Carregando…

A Filha da Noite Eterna-Capítulo I — As Portas Fechadas

Raiana
Pública 12 conversas 20 pensamentos 29 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Uma história inspirada na espiritualidade da Índia

In groups

Pensamento

Pensamento

vqueiroz90

Aquela pergunta sobre família, ouro, quem paga... já era pra recusar desde o início. As perguntas foram só pra humilhar.

Aquela pergunta sobre família, ouro, quem paga... já era pra recusar desde o início. As perguntas foram só pra humilhar.

Conteúdo da publicação

Uma história inspirada na espiritualidade da Índia

Prólogo — A Lua sem Luz

No coração da antiga Índia, quando os reinos ainda eram governados por marajás e os rios eram considerados veias sagradas da Terra, existia uma pequena aldeia chamada Shivapura.

Ali nasceu Amara.

Sua mãe morreu ao lhe dar a vida.

Seu pai, um humilde oleiro, partiu poucos anos depois, consumido pela doença e pela fome.

Desde então, Amara aprendeu que o mundo podia ser cruel.

Dormia sobre esteiras gastas.

Comia apenas quando encontrava trabalho.

Vestia roupas remendadas tantas vezes que já não se sabia qual havia sido a cor original do tecido.

Mesmo assim, possuía uma alegria que ninguém conseguia explicar.

Todos os dias, antes do nascer do sol, caminhava até um pequeno altar dedicado à Grande Mãe Kali.

Levava flores colhidas pelo caminho.

Acendia uma pequena lamparina de óleo.

Cantava hinos antigos que aprendera ouvindo sacerdotisas à distância.

Enquanto rezava, sentia uma presença invisível que aquecia seu coração.

Desde criança dizia:

— Não quero riquezas.

Não quero marido.

Não quero palácios.

Quero servir à Mãe Negra.

Quero aprender seus mistérios.

Quero ser sacerdotisa.

As pessoas riam.

Os homens zombavam.

As mulheres balançavam a cabeça.

— Uma mendiga nunca pisaria naquele templo.

Mas Amara jamais desistia.

Mal sabia ela que os deuses, às vezes, escolhem os caminhos mais difíceis para revelar sua luz ao mundo.


Capítulo I — As Portas Fechadas

Quando completou dezenove anos, Amara reuniu toda a coragem que possuía.

Lavou seu velho sari no rio.

Prendeu os cabelos com jasmins.

Colheu flores de hibisco vermelho, as favoritas da deusa.

Subiu os cento e oito degraus do Grande Templo de Kali.

Era um lugar magnífico.

Colunas esculpidas em pedra negra.

Incenso perfumando o ar.

Sinos dourados.

Sacerdotisas vestidas de vermelho e ouro.

Ela ajoelhou-se diante da sacerdotisa principal.

— Vim oferecer minha vida ao serviço da Grande Mãe.

A mulher perguntou:

— Quem é tua família?

— Não tenho ninguém.

— Quanto ouro possuis?

— Nenhum.

— Quem pagará tua iniciação?

Amara abaixou a cabeça.

Silêncio.

A resposta veio fria.

— Este templo não pode acolher quem nada possui.

Uma jovem sacerdotisa tomou suas flores.

Atirou-as ao chão.

Outra fechou lentamente as enormes portas diante dela.

O som da madeira ecoou como uma sentença.

Naquele instante, algo dentro de Amara pareceu morrer.


Thoughts

  • Marina

    Depois que as portas fecham e algo dentro dela parece morrer... o que acontece? Ela segue ou esse é o fim?

    Permalink
  • vqueiroz90

    Aquela pergunta sobre família, ouro, quem paga... já era pra recusar desde o início. As perguntas foram só pra humilhar.

    Permalink
  • tresPaginas

    O som da madeira ecoando como uma sentença. Naquele silêncio Amara perde alguma coisa que não volta mais.

    Permalink
  • tmoreira93

    Aquela frieza da sacerdotisa, jogando as flores no chão, fechando a porta... a história fica ainda mais escura depois?

    Permalink
  • sofadasala

    Ela dormindo em esteiras gastas, comendo mal... mas todo dia antes do amanhecer caminhava pro altar. Que força.

    Permalink
  • paginadobrada

    Gostei muito daquela devoção dela diária. Todo dia antes do amanhecer, levando flores pro altar. Ficou comigo.

    Permalink
  • oitoemponto

    Aquele silêncio depois das perguntas da sacerdotisa... e depois a resposta fria. Ficou marcado demais.

    Permalink
  • meioCapitulo

    Amara aos dezenove anos subindo lá com tudo que ela tem pra oferecer... e depois as portas fecham. Ela segue ou desiste?

    Permalink

Related posts