OLHAR DE VOLTA
Deixei entre os versos
espaços para os teus passos.
E, a cada silêncio teu,
escrevi mais um pouco,
como quem alonga uma estrada
porque ainda não vê
quem espera.
Gastei minha tinta
fazendo um caminho de palavras
até você.
Imaginei o som da tua chegada.
Cheguei a confundir
meu próprio coração
com teus passos.
Depois, sangrei.
Já procurava no caminho
um lugar por onde voltar
sem desfazer com os pés
o que minhas mãos
ainda tremiam por ter escrito,
quando você me chegou
sem tocar o chão.
Eu, que te esperava em passos,
não soube de imediato
te reconhecer em música.
Mas você era canção.
E música é vento.
Entrou pelos espaços
que deixei entre os versos,
alcançou meu peito —
o ar que me faltava
tinha a tua melodia.
Respirei.
O piano que me pesava
ressoou por inteiro.
Senti tuas notas
erguerem, uma a uma,
o peso das palavras
que eu trazia sobre mim.
Tua canção me encontrou
e me levou sobre os céus,
estancado.
Retornei
sem pisar num único verso.
Lá embaixo,
o caminho guardava
tudo o que senti.
Não precisei
reconstruir a represa.
As águas corriam,
e havia em você
uma sede
que eu ainda não conhecia.
Também não desviei dos teus olhos.
Enquanto eu escrevia
como partir,
você já havia decidido
olhar de volta.
— Tomaz Villar