Capítulo 2: Coincidências ou destino?
No dia seguinte, ao acordar em um hospital, percebi que ainda não tinha conseguido um emprego, mas já tinha conseguido passar uma noite em um hospital. As coisas pareciam estar acontecendo rápido demais!
Olhei para o lado e vi um homem, uns sete anos mais velho que eu, sentado ao meu lado, com um olhar triste, como se tivesse perdido alguém. À primeira vista, achei que ele estivesse ali justamente por esse motivo, mas, logo depois, a enfermeira se aproximou, conversou com ele e, em seguida, veio em minha direção.
Naquele momento, entendi tudo: aquele era o homem que tinha causado meu acidente, o culpado por eu estar naquele hospital, cuja conta eu nem sabia como iria pagar.
Levantei-me antes que ela chegasse até mim e comecei a xingar e gritar com ele:
— Por que você estava correndo tanto na ciclovia?
— Você é um grande filho da ***!
— Por que não olhou para a frente?
— Poderia ter sido uma criança! E se eu tivesse morrido?
A enfermeira veio até mim e, com muita dificuldade, explicou em inglês, o único idioma que eu dominava, embora estivesse em um país cuja língua não era o inglês, que aquele homem não era o responsável pelo acidente. Como a pessoa que havia me atingido fugiu, ele, que tinha presenciado tudo, não pôde simplesmente ignorar o que aconteceu e me trouxe até o hospital.
Minha vergonha foi ainda maior quando fui pagar a conta do hospital e descobri que aquele homem já havia pagado tudo. Ele tinha ido embora sem que eu tivesse a oportunidade de me desculpar e agradecer.
A única coisa que consegui pensar naquele momento foi que talvez ele não tivesse entendido nada do que eu havia dito, porque, muito provavelmente, não falava inglês. Isso me fez sentir um pouco menos envergonhada, mas não menos culpada.
Nunca mais vi aquele homem...
Até aquele dia!
Um mês após o incidente, começaram minhas aulas na faculdade. Aliás, esse havia sido o meu principal objetivo ao me mudar para aquele país: estudar japonês e mandarim.
Naquela manhã, estava frio e nublado, como em um típico dia de inverno. As pessoas começavam a chegar e a entrar nas salas de aula, enquanto eu ainda estava completamente perdida pelo prédio.
Foi quando, bem atrás de mim, vi um homem alto, com cara de idol, que não parecia ser japonês. Ele se aproximou, parou na minha frente e fez uma pergunta em inglês:
— Onde fica o auditório 2?
Ri, porque era exatamente o lugar que eu também estava procurando.
— Me desculpe, mas também sou nova aqui! Estou procurando esse lugar!
Ele sorriu de volta e disse alguma coisa que não consegui entender, porque estava completamente perdida em seu sorriso.
— Vamos?
Ouvi sua voz quando finalmente voltei a mim.
Caminhamos juntos por uns cinco minutos, em silêncio, até chegarmos ao auditório 2. Parei, agradeci e me virei para a direita, procurando um assento bem escondido de todos. Para minha surpresa, ele veio atrás de mim e se sentou ao meu lado.
— Você se incomoda se eu sentar aqui?
— Fique à vontade! — respondi àquele monumento que mais parecia um modelo do que um estudante.
Quando olhei ao redor, percebi que todas as meninas da sala haviam resolvido se sentar perto dele. Meu plano de me esconder não tinha dado certo.
A palestra de boas-vindas terminou e já precisávamos encontrar nossas salas para as próximas aulas. Saí sem me despedir e fui à procura da minha.
No meio do caminho, parei para tomar um café, pois não tinha conseguido comer nada naquela manhã por causa do nervosismo e do frio na barriga que estava sentindo.
Quando finalmente cheguei à sala, fiquei um pouco desapontada, pois, no meu subconsciente, estava esperando encontrar aquele homem novamente. Como seria bom se ele estivesse na mesma turma que eu! Ter um colírio para os olhos nos dias cansativos não seria nada ruim.
A aula começou e nosso primeiro professor, Mr. Osaka, um senhor de uns 70 anos, falou por uma hora sem parar. No final, perguntou se havia alguém que não fosse fluente em japonês na sala. Talvez, se tivesse perguntado antes de começar a aula, tivesse usado mais o inglês do que o japonês...
Levantei a mão, meio sem graça, e ele perguntou:
— Só vocês dois?
Senti novamente aquela sensação à qual já estava acostumada: vergonha!
Olhei para trás para descobrir quem seria a outra pessoa que estava naquele barco comigo e o vi novamente. Estava escondido no fundo da sala, atrás de um homem alto e forte. Por isso, eu não o tinha visto quando entrei. Estava com a mão levantada e sorrindo, como sempre fazia.
— Meu japonês é o de uma criança de cinco anos, mas estou aqui para aprender!
Todas as meninas fluentes se ofereceram para fazer dupla com ele, já que não era muito bom no idioma. Mas, naquele momento, ele se levantou e disse, no meio da aula:
— Obrigado, mas já tenho meu par.
Olhou diretamente para mim e deu uma piscadinha, como se esperasse uma resposta afirmativa da minha parte.
Abaixei a cabeça, pois, além da vergonha, agora a timidez me consumia de dentro para fora.
A aula acabou e chegou a hora do almoço. Procurei um lugar calmo e tranquilo para comer meu lanche, que trazia de casa para economizar, quando avistei um cartaz anunciando uma vaga para tutora de inglês.
Na mesma hora, peguei o telefone e liguei para aquele número.
Ainda estava falando ao telefone quando alguém tocou em meu ombro. Virei para trás e vi alguém que jamais esperaria encontrar novamente.
Era aquele homem. O homem do hospital. Meu salvador. Aquele a quem eu nunca tinha tido a oportunidade de agradecer.
Desliguei o telefone e me despedi da mulher do outro lado da linha.
Duas coisas boas acontecendo ao mesmo tempo comigo: uma oportunidade de emprego e a chance de corrigir um arrependimento.
— Você está bem? Como está seu braço?
— Eeeeeu estou bem... — respondi, incrédula.
Estava tão nervosa e envergonhada que tremia tanto que quase precisei me sentar para não cair na frente dele novamente.
— Desculpe por não ter ficado para levar você para casa naquele dia, mas tive uma emergência familiar e precisei ir embora.
— Por favor, não se desculpe!
Naquele momento, lembrei que minha ideia tinha ido por água abaixo. Ele era, sim, fluente em inglês e tinha entendido tudo o que gritei com ele naquele dia.
— Me desculpe! Me desculpe de verdade! — comecei a dizer, em todos os idiomas que sabia falar. — Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, nem como tinha ido parar no hospital... Tirei minhas próprias conclusões precipitadamente. Me perdoe!
Ele sorriu e, olhando para o nada, respondeu:
— Você me ajudou mais do que eu a você naquele dia, então estamos quites.
Depois, voltou seu olhar para mim e me olhou ternamente, como quem olha para uma criança, antes de dizer:
— Olhe sempre para os dois lados antes de atravessar. Nada de ficar olhando para a lua.
Ele sorriu e me deu as costas. De alguma maneira, entendi que ele estava me observando antes do acidente.
Quando já estava a um metro de distância, gritei:
— Como é mesmo seu nome?
— Te vejo por aí, senhorita Philomena Barcelos!
Sim, ele sabia meu nome! Eu tinha certeza de que nunca o havia visto antes daquele dia, mas, de alguma maneira, ele sabia quem eu era. Provavelmente tinha visto meu nome no hospital... Sei lá! Mas eu não estava com meus documentos naquele dia... Sei lá!
Deixei aquilo para lá, pois já tinha muita coisa na cabeça naquele dia e, mais tarde, ainda teria uma entrevista de emprego.
Comi meu sanduíche, pedindo a Deus que tudo desse certo, pois naquela semana venceria meu aluguel.
Uau... Um mês já tinha se passado!
Pensei nisso enquanto terminava meu lanche.
Assim que acabei de comer, voltei a me perder pelo campus, procurando minha próxima aula.
História da Arte Japonesa.
Li o nome da matéria no papel e fiquei muito animada, pois era uma das minhas favoritas. A arte é algo que simplesmente pulsa em mim. Amo música, dança, teatro e tudo o que está relacionado a esse universo.
Abri a porta e olhei ao redor, procurando um assento, quando vi uma mão me chamando. Logo depois, ouvi uma voz conhecida:
— Vem! Guardei um lugar para você bem aqui, do meu lado!
Esse cara não tinha jeito! Ele gostava mesmo de me deixar envergonhada.
Fui em sua direção e me sentei no lugar que ele havia reservado para mim. Logo senti um desconforto enorme com os olhares das garotas ao meu redor. Abaixei a cabeça, fingindo estar com sono, fechei os olhos e tentei ignorar tudo aquilo.
De repente, ouvi uma voz familiar. Doce e familiar.
Abri os olhos, olhei para a frente e vi o homem com quem havia conversado durante o almoço. O meu ajudador!
— Boa tarde! Eu sou o Mr. Hikaru Asahi e hoje iremos começar uma grande aventura pela história da arte japonesa. Estão prontos para vir comigo nessa aventura?
Sem acreditar no que estava vendo, olhei para ele. E ele, como se estivesse procurando alguém naquele mar de alunos, encontrou meus olhos e sorriu.