O que faz um presente continuar tentando te remendar mesmo quando já está tão despedaçado quanto você?
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Ontem foi um dia difícil.
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O que faz um presente continuar tentando te remendar mesmo quando já está tão despedaçado quanto você?
Conteúdo da publicação
Ontem foi um dia difícil.
Talvez um dos dias mais difíceis da minha vida, difícil elencar dadas as atuais circunstâncias em que me encontro.
Mas o fato é que levo tanta porrada da vida,que os anos e os danos já me criaram certa casca.
Porém, quando a vida golpeia as pessoas que quero bem minha dor se agrava, não sei "não sentir" não me anulo para com os meus sentimentos, e quando vejo quem eu quero bem sofrer, eu sofro em dobro.
Tenho tido anos difíceis, os últimos meses quase impossíveis, suporto porque é preciso suportar, tenho quem depende de mim. Desistir não é uma opção.
O fato é: Sobreviver é preciso, viver nem sempre é possível.
Eu aceitei o meu inferno. Não havia outra alternativa senão suportar, decorei as paredes do meu inferno com os retalhos de nostalgia de outrora e aceitei o meu destino: Estou fadado a viver nele pelo resto de meus dias, e se for pra proteger e cuidar de quem eu amo,que assim o seja.
Não ter esperança, não ver um horizonte, aceitar o sadismo do marquês e escrever minhas memórias com sangue nas paredes, para nos momentos de insanidade lembrar de quem eu sou, esse era meu fardo, esse era meu destino, assim tem o sido por milhares de dias e eu abracei meus demônios, fiz amizade com tais, ao menos a convivência seria menos tortuosa.
Mas assim como o tempo é cruel e impiedoso, o destino que tantas vezes também o pode ser, por vezes também decide nos presentear.
Eu ganhei algo muito preciso e delicado, difícil de cuidar, fácil de amassar, fácil de rasgar, fácil de molhar, porém muito precioso.
Meu presente se faz presente, muitas vezes mais do que deveria, pois como ele é frágil e delicado, ele pode se desfazer.
Mesmo sabendo que pode se desfazer, meu presente continua presente e assim o faz, dia após dia, hora após hora,cheio de rasgos e mesmo assim insistindo em me remendar.
E assim o fez, cumpriu o seu papel incansavelmente, até que por fim, se rasgou.
Eu o vi se rasgando, cada pedacinho se esvaindo e se desfazendo, é muito triste ver que aquilo que te cura, que te alivia, que te trás conforto muitas vezes está tão despedaçado quando você.
Ontem eu não estava bem, eu quase nunca estou bem,mas ontem excepcionalmente eu estava pior, não por mim, mas por ter de conceber a idéia de que talvez meu presente que me foi dado diretamente pelas mãos do destino estava se esvaindo na minha frente e eu de nada podia fazer.para evitar.
A decisão não cabia a mim, acho que sequer a aquilo que me foi dado, e mais uma vez foi jogado ao destino.
Eu precisava sair do inferno, precisava tirar as mãos das grades de espinhos que me prendiam, precisava apenas ver o mar, pois dele que tantas vezes me trouxe acalanto e calmaria mais uma vez não me decepcionaria e me traria as respostas que eu tanto precisava.
Noite clara, enluarada, como se o céu beijasse o mar, como se não houvesse espaço entre os dois, apenas o encontro no crepúsculo daqueles que foram feitos um pro outro: O mar abissal e o céu infinito.
Sentei sobre as rochas a beira mar e questionei o destino:
"Porquê? O que tens contra mim? Me destes o presente mais precioso que poderias me dar, aquele que por uma vida toda eu te prometi que cuidaria caso o fizeste e tu simplesmente o tiras de mim?"
Eis que o destino sábio como só quem é mais antigo que o próprio tempo pode ser me sopra aos ouvidos :
" Estás apenas olhando ao chão, há anos, quiçá décadas olhando ao chão por isso não vê o horizonte"
E ao deparar-me com o horizonte há anos sem me permitir o contemplar eis que vejo um farol, forte, imponente e luminoso. Tão luminoso quanto a luz da lua beijando o mar e o destino senta ao meu lado e diz:
"teu presente estás lá, nem não perto que possas tocar e nem tão longe que não possas ver, prepara-te para navegar e vá de encontro ao que guardei pra ti"
E eu, descrente de tudo e de todos ganhei diretamente das mãos do destino o meu farol, aquele que me aponta o horizonte, me dá forças para construir a minha embarcação durante o dia e ilumina as minhas noites, mesmo as mais sombrias.
Voltei a ver a luz, voltei a ver o horizonte, achei pelo e por que me guiar.
Obrigado destino, obrigado meu farol.
Thoughts
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PermalinkVocê tira as mãos das grades de espinhos, sai do inferno, vê o mar - quantas vezes você já tinha tentado isso?
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PermalinkQuando você viu o mar, qual foi a primeira coisa que mudou em você?
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PermalinkMilhares de dias carregando isso sozinho - você ainda está aqui.
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PermalinkDepois de tanto tempo sem horizonte, como é que você consegue acreditar de novo que ele existe?
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PermalinkDecorar as paredes do inferno com retalhos de nostalgia - esse é o trabalho de quem decidiu ficar.
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PermalinkO que faz um presente continuar tentando te remendar mesmo quando já está tão despedaçado quanto você?
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PermalinkQuando você sofre em dobro porque vê quem ama sofrer, como você segue um dia atrás do outro?
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PermalinkEsse presente que você carrega mesmo quebrado, mesmo frágil - acho que vejo pessoas assim aqui no estúdio todo dia.
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