Capítulo um - Não depende de mim
“Só entra logo!”
“Tá suja!”
“Então não entra, caramba! Mas sai daí, já tá chato te ver em pé a toa no sol”.
Há uma pausa na conversa, ela deve estar sendo cansativa para ambos os lados. O que está em pé na beira da piscina sente como os ligamentos de seu joelho empurram a patela e a tíbia para o chão, lentamente, como se nele estivesse algo que seria bom recuperar. Já quem está dentro da piscina silenciosamente se preocupa com se ela está realmente suja, essa dúvida é suficiente para que sintam restos de sujeira se colando em sua pele e amontoando em sua língua, mesmo assim, um fala.
“Olha, se você dissesse algo como ‘não quero nadar’, eu diria que tudo bem, mas você insiste em que a piscina tá imunda!”
“É que... Eu tenho aversão a esses insetos que nadam”
“Insetos que nadam?”
“Aquáticos” – Diz Veia, que até então apenas observava.
“Isso, esses bichos aquáticos me dão nojo”.
“Que bichos, cara, do que você tá falando?”
A discussão continua e é só quando ela se torna insuportável que Veia ergue sua voz e exclama com raiva o que queria.
“Gilvaz, a gente já poderia ter começado, mas a gente sabe que você adora desformação aquática, então só entra aqui logo. A gente é seu amigo”. Silencio.
“Tá. Eu vou lá me arrumar” – Diz e entra na casa.
O sol bate em metade da piscina, a dividindo em dois lados que não puderam escolher entre a sombra ou o calor. A expressão cansada que Veia porta é clara e visível demais para que ninguém se preocupe e queira saber o que aconteceu, ou se preocupe mais ainda, sabendo o que houve.
“Veia” Ela não responde “Veia!”
“Ahn? O que foi?”
“Como você tá?”
“Bem, por que?”
“...”
“Ok, eu... tô bem, melhor. Eu já entendi que foi uma escolha deles, é o que todo mundo diz, né? É só que eu queria conseguir acreditar que aquilo simplesmente levou eles” – Enquanto fala, Veia não deixou de olhar para baixo, para o fundo da piscina, onde tem certeza que vê insetos se movendo.
Capítulo dois -
Dentro da casa, Gilvaz esquiva a mobília excessiva. Sendo parte de uma bela casa em Io, as paredes são cobertas de partituras musicais, taças de vinho e rendas sofisticadas. O teto alterna entre ser de vidro ou não ser, com umas partes menores (as de vidro) transparecendo a luz do dia. O problema é que existem cômodos demais. Porta após porta após porta, Gilvaz vai se perdendo ou aproximando mais. Ele só para de procurar quando, ao abrir a porta menos luxuosa, do quartinho da empregada, seus olhos ficam vidrados em um único quadro, ressaltado pela parede vazia do lugar.
Dentro da moldura está ilustrado um ser bem mais vermelho que um bebê quando é arrancado, banhado em sal rosa e jogado aos lobos. Ele (o ser) paira por um céu tingido de sua cor, com seu “corpo” gigantesco tão inevitável que ao invés de o acharem errado ou bizarro, os humanos questionam se não são eles os deformados. É como um mar. Todos que já o temeram acabaram destinados a não ver escolha além de acolhê-lo como seu paraíso. É lindo demais. Gilvaz não quer pensar nisso, aquilo está errado. Então finalmente abre a porta que estava evitando e entra no banheiro.