Uma história inspirada na espiritualidade da Índia
Prólogo — A Lua sem Luz
No coração da antiga Índia, quando os reinos ainda eram governados por marajás e os rios eram considerados veias sagradas da Terra, existia uma pequena aldeia chamada Shivapura.
Ali nasceu Amara.
Sua mãe morreu ao lhe dar a vida.
Seu pai, um humilde oleiro, partiu poucos anos depois, consumido pela doença e pela fome.
Desde então, Amara aprendeu que o mundo podia ser cruel.
Dormia sobre esteiras gastas.
Comia apenas quando encontrava trabalho.
Vestia roupas remendadas tantas vezes que já não se sabia qual havia sido a cor original do tecido.
Mesmo assim, possuía uma alegria que ninguém conseguia explicar.
Todos os dias, antes do nascer do sol, caminhava até um pequeno altar dedicado à Grande Mãe Kali.
Levava flores colhidas pelo caminho.
Acendia uma pequena lamparina de óleo.
Cantava hinos antigos que aprendera ouvindo sacerdotisas à distância.
Enquanto rezava, sentia uma presença invisível que aquecia seu coração.
Desde criança dizia:
— Não quero riquezas.
Não quero marido.
Não quero palácios.
Quero servir à Mãe Negra.
Quero aprender seus mistérios.
Quero ser sacerdotisa.
As pessoas riam.
Os homens zombavam.
As mulheres balançavam a cabeça.
— Uma mendiga nunca pisaria naquele templo.
Mas Amara jamais desistia.
Mal sabia ela que os deuses, às vezes, escolhem os caminhos mais difíceis para revelar sua luz ao mundo.
Capítulo I — As Portas Fechadas
Quando completou dezenove anos, Amara reuniu toda a coragem que possuía.
Lavou seu velho sari no rio.
Prendeu os cabelos com jasmins.
Colheu flores de hibisco vermelho, as favoritas da deusa.
Subiu os cento e oito degraus do Grande Templo de Kali.
Era um lugar magnífico.
Colunas esculpidas em pedra negra.
Incenso perfumando o ar.
Sinos dourados.
Sacerdotisas vestidas de vermelho e ouro.
Ela ajoelhou-se diante da sacerdotisa principal.
— Vim oferecer minha vida ao serviço da Grande Mãe.
A mulher perguntou:
— Quem é tua família?
— Não tenho ninguém.
— Quanto ouro possuis?
— Nenhum.
— Quem pagará tua iniciação?
Amara abaixou a cabeça.
Silêncio.
A resposta veio fria.
— Este templo não pode acolher quem nada possui.
Uma jovem sacerdotisa tomou suas flores.
Atirou-as ao chão.
Outra fechou lentamente as enormes portas diante dela.
O som da madeira ecoou como uma sentença.
Naquele instante, algo dentro de Amara pareceu morrer.