Sem motivo
Eu queria saber por quê.
Só isso.
Uma razão qualquer
que eu pudesse colocar sobre a mesa
e apontar com o dedo.
Foi isso.
Foi aquilo.
Foi alguém.
Foi alguma coisa que aconteceu
e deixou uma rachadura
por onde tudo isso entrou.
Mas não existe nada.
E esse é o problema.
Eu procuro.
Procuro no meu relacionamento,
mesmo sabendo que está tudo bem.
Procuro na minha família,
nas conversas que não tivemos,
nas palavras que talvez tenham doído
e eu tenha fingido não ouvir.
Procuro no futuro.
Na faculdade.
Nas coisas que ainda preciso conquistar.
Nas coisas que talvez nunca consiga.
Procuro no passado
como quem revira uma casa incendiada
à procura de alguma coisa
que justifique o fogo.
E não encontro.
Nada.
Nenhuma tragédia grande o suficiente.
Nenhum motivo digno
daquilo que sinto.
E isso é quase humilhante.
Porque como explicar
que eu estou afundando
quando não existe ninguém
me empurrando?
Como pedir ajuda
quando nem eu sei
do que preciso ser salvo?
Eu queria poder dizer:
“Estou assim por causa disso.”
Seria mais simples.
Eu poderia odiar alguma coisa.
Poderia culpar alguém.
Poderia chorar por um motivo
e, depois de chorar o suficiente,
sentir que alguma coisa foi embora.
Mas não.
A tristeza simplesmente está aqui.
Sem convite.
Sem explicação.
Sem vergonha.
Ela entra como se a casa fosse dela.
E talvez seja isso
que mais me assuste:
eu não consigo expulsá-la
porque nem sei de onde ela veio.
Então começo a inventar.
Faço pequenas dores crescerem.
Pego uma preocupação
e transformo em sentença.
Uma dúvida vira fracasso.
Um cansaço vira incapacidade.
Um dia ruim vira prova
de que tudo está dando errado.
Qualquer coisa serve.
Porque é melhor ter uma ferida
do que ter um buraco.
A ferida eu consigo tocar.
Consigo dizer:
“É aqui.”
O buraco não.
O buraco não tem onde doer.
Ele simplesmente está.
E talvez seja por isso
que eu encontre algum conforto
na tristeza.
Não nela.
Nunca nela.
Eu não gosto de estar assim.
Não gosto de acordar
já cansado do dia
antes mesmo de o dia começar.
Não gosto de olhar para as coisas
que eu costumava querer
e sentir que alguém apagou
o nome delas dentro de mim.
Não gosto de perder a fome.
Não gosto de perder o sono.
Não gosto de dormir tarde
porque não quero encarar amanhã
e depois acordar destruído
porque não consegui dormir.
Não gosto de deixar minhas coisas para depois.
Não gosto de olhar para os estudos
e sentir uma distância absurda
entre aquilo que eu deveria fazer
e aquilo que consigo fazer.
Não gosto de ficar irritado
com quem não fez nada.
Não gosto de me afastar
sem saber explicar por quê.
Não gosto de responder menos.
De fazer menos.
De querer menos.
De ser menos.
Não gosto de me reconhecer
e, ao mesmo tempo,
não reconhecer quem estou sendo.
Mas a tristeza...
A tristeza pelo menos tem forma.
Quando eu consigo transformá-la
em alguma coisa concreta,
ela para de ser aquele vazio sem nome.
Vira raiva.
Vira lágrimas.
Vira palavras.
Vira uma noite inteira
olhando para o teto.
Vira uma página cheia
de coisas que eu não conseguiria dizer
em voz alta.
E, por alguns minutos,
isso parece quase um alívio.
Porque finalmente existe alguma coisa
para colocar para fora.
Finalmente existe um culpado.
Mesmo que seja inventado.
Mesmo que não seja verdade.
Mesmo que amanhã eu acorde
e perceba que destruí uma coisa boa
só porque precisava de uma explicação
para estar destruído.
Talvez essa seja
uma das coisas mais cruéis
sobre não saber por que se está triste:
você começa a procurar motivos
até encontrar algum
que consiga machucar.
E, quando encontra,
agarra.
Porque é mais fácil.
É muito mais fácil dizer:
“Estou assim porque minha vida está uma merda.”
do que olhar para uma vida
que tem coisas boas
e admitir:
“Eu não sei por que estou assim.”
Isso me dá vergonha.
Porque eu tenho planos.
Tenho coisas que quero viver.
Tenho pessoas que amo.
Tenho lugares onde quero chegar.
Tenho uma vida que, olhando de fora,
parece ter motivos suficientes
para continuar andando.
E mesmo assim,
às vezes eu não quero andar.
Não porque eu queira morrer.
Nem porque eu odeie tudo.
É pior que isso.
Às vezes eu simplesmente
não sinto vontade de nada.
E não existe uma grande tragédia
para justificar isso.
Existe apenas eu.
Parado.
Cansado.
Vazio.
E a culpa vem logo depois.
Porque eu deveria estar fazendo alguma coisa.
Deveria estudar.
Deveria comer.
Deveria dormir.
Deveria treinar.
Deveria responder.
Deveria levantar.
Deveria ser grato.
Deveria estar bem.
E quanto mais eu penso
no que deveria estar fazendo,
menos consigo fazer qualquer coisa.
Então a culpa vira outra camada.
E depois outra.
Até que já não sei mais
se estou triste porque estou cansado,
ou cansado porque estou triste,
ou triste porque estou cansado
de tentar parecer bem.
É um ciclo idiota.
E eu conheço ele.
Conheço bem demais.
Porque às vezes eu saio dele.
E isso é quase pior.
Eu volto a ser eu.
Volto a rir.
Volto a fazer planos.
Volto a sentir aquela vontade absurda
de construir alguma coisa com a minha vida.
Volto a estudar.
Volto a me importar.
Volto a acreditar.
E começo a pensar
que talvez eu tenha exagerado.
Que talvez não fosse tão grave.
Que talvez tenha acabado.
Que talvez eu finalmente tenha deixado
aquilo para trás.
Então eu sigo.
E por algum tempo
parece verdade.
Até que, de repente,
não sei.
Uma tarde.
Uma noite.
Uma manhã.
Uma música.
Um pensamento.
Um silêncio.
Uma coisa pequena demais
para ser chamada de gatilho.
E alguma coisa muda.
Não há aviso.
Não há sirene.
Não há uma mão apertando um botão.
Só muda.
O céu perde a cor.
A chuva começa
sem ninguém perceber de onde veio.
E eu reconheço.
Ah.
De novo.
É isso.
De novo.
A esperança não desaparece de uma vez.
Ela vai ficando distante.
Como uma casa vista do mar.
Ainda está lá.
Só que cada vez menor.
Cada vez mais longe.
E eu fico olhando.
Sabendo que existe.
Sem conseguir alcançá-la.
A energia vai embora primeiro.
Depois a fome.
Depois o sono.
Depois a vontade de falar.
Depois a vontade de explicar.
Depois até a culpa fica cansativa.
E sobra aquele silêncio.
Aquele maldito silêncio.
Eu olho para as coisas
que deveria fazer
e elas parecem pertencer
à vida de outra pessoa.
O caderno está ali.
O trabalho está ali.
Os planos estão ali.
Meu futuro está ali.
Tudo continua existindo.
Só eu pareço ter saído
de dentro da minha própria vida.
E ninguém fez nada.
Esse é o detalhe.
Ninguém precisa ter feito nada.
Minha mãe não precisa ter dito nada.
Minha namorada não precisa ter feito nada.
Minha faculdade não precisa ter dado errado.
Meu futuro não precisa ter acabado.
Nada precisa ter acontecido.
Eu simplesmente estou triste.
E não existe uma frase bonita
que conserte isso.
Não existe uma lição escondida.
Não existe um motivo secreto
esperando para ser descoberto
no fundo de alguma memória.
Talvez não exista significado nenhum.
Talvez seja só a doença
fazendo aquilo que sabe fazer.
Entrando.
Pesando.
Apagando.
E eu odeio admitir
que às vezes existe conforto nisso.
Não porque eu goste de sofrer.
Mas porque, quando aceito que estou doente,
eu finalmente paro de exigir de mim
uma explicação que não tenho.
Eu paro de procurar um culpado.
Paro de destruir coisas boas
para justificar sentimentos ruins.
Por alguns instantes,
eu simplesmente posso dizer:
estou mal.
Só isso.
Sem “porque”.
Sem “mas”.
Sem história.
Sem explicação.
E talvez seja a coisa mais honesta
que consigo dizer.
Estou mal.
Mesmo estando tudo bem.
Estou cansado.
Mesmo sem ter feito nada.
Estou triste.
Mesmo sem ter perdido ninguém.
Estou vazio.
Mesmo tendo tanto.
E isso é o que mais me fere.
Porque quando existe uma perda,
a tristeza tem um lugar para sentar.
Quando existe uma despedida,
a saudade tem um nome.
Quando alguém te machuca,
a raiva sabe para onde olhar.
Mas quando não existe nada,
a dor fica solta.
Sem endereço.
Sem rosto.
Sem culpado.
E talvez seja por isso
que ela pareça tão grande.
Porque não há ninguém
para quem eu possa devolvê-la.
Então ela fica.
Dentro de mim.
E eu fico com ela.
Até o dia em que,
sem perceber,
eu volto a sorrir.
Volto a funcionar.
Volto a acreditar
que dessa vez foi embora.
E talvez eu até acredite
por algum tempo.
Até a próxima chuva.
Até o próximo céu cinza.
Até o próximo dia
em que eu acordar cansado
sem saber por quê.
Até olhar para a minha vida
e não encontrar nada quebrado.
Nada faltando.
Nada errado.
E ainda assim sentir
que alguma coisa em mim
está novamente apodrecendo.
E então eu vou procurar.
De novo.
No amor.
Na família.
No futuro.
Em mim.
Vou procurar alguma coisa
que tenha sido suficiente
para merecer essa tristeza.
Porque ainda não aprendi
a aceitar o absurdo de senti-la
sem uma causa.
Ainda prefiro uma ferida
a um vazio.
Ainda prefiro uma mentira
que explique a dor
à verdade de não haver explicação.
E talvez seja por isso
que, quando a depressão volta,
eu não pergunto mais:
“Por que estou triste?”
Eu já sei que talvez
não exista resposta.
A pergunta que fica
é outra.
Mais amarga.
Mais difícil.
Mais cruel:
“Quanto tempo até eu me acostumar
a chamar isso de casa?”