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Rock City - parte 8

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A banda, naquele momento, praticamente não se conhecia. Além de Pearl e Gojo, os outros músicos nunca haviam tocado juntos daquela maneira. Era uma formação improvisada, reunida às pressas, sem…

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Oliviamar

Fui direta à última frase e julguei a Pearl sozinha. Afinal a Jess estava lá em baixo, a chorar e a filmar.

Fui direta à última frase e julguei a Pearl sozinha. Afinal a Jess estava lá em baixo, a chorar e a filmar.

Conteúdo da publicação

A banda, naquele momento, praticamente não se conhecia. Além de Pearl e Gojo, os outros músicos nunca haviam tocado juntos daquela maneira. Era uma formação improvisada, reunida às pressas, sem tempo para ensaios ou qualquer planejamento.

Algumas pessoas na plateia já filmavam com os celulares.

Pearl, porém, não parecia se importar com as câmeras. Impunha sua presença. Cantava, tocava e conduzia a música com uma segurança que surpreendia até mesmo quem estava no palco.

Durante a performance, ela e Gojo trocavam olhares.

Não eram apenas olhares de cumplicidade. Parecia que os dois combinavam as batidas sem precisar conversar. Um movimento de cabeça, um sorriso, uma mudança no ritmo. Gojo entendia Pearl. Pearl entendia Gojo.

E, quando Pearl sorria enquanto cantava, deixava aparecer o pequeno dentinho torto.

Gojo gostava daquele detalhe.

Não era algo feio. Pelo contrário, havia um charme espontâneo naquele sorriso. Pearl, às vezes, tentava escondê-lo, mas Gojo achava justamente aquilo uma das coisas mais bonitas nela.

Por um instante, os dois se lembraram do estúdio.

Das semanas em que trocavam olhares sem dizer nada.

Do amigo de Gojo, que sempre reclamava de um ruído durante os ensaios. Pearl insistia que o problema era algum defeito no equipamento, mas Gojo descobrira que o celular dele, esquecido no bolso, estava interferindo no som.

Pearl sabia disso.

E fazia de propósito.

Ela olhava para Gojo com uma expressão debochada, enquanto ele tentava descobrir a origem do ruído. Quando finalmente percebeu, riu tão alto que precisou interromper a música.

Agora, no palco, o mesmo deboche aparecia no rosto dela.

Gojo quase riu de novo.

Lembrou-se também da noite em que foi ao estúdio sem compromisso algum, apenas para tentar dar harmonia e corpo a uma música de Pearl. Ela não havia pedido exatamente aquilo. Ele simplesmente se sentou, ouviu e começou a acompanhar.

E então veio Little Sophie.

Pearl o decifrara através da música. Não com perguntas, nem com conversas profundas. Apenas ouvindo o que ele tocava e respondendo com a própria guitarra.

Os dois gravaram juntos.

A gravação nunca foi mostrada a ninguém.

Era um segredo que permanecia guardado no estúdio.

Pearl e Gojo voltam a se olhar.

Havia algo de luxurioso e soberbo naquela troca de olhares, como se os dois tivessem tomado posse daquele instante. Uma banda improvisada, um palco improvisado, uma música que ninguém havia planejado daquela maneira.

E, ainda assim, tudo fazia sentido.

Pearl acrescenta alguns efeitos à guitarra, usando o instrumento que pertencia ao estúdio do pai. O som ganha novas camadas, uma textura mais áspera e expressiva.

Rafael, na guitarra base, apenas acompanha. Observa Pearl, escuta as mudanças e se adapta.

Lucas, por outro lado, está furioso.

Ele odiava improvisações. Gostava de saber exatamente o que iria acontecer, de ter tudo organizado, ensaiado e sob controle. Mas, no meio daquele caos, havia uma estrutura que ele não conseguia negar.

Tudo estava groovado.

Tudo tinha sentido.

Aquilo era rock n’ roll.

Pearl já estava alta. A bebida que havia tomado antes do show ainda queimava em seu estômago, descendo amarga pela garganta por causa do alto teor alcoólico. Mesmo assim, continuava firme, como se o palco tivesse se tornado uma extensão do próprio corpo.

Ela termina a música com um solo.

Gojo a acompanha de perto, respondendo a cada mudança com a bateria. O bumbo e os pratos seguem a guitarra, como se os dois estivessem disputando e conversando ao mesmo tempo.

Pearl acelera.

Gojo acompanha.

Ela muda o ritmo.

Ele responde.

O solo chega ao fim com uma última nota prolongada.

Por um segundo, há silêncio.

Então a Sarajevo explode em aplausos.

A plateia grita, assobia e levanta os celulares. A banda, que nem sequer tinha nome, acabara de conquistar a atenção de toda a casa.

Lucas se aproxima do microfone para apresentar os músicos.

Mas Pearl se antecipa.

Ela pega o microfone antes dele.

— Boa noite, Sarajevo! Galera... Eu sou Pearl, vocalista improvisada. Desculpa pelo som, mas a gente chegou aqui praticamente agora!

Algumas pessoas riem. Outras gritam.

Pearl olha para o técnico de som.

— Ô, homem da mesa! Abaixa só um pouquinho a minha guitarra... Aumenta o baixo do Lucas!

A plateia reage com gritos e aplausos.

Pearl parece surpresa com a própria recepção. Ela nem havia planejado apresentar a banda.

Olha para Rafael.

— Na guitarra base, Rafael! Excelente, man!

Rafael levanta a mão, sorrindo, enquanto a galera o ovaciona.

Pearl vira-se para Gojo.

— E na bateria... Gojo e suas baquetas flamejantes!

Gojo começa a tocar com força, fazendo uma sequência exagerada de batidas, como se estivesse incendiando a bateria.

Pearl ri.

— Chega, tá bom, seu exibido!

Gojo faz uma batida curta e teatral, como uma resposta de piada.

A plateia ri.

Nesse instante, começa a tocar uma introdução de piano.

As primeiras notas de “Alone”, do Heart, preenchem a Sarajevo.

Pearl olha para Rafael.

Ele inclina a cabeça, indicando que assumirá a guitarra principal.

Pearl entende imediatamente.

Ajusta os pedais e reduz os agudos, mudando para um timbre mais encorpado e limpo, com overdrive leve e chorus discreto, adequado para a base. Rafael fica responsável pela melodia principal, enquanto Pearl sustenta a harmonia.

A atmosfera muda.

A música começa de maneira romântica, quase melancólica. A plateia se aproxima do palco, e vários celulares se levantam para registrar o momento.

Pearl segura o microfone.

Sua voz entra suavemente, preenchendo o espaço.

Jess acompanha tudo do meio da multidão, filmando com o celular.

E começa a chorar.

Não era apenas por causa da música.

Ela conhecia Pearl desde os tempos do colégio, desde os quatorze anos. Conhecia a garota antes de ela abandonar a escola, antes de se esconder cada vez mais no estúdio do pai.

Jess sabia que o trauma sofrido naquele período havia feito Pearl nunca mais querer voltar à escola.

Pearl se enfiara no estúdio e na loja. Sem curso, sem formação técnica, aprendeu a controlar tudo com a ajuda do tio, enquanto o pai permanecia internado, lutando contra o câncer.

Jess lembrava de quando as duas cabulavam aula. Às vezes, ela ia encontrar um garoto mais velho na Galeria do Rock, enquanto Pearl a acompanhava, entediada ou curiosa. Lembrava das bebedeiras com o famoso pingorante — pinga misturada com refrigerante — e das brigas no colégio com outras meninas.

Vieram as advertências.

Vieram as discussões.

E também a época em que Jess ficou doente porque não suportava mais ficar distante da amiga.

Agora, observava Pearl no palco.

Forte.

Segura.

Cantando para uma multidão, justamente na madrugada do aniversário de dezoito anos dela.

Jess limpa o rosto com a mão, mas continua filmando.

Pearl não percebe as lágrimas da amiga.

Está concentrada na música.

Na guitarra.

No palco.

Em Gojo, que a observa atrás da bateria.

E, pela primeira vez em muito tempo, Pearl não parece estar escondida em lugar algum.

Thoughts

  • RenataAlmeida

    A Alone ganha outro peso para mim quando se sabe que não nasceu dos Heart: foi escrita por Billy Steinberg e Tom Kelly, que a gravaram primeiro em 1983 sem ninguém dar por ela, e só em 1987 a Ann Wilson a tornou enorme. Uma canção que esperou anos por quem a cantasse, na noite em que a Pearl deixa de se esconder.

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  • Oliviamar

    Fui direta à última frase e julguei a Pearl sozinha. Afinal a Jess estava lá em baixo, a chorar e a filmar.

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  • NunoParreira

    O telemóvel esquecido no bolso do amigo, a estragar os ensaios lá no estúdio das partes anteriores, e ela a saber o tempo todo e a deixar o Gojo à procura. Tinha-me passado ao lado que o deboche dela vinha daí. Aposto que o amigo do Gojo ainda não sabe, e que isso rebenta quando ouvir falar da gravação escondida.

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  • Ovid

    Uma banda que nem tinha nome conquistando a Sarajevo inteira, logo na madrugada dos dezoito anos dela. Aposto que essa gravação de Little Sophie guardada no estúdio ainda vai aparecer no pior momento possível, alguém sempre acha. Me lembra como as melhores noites quase sempre são as que ninguém planejou!

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  • mariinha

    Vixe, entao era a madrugada dos 18 dela mesmo, e ela passou em cima de um palco. a jess chorando e filmando ia ser eu

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