Depois de escrever sobre o sentido da vida, comecei a perceber que encontrar um sentido não significa estar livre da escuridão.
Tive algumas recaídas na depressão e, em alguns desses momentos, nem eu mesmo consegui seguir aquilo que havia escrito naqueles dias. Palavras que antes pareciam tão claras começaram novamente a parecer distantes.
Mas, com o tempo, comecei a entender as recaídas de outra maneira.
Para mim, a depressão não chega simplesmente destruindo tudo de uma vez. Ela vai diminuindo lentamente a sua visão da vida. Aos poucos, algumas coisas perdem o significado, alguns caminhos deixam de parecer possíveis e aquilo que antes parecia uma saída começa a desaparecer.
Até chegar ao ponto em que você olha ao redor e enxerga apenas escuridão.
E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de uma recaída: não é apenas estar mal novamente. É esquecer, pouco a pouco, que um dia você conseguiu enxergar uma saída.
Eu sei disso porque passei por isso.
Foram cerca de seis meses de luta constante apenas para conseguir enxergar a vida novamente. Durante esse período, precisei reaprender coisas que antes pareciam naturais. Passei horas observando meus próprios pensamentos, tentando entender seus padrões e perceber de onde eles vinham.
Comecei a notar que nem todo pensamento que surgia na minha cabeça realmente representava quem eu era. Alguns eram apenas pensamentos que a depressão havia repetido tantas vezes que começaram a parecer parte da minha própria identidade.
Foi um processo lento. Eu precisei treinar minha mente para questionar aquilo que sentia e, principalmente, para perceber quando minha própria visão da realidade começava a se estreitar novamente.
Depois de todo esse período, finalmente consegui voltar a enxergar algumas coisas que pareciam ter desaparecido. Consegui escrever aqueles textos sobre a vida e, talvez mais importante do que isso, consegui sentir felicidade por estar vivo.
Foi como se, depois de muito tempo olhando para uma parede, eu finalmente tivesse encontrado uma janela.
Mas isso não significou que tudo acabou.
Existem dias em que eu simplesmente esqueço de tudo aquilo que aprendi. Dias em que as palavras perdem o peso, as coisas deixam de fazer sentido e tudo o que eu quero é dormir para sempre.
E esse talvez seja o maior problema de uma recaída.
Ela não precisa apagar tudo o que você construiu. Ela só precisa fazer você esquecer que construiu alguma coisa.
Lentamente, você vai se cegando novamente. Lentamente, vai deixando de enxergar as saídas. E, quando percebe, aquilo que levou meses para construir parece ter desaparecido.
Hoje eu consigo perceber quando estou entrando novamente nesse estado. Quando isso acontece, costumo escrever, ficar sozinho por algum tempo e tentar entender o que está acontecendo dentro de mim.
Não para fingir que está tudo bem, mas para tentar enxergar novamente aquilo que a depressão está fazendo desaparecer.
Por isso, se você estiver passando por uma recaída, não se culpe.
Uma recaída não apaga o caminho que você já percorreu. Ela não transforma todo o seu progresso em fracasso. Você pode voltar a sentir aquilo que pensou ter deixado para trás sem realmente voltar a ser quem era antes.
Talvez o mais importante seja aprender a reconhecer quando a escuridão começa a voltar.
Aprender a escutar aquilo que está acontecendo dentro de você, em vez de simplesmente tentar fugir ou silenciar tudo.
Porque aquilo que ignoramos por tempo demais pode começar a falar cada vez mais alto.
E talvez seja justamente aí que esteja o perigo. Existem vozes dentro de nós que, quando alimentadas pelo tempo e pelo silêncio, começam a parecer nossas próprias vozes. Quanto mais tentamos fingir que elas não existem, mais espaço elas encontram.
É como olhar para um abismo por tempo demais. No começo, você apenas observa a escuridão do outro lado. Mas, se permanecer ali tempo suficiente, pode chegar um momento em que você já não sabe mais se está olhando para o abismo ou se o abismo começou a olhar de volta para você.
E talvez o pior momento seja quando você percebe que ele já não está diante de você.
Ele está dentro.
Por isso, talvez seja necessário escutar essas vozes antes que elas se tornem a sua própria voz. Não para acreditar nelas, nem para obedecê-las, mas para entender de onde vieram e reconhecer quando elas começam a tentar conduzi-lo novamente para o mesmo lugar.
Porque, quando menos percebemos, aquilo que passamos tanto tempo tentando evitar pode começar a se tornar aquilo que acreditamos ser.
E talvez vencer seja justamente conseguir olhar para esse abismo, reconhecer que ele existe, mas lembrar que você ainda está do outro lado.