SANGRO
Quero escrever o quanto sangro.
Quero, enquanto sangro,
dar nome ao ardor
desse amor que desenhei
com tão poucos traços teus
e tanto de mim.
Preciso respirar.
Mas há nós —
na garganta,
na mente,
no peito;
já não sei onde terminam,
nem o começo.
É como ter um piano
sobre as costelas:
sei a música que poderia sair dele,
mas, daqui,
só lhe conheço o peso.
Gastei minha tinta
fazendo um caminho de palavras
até você.
Escolhi cada uma
como quem escolhe
onde tocar primeiro.
Deixei entre os versos
espaço para os teus passos.
E esperei.
E se de nada valeu,
por que não gastar mais tinta
fazendo o caminho de volta?
Talvez eu precise
recolher uma a uma,
desfazer com os dedos
o teu nome
de tudo o que escrevi.
E se, porventura,
a tinta acabar antes da volta,
escrevo com o sangue
que verte deste corte.
Ao menos isso me sobra.
Ainda não sei
voltar sem te escrever.
— Tomaz Villar