Parte 1 — Tentando encontrar um lugar para desabafar
Oi… Eu não sei muito bem como deveria começar, mas cá estou eu. Acho que preciso desabafar um pouco e, talvez, encontrar palavras que consigam explicar tudo o que venho guardando dentro de mim.
Eu nunca soube expressar meus sentimentos, mas hoje estou tentando. Espero conseguir receber apoio e também aprender a me abrir aos poucos com vocês.
Eu amo muito a minha família. Sempre estive disposto a fazer tudo pela minha mãe, pelo meu pai e pelos meus irmãos. Desde os meus 12 anos, senti que precisei deixar uma parte da minha infância para trás e começar a carregar responsabilidades que talvez não fossem para a minha idade. Mesmo sendo o filho do meio, tentei assumir muitas coisas e fazer o meu melhor.
Foi difícil colocar tantas responsabilidades sobre mim tão cedo, mas eu tentei. Nunca abandonei minha mãe, meu pai ou meus irmãos. Sempre procurei estar presente e ajudar no que pudesse. Porém, muitas vezes, senti que esse esforço não era recíproco.
Meus pais sempre pareceram preferir meu irmão mais velho. Mesmo quando ele não demonstrava interesse em construir algo para a própria vida, ainda recebia tudo do bom e do melhor. Enquanto isso, eu sentia que ficava com as piores coisas e que, muitas vezes, era deixado de lado.
Somos seis irmãos, e eu até tentei entender muitas situações. Talvez meus pais tenham tido dificuldades que eu não conheço ou sentimentos que nunca souberam explicar. Mas também acredito que o fato de eu fazer parte da comunidade LGBTQIA+ tenha influenciado a forma como fui tratado. E, apesar de tudo, eu aprendi a aceitar quem sou. Hoje, isso está bem comigo.
O que mais doeu foram as palavras que ouvi durante o meu crescimento. Palavras como: “Eu te odeio”, “Você não era para ter nascido” e “Eu tenho vergonha de sair por sua causa”. São frases que ficaram guardadas dentro de mim e que, por muito tempo, carreguei como se fossem um peso.
Mesmo assim, sempre tentei amar meus pais. Procurei seguir um dos mandamentos da Bíblia: “Honra teu pai e tua mãe.” Talvez por isso eu tenha insistido tanto em continuar amando, ajudando e tentando ser alguém de quem eles pudessem se orgulhar, mesmo quando eu me sentia rejeitado.
Hoje, aos 18 anos, ainda sinto que sou deixado de lado. Só que agora o peso da vida parece muito maior. Estou tendo que me virar sozinho em muitas situações e, às vezes, passo por humilhações na casa de outras pessoas. Eu pensei que meus pais estariam ao meu lado e me ajudariam nessa fase, mas nem sempre me sinto uma prioridade.
Eu sei que tenho 18 anos e que, de alguma forma, preciso começar a construir minha própria vida. Mas a verdade é que eu já tento me virar desde os 12. A diferença é que agora o mundo parece mais pesado, as responsabilidades aumentaram e tudo está ficando mais difícil.
Mesmo assim, eu continuo tentando seguir.
Ainda não sei como contar toda a minha história para vocês. Talvez eu precise de um tempo para me adaptar e aprender a colocar meus sentimentos em palavras. Me desculpem se, no começo, eu não conseguir me expressar muito bem. Aos poucos, espero melhorar e me sentir mais à vontade para continuar.
Obrigado a quem leu até aqui e a quem puder me oferecer um pouco de apoio.
Parte 1.