e sem reservas. Afinal, em cinco dias Nova York ficaria para trás.

— Desculpa — ele disse, se afastando. — Eu não podia deixar você ir embora sem fazer isso. Se invadi o seu espaço, peço desculpas de novo.

— Não precisa pedir desculpas. Eu queria isso desde o primeiro momento em que te vi, ontem. Só não podia parecer tão oferecida.

Ele caiu na risada.

— Você jamais seria. Te vejo amanhã?

— Que tal um dia inteiro no Central Park? Eu ainda não fui.

— Te pego às dez.

Subi, contei tudo para o Liam, arrumei a mochila do dia seguinte (com lista, bateria extra e capa de chuva, dessa vez) e fui dormir, ou melhor, tentei. Eu tinha vivido uma das melhores tardes da minha vida e não tinha mais nenhuma dúvida de que ele era o homem da minha vida. Mas tentei não me apegar, porque em cinco dias eu iria embora e esse sonho, com certeza, ficaria para trás.

A última palavra

No dia seguinte, Peter estava na porta do prédio na hora marcada. Desci, abracei, beijei e entrei no carro.

A viagem foi tranquila. Encontramos um lugar bem perto do lago, num dia lindo, de clima perfeito, e montamos o nosso acampamento. Começamos a conversar e a comer. Cinco minutos depois, alguém se aproximou por trás da gente.

— Então é com essa daí que você está me traindo, Peter?

Era uma mulher linda, ruiva, de pele clara e olhos azuis, com um vestido florido que eu certamente usaria. Reconheci na hora: era a mulher da janela do restaurante. Pelo jeito, também tinha seguido a gente pelo parque no dia anterior.

— Vivian — Peter disse, se levantando, e eu me levantei junto —, você está se excedendo. A gente terminou há quase dois anos. Não tem como eu estar te traindo.

Ela me olhou de cima a baixo.

— Sério que você me trocou por essa turistinha?

— Desculpa, Vivian — eu disse, com calma —, mas eu não tenho nada a ver com a sua história com o Peter. Se vocês terminaram há tanto tempo, talvez seja hora de seguir em frente, não acha?

— Quem você pensa que é para falar assim comigo?

— Vivian — Peter se aproximou dela, a voz firme e grave —, hoje é o seu último aviso. Ou você me deixa em paz, ou amanhã você recebe a notificação da polícia. Eu vou abrir um boletim de ocorrência e pedir uma medida protetiva. O que você acha da ideia?

— Você não teria coragem. Eu sou o amor da sua vida. Sou a mulher que mais conhece você.

— Testa e vê — ele disse. — Cansei de trocar de telefone toda vez que você descobre o número. Chega. — E essa última palavra saiu quase como um grito que estava preso na garganta havia meses.

Olhei para ele com todo o carinho que tinha. Quando voltei os olhos para ela, Vivian estava chorando, um choro sofrido e profundo. Percebi que aquelas palavras tinham atingido o lugar que ela não queria que atingissem. O elo que ainda existia entre os dois, enfim, tinha se partido. Ela entendeu o recado, deu meia-volta e foi embora.

Peter respirou fundo, e foi como se tivesse tirado do peito um peso de dois anos.

— Você está bem? — perguntei, pegando a mão dele.

— Estou. — Ele sorriu, e dessa vez o sorriso chegou aos olhos. — Pela primeira vez em muito tempo, estou.

Os dias que se seguiram foram calmos e doces. Vivemos a nossa paixão em cada esquina: fomos ao teatro, jantamos juntos, com o Liam e o Jhon, e numa dessas noites Peter me apresentou ao Harley, um homem lindo e enigmático. O Liam, de plantão na emissora, perdeu o jantar e a chance de conhecê-lo. Pensei, com aquela intuição que nunca me deixa em paz: esses dois ainda precisam se conhecer. Mas o destino tem calendário próprio, e isso é história para outro momento.

Simplesmente você

Chegou a hora de ir embora. Peter me levou ao aeroporto junto com o Liam, e eu me despedi dele devagar, como quem tenta decorar um rosto.

— Você vai ficar bem, Peter?

— Claro que vou — ele disse, com um ar pesado que tentou disfarçar com um sorriso. — Mas não pense que vai se livrar de mim.

— Nem quero — eu disse, sorrindo de volta. — Se quiser mudar de vida, a minha proposta ainda está de pé.

— Ana! — o Liam interrompeu, rindo alto. — Hora de embarcar! Nada de choro. Daqui a três meses eu volto e a gente volta a morar junto.

Ele me abraçou, sabendo muito bem que as lágrimas não eram por causa dele.

— Pode ficar tranquila que eu cuido dele, Ana — o Jhon disse, me abraçando também. — O seu amigo vai estar na melhor companhia até a hora de voltar para casa. Isso se ele quiser voltar. — E pousou a mão na cintura do Liam, quase como uma posse. Registrei aquele gesto no fundo da cabeça, com um arrepio que não soube explicar, e deixei para lá.

Peter e eu nos beijamos mais uma vez e eu atravessei o portão de embarque. Nova York tinha me devolvido o amor, e do jeito certo. Eu não sabia como seria dali em diante. Só sabia que não seria como antes.

Já na fila do embarque, o celular vibrou. Era ele.

Você esqueceu uma coisa no meu carro, Ana.

Revirei a mochila, conferi a lista, olhei os bolsos. Bateria extra, capa de chuva, passaporte, tudo ali.

O quê?

O seu coração. Vou ter que devolver pessoalmente. Já estou olhando passagens para São Paulo.

Li a mensagem, sorri para a tela e, pela primeira vez na vida, ter esquecido alguma coisa me deixou feliz.

Eu ainda não sabia, mas aquele era só o começo. Dois anos depois, eu entraria num salão de festas em São Paulo vestida de noiva, e aquela não seria a única história a começar naquela noite. Mas essa parte você encontra nas páginas de O reino de areia e ferro.

Thoughts

  • Laudelina

    Musgo, tornozelo torcido e dois por cento de bateria: a Ana não facilita. No capítulo 2 de «Acaso do destino», a Paola também fala com a mãe antes de se sentir perdida em outro país.

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  • Laudelina

    Uai, a Vivian eu até entendo. Quem me deixou com a pulga atrás da orelha foi o Jhon: emburrado com a viagem da Ana desde o começo e depois aquela mão na cintura do Liam no aeroporto. Esse vai dar trabalho no livro.

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  • tucano

    Bah, 50% de bateria, vinte minutos de vídeo com a mãe e sobrou 2%. E a capa de chuva ficou em cima da cama, claro.

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