Capítulo um - Lâmpada de teto
De noite sentada na escada, com os dedos sentindo a sua textura ondulada provavelmente para impedir com que escorreguem quando chove. Não está chovendo. Ela tenta não olhar para o grafite na parede. Os óculos estão meio sujos, então a mancha cega o canto da sua visão, sendo ressaltada pela luz da lâmpada de teto que as vezes pisca. No relógio: vinte e uma e trinta e quatro, não íamos embora às vinte? Puxa seu Nokia contemporâneo e liga para mamãe.
“Hola”
“Hola, que paso que no vienes?” Atrás da voz está estourado o som de uma série.
“Yo que sé, el culto quiso entrenar más” Quando vira a cabeça para olhar em direção a seus amigos, sem querer olha de relance para o marcado na parede, seus olhos tremem e o evitam. A voz de sua mãe, puxa seu olhar de volta para o celular.
“Bueno, pongase entonces a estudiar”
“…”
“…”
"..."
“Pongase pues a escribir”
“Bueno, tchau mama, te amo”
“Tchau, te amo”
Verdade. Como decidiu não entrenar com os outros, a desculpa dita foi que nesse tempo ela iria escrever. Então ela guarda o celular no bolso da calça, puxa o diário enfiado na cueca (de um jeito higiênico) e a caneta no bolso da jaqueta também. Ficou frio cedo. A tampa da caneta voa como a bola de softball no meio do campo. A ponta cheia de tinta é posta circuncisflecticamente alinhada à borda do papel, de um modo que justifica o papel ganhar da pedra. Aí ela desenha um círculo, circula o círc, circula o círcu, circula o círcul (quase), circula o círculo. E aí repete.
Se fosse você ali, seria igual. Não importaria se você virasse uma, duas ou três páginas, o círculo estaria lá marcado. Então seu rosto se surpreenderia enquanto sua mão (que larga o diário) se move automaticamente em direção ao celular, abre o Instagram, abre o meme que postou no status. Curtidas: 34. Comentários: “Tuff” “Hahahaha, essa foi boa” “Dá like quem prefere Jesus”. Seu dedão apagaria o celular e o poria no chão, mas quase instantaneamente voltaria a agarrá-lo e abrir o whatsapp sem motivo nenhum, ninguém mandou nada. Mas para sentir que não foi em vão, você abriria a galeria e buscaria qualquer coisa para enviar. Ela, não você, acabou enviando uma figurinha de dois tijolos em baixa resolução, embaixo tem um texto escrito: twojolo. Abre o Instagram de novo. No relógio: vinte e duas e doze.
De repente como o movimento do vento a bola voa na mão dela e faz um machucado de terceiro grau em seu celular que é levado em direção a uma parede na qual se choca e cai no chão quase deixando uma cratera semelhante à formada na segunda guerra mundial quando um idiota aleatório atirou com um tanque para baixo, nesse caso o tanque é a bola e o que sobrou pelo chão é o celular. O causante da violência vem correndo sem demonstrar preocupação além de risos.
“Caraca cara, ainda bem que é um Nokia”
A marca deixada na parede, censura o grafitado. Como um milagre.
A lâmpada de teto pisca mais uma vez e o Nokia explode.