Dias atrás, cortei caminho para fugir do trânsito e me dei conta de que estava próximo da minha antiga escola, lugar onde comecei minha caminhada escolar. Como um estalo, imagens de amigos, professores e situações das mais diversas me vieram à mente. Mas uma, em questão, me deteve. O lugar mudou pouco e, olhando à direita, quase no fim da rua, uma casa se destacou. Era a casa da "tia do doce". Era assim que a chamávamos. Lembro-me do carrinho de madeira com saquinhos de amendoim e de uma máquina de descascar laranja que enchia meus olhos. Era uma geringonça de engrenagens expostas, com uma manivela e um conjunto de lâminas onde se posicionava a fruta; ao girar a manivela, víamos as lâminas descascarem a laranja como mágica.
As lembranças não são precisas, mas sei que foi no meu segundo ano naquele lugar — eu tinha então oito anos — que certo dia, chegando um pouco atrasado, reconheci a voz da tia do doce saindo de uma casa próxima. Até então, eu não sabia que ela morava ali. Ouvi-a dizer a alguém que se apressasse e, logo em seguida, ela cruzou o portão acompanhada de duas meninas, que depois vim a saber que eram suas netas. Ela as levaria à escola e voltaria para pegar o carrinho e fazer suas mágicas com as laranjas. Uma das meninas era mais nova, mas a maior, que devia ter a minha idade, por alguma razão capturou o meu olhar.
Meninas ainda não capturavam minha atenção naquela época; eram chatas demais, embora a beleza já provocasse alguma reação em mim — mas nada comparado à paixão ou algo do tipo. Os parâmetros de uma criança de oito anos, no final da década de setenta, eram muito mais ingênuos do que os de hoje. Mas, ao ver aquela menina, meu mundo parou. Eu a vi crescer e se tornar mulher, e a visão dela adulta ofusca um pouco a lembrança original, mas o que devo ter visto naquele dia não foi nada além de uma menina alta e magra, em uniforme escolar, algo comum de se ver. Seus longos cabelos negros, a pele clara, os olhos penetrantes e um sorriso tenro impresso no rosto, porém, abriram em mim uma janela até então desconhecida. Meu queixo deve ter caído e, no meu coração, uma sensação inédita e indescritível acontecia.
A tia do doce me percebeu e disse algo sobre eu estar indo apressado para a escola, reforçando para que as netas se apressassem também. Aquela situação fez a menina voltar seu sorriso para mim, confirmando o que se passava comigo naquele instante. Foi então que me apaixonei pela primeira vez. Parei e fingi procurar algo na mochila, esperando que elas passassem na minha frente. Eu era tímido demais para me aproximar e iniciar uma conversa, mas segui acompanhando-a com o olhar e alimentando aquele sentimento nascente.
No ano seguinte, estudamos juntos, mas rumores de que eu gostava dela foram motivo para que me evitasse — ou talvez ela esperasse uma investida que nunca aconteceu. Nos anos seguintes, uma distante amizade nos acompanhou, e outras paixões surgiram, ofuscando aquele sentimento inicial. Mas o momento em que a vi pela primeira vez nunca saiu da minha mente. Lembro-me do primeiro beijo, dos beijos mais significativos e de tantas outras situações ligadas aos relacionamentos, mas de tudo o que vivi, uma das coisas que guardo com maior carinho foi aquele momento no caminho da escola, onde aos oito anos, apaixonei-me pela primeira vez sem ser atraído ou traído por formas exuberantes ou sorrisos dúbios. Foi, certamente, uma das poucas vezes em que sentimentos puros e verdadeiros arderam em meu coração.
Das demais histórias, tudo o que posso apresentar é a visão de alguém que se norteia pelo desejo de algo sério, verdadeiro e duradouro, mas que ainda não conseguiu se desassociar por completo de um mundo volúvel, de múltiplos rostos — como um apreciador de bebidas diversas que as bebe em busca daquela que lhe trará de volta o sentimento primaz. A questão é que, para reencontrar e ter de volta essa essência, é necessário aprender novamente a apreciar o indelével sabor da pura água.
E, diante disso, vem-me à mente aquela afirmação carregada de dúvida de que só se ama uma vez. Como resposta, digo que não. Antes, precisamos nos perguntar se sabemos o que é o amor ou se de fato já amamos de verdade. Pois tudo o que nos sequestra são paixões arrebatadoras que nos levam de mão em mão, em uma sequência de altos e baixos de um sentimento que nunca morre, mas que carece de rumo e maturidade — não para que o vivamos apenas intensamente, mas de maneira nobre e que realmente valha a pena.