Eithan.
Eu estava sentado à mesa, tentando comer tranquilamente, mas, como sempre, Neithan parecia determinado a transformar o jantar em uma guerra particular. Meu irmão me deu uma cotovelada, e eu imediatamente devolvi com um empurrão discreto.
— Para com isso, Neithan — murmurei, franzindo a testa.
— Então para de ocupar meu espaço, idiota — ele respondeu, com aquele sorriso debochado que eu conhecia desde que éramos pequenos.
Revirei os olhos, segurando a vontade de rir. Às vezes, eu realmente me perguntava como conseguia suportar aquele garoto todos os dias.
Foi então que a filha da senhora cuidadora começou a falar sobre a mochila que havia ficado em nosso quarto. Virei o rosto para ela, sorrindo de leve.
— Claro! Depois do jantar eu pego para você. Acho que está perto da minha escrivaninha, mas, se não estiver, a gente procura juntos.
Eu estava prestes a perguntar se ela estava animada para o primeiro dia de aula quando percebi algo estranho.
Por uma fração de segundo, ela olhou para Neithan, e meu irmão ficou completamente imóvel.
Aquilo me chamou a atenção.
Eu conhecia cada expressão daquele garoto. Sabia quando estava irritado, quando estava prestes a aprontar alguma coisa e até quando fingia não se importar com algo que, na verdade, o incomodava profundamente.
Mas aquela expressão...
Eu já tinha visto aquilo antes.
Era a mesma expressão que ele fazia quando alguma coisa estranha acontecia naquela mansão. Seus olhos ficavam distantes, como se ele estivesse tentando compreender algo que ninguém mais conseguia enxergar.
E, dessa vez, a garota parecia ter sentido a mesma coisa.
O que foi isso?
Antes que eu pudesse perguntar, a mãe dela interrompeu nossa conversa, repreendendo a filha por falar durante o jantar.
Observei a garota abaixar a cabeça e começar a mexer na comida, ficando quietinha em seu lugar.
Meu sorriso desapareceu aos poucos.
Eu não gostava de vê-la daquele jeito. Desde que ela havia chegado à mansão, parecia estar tentando se acostumar a tudo ao mesmo tempo: à casa, a nós dois e àquela sensação estranha que, embora ninguém comentasse abertamente, parecia acompanhar cada canto daquele lugar.
Talvez nós três estivéssemos ligados a algo que ainda não conseguíamos compreender.