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Olhar de volta

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Pensamento

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sebista

Eu disse que poeta não sabe desescrever, e ele achou outro jeito: voltou por cima, sem pisar em verso nenhum, e o caminho ficou inteiro lá embaixo. Agora quero ver o que ele faz com essa sede dela que ele nem conhecia.

Eu disse que poeta não sabe desescrever, e ele achou outro jeito: voltou por cima, sem pisar em verso nenhum, e o caminho ficou inteiro lá embaixo. Agora quero ver o que ele faz com essa sede dela que ele nem conhecia.

Conteúdo da publicação

OLHAR DE VOLTA

Deixei entre os versos
espaços para os teus passos.

E, a cada silêncio teu,
escrevi mais um pouco,
como quem alonga uma estrada
porque ainda não vê
quem espera.

Gastei minha tinta
fazendo um caminho de palavras
até você.

Imaginei o som da tua chegada.
Cheguei a confundir
meu próprio coração
com teus passos.

Depois, sangrei.

Já procurava no caminho
um lugar por onde voltar
sem desfazer com os pés
o que minhas mãos
ainda tremiam por ter escrito,

quando você me chegou
sem tocar o chão.

Eu, que te esperava em passos,
não soube de imediato
te reconhecer em música.

Mas você era canção.
E música é vento.

Entrou pelos espaços
que deixei entre os versos,
alcançou meu peito —
o ar que me faltava
tinha a tua melodia.

Respirei.

O piano que me pesava
ressoou por inteiro.
Senti tuas notas
erguerem, uma a uma,
o peso das palavras
que eu trazia sobre mim.

Tua canção me encontrou
e me levou sobre os céus,
estancado.

Retornei
sem pisar num único verso.

Lá embaixo,
o caminho guardava
tudo o que senti.

Não precisei
reconstruir a represa.
As águas corriam,
e havia em você
uma sede
que eu ainda não conhecia.

Também não desviei dos teus olhos.

Enquanto eu escrevia
como partir,
você já havia decidido
olhar de volta.

— Tomaz Villar

Thoughts

  • cafeAmargo

    Ele confundindo o próprio coração com os passos dela fica comigo. Quem espera demais começa a ouvir chegada em qualquer barulho.

    Permalink
  • sebista

    Eu disse que poeta não sabe desescrever, e ele achou outro jeito: voltou por cima, sem pisar em verso nenhum, e o caminho ficou inteiro lá embaixo. Agora quero ver o que ele faz com essa sede dela que ele nem conhecia.

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