Essa regra de nada sair da Sala, só se ganha alguma coisa lá dentro, lembra-me a lógica de muitos ritos de passagem: o dom não se leva, recebe-se ao entrar, e quem entra já não sai igual. Para mim é isso que assusta o Marcelo depois da ligação.
Rastreadores - Capítulo 8 - Comendador
Pensamento
Essa regra de nada sair da Sala, só se ganha alguma coisa lá dentro, lembra-me a lógica de muitos ritos de passagem: o dom não se leva, recebe-se ao entrar, e quem entra já não sai igual. Para mim é isso que assusta o Marcelo depois da ligação.
Conteúdo da publicação
Mai um capítulo para quem a companha RASTREADORES, espero que gostem.
Sair da casa de Suzane não estava sendo tão fácil quanto Danilo imaginara.
A discussão entre ela e Cecil parecia longe de terminar. As duas estavam decididas a defender seus pontos de vista sobre a Sala Desconhecida.
Para Cecil, a ideia de existirem artefatos capazes de conceder habilidades a pessoas comuns era absurda. Para Suzane, porém, aquilo parecia a possibilidade de ver um sonho impossível finalmente se tornar real.
De um lado, Danilo entendia Suzane. Ela sempre quisera ter uma habilidade e, pela primeira vez, existia ao menos a chance de conseguir isso.
E vê-la tentando convencer Cecil com tanto empenho era até admirável. Se fosse Danilo insistindo daquele jeito, provavelmente já estaria paralisado no chão.
Do outro lado estava Cecil, que se recusava a colocar qualquer um deles em perigo por causa de rumores espalhados em um fórum. E, no fundo, ela não estava errada. Tudo o que tinham eram relatos de outras pessoas como eles, sem qualquer confirmação oficial sobre a Sala.
Isso dava a Cecil motivos suficientes para não se deixar levar apenas pela pena de Suzane.
Ele e Marcelo concordavam com Cecil, pelo menos por enquanto. O problema era saber o que Suzane faria caso eles simplesmente a proibissem de se envolver.
Agora ela tinha acesso a um fórum cheio de pessoas com habilidades, rastreadores e informações sobre aquele mundo.
Nada garantia que não tentaria encontrar a Sala por conta própria.
Danilo começava a se arrepender de ter concordado em criar aquela conta para ela ou pelo menos ter acompanhado ela nisso. E, pela forma como Cecil o olhava de vez em quando, provavelmente não era o único pensando nisso.
Enquanto Cecil tentava explicar a Suzane que o Eles também poderiam procurar pela Sala e que ninguém sabia o que aconteceria caso a encontrassem primeiro, Danilo se lembrou de alguém que talvez pudesse esclarecer algumas daquelas dúvidas.
O Comendador.
Era uma das poucas pessoas com habilidades que havia alcançado tamanho prestígio e influência na sociedade. O pouco que se sabia sobre sua capacidade já era suficiente para cercá-lo de rumores: alguns diziam que conseguia manipular insetos, outros afirmavam que seu poder estava ligado a metais. Nunca havia confirmação exata.
Ainda assim, ele possuía algo que nenhum deles tinha em igual medida: conhecimento, influência e muito dinheiro.
Ao longo dos anos, construíra uma empresa poderosa, tornara-se milionário e acumulara uma fortuna difícil de mensurar. Mas dinheiro talvez fosse apenas a parte mais visível do poder que havia conquistado.
Sua influência alcançava grandes empresários e até setores do governo. Seus negócios movimentavam valores expressivos e lhe garantiam uma posição difícil de ignorar.
O Comendador definitivamente não era pouca coisa.
Apesar disso, fazia questão de se mostrar acessível aos seus iguais. Cultivava a imagem de alguém disposto a ajudar pessoas com habilidades, como se quisesse deixar claro que, quando precisassem, poderiam recorrer a ele.
— Cecil.
Ela virou o rosto na direção de Danilo com uma expressão tão irritada que, por um instante, ele teve a impressão de ser o culpado por toda aquela situação.
— Será que conseguimos falar com o Comendador?
Cecil franziu levemente a testa, ainda tentando entender. Por um instante, ficou em silêncio, até que a compreensão pareceu alcançá-la e seus traços relaxaram.
Suzane também sabia quem ele era. Assim que ouviu o nome, seu semblante mudou, e uma esperança discreta surgiu em seu olhar. Naquele meio, afinal, quase todo mundo conhecia o Comendador.
— Podemos pedir ao Mike que tente entrar em contato — respondeu Cecil, agora um pouco mais calma. — Mas isso não significa que ele vai aceitar falar com algum de nós.
— Ele é praticamente inacessível — acrescentou Marcelo.
Suzane olhou para os três.
— Mas vocês podem tentar?
A pergunta saiu quase como uma súplica.
Cecil ainda parecia chateada, mas Danilo sabia o quanto Suzane significava para ela. Desde que a conhecera, Suzane sempre estivera por perto, como parte constante de sua vida.
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos, avaliando a situação.
Depois se aproximou da amiga.
— Tudo bem. Vamos tentar falar com o Comendador.
Suzane sorriu imediatamente.
— Mas...
O sorriso desapareceu.
— Se o Comendador não entrar em contato conosco até o dia em que conseguirmos rastrear essa Sala, a resposta é não.
— Mas, Cecil...
— E se conseguirmos falar com ele e o Comendador disser que essa história sobre os artefatos não passa de um boato, a resposta também é não.
Dessa vez, Suzane não tentou interrompê-la.
Cecil continuou:
— Só se ele confirmar que existe alguma verdade nessa história nós vamos nos reunir e decidir se vale a pena ir até aquele lugar. Isso não significa que você vai. Significa que vamos conversar sobre isso. Entendeu, Suzane?
Danilo nunca tinha visto Suzane ficar tão imóvel.
Toda a animação que demonstrara alguns minutos antes havia desaparecido.
Ela apenas assentiu, forçando um meio sorriso sem graça.
Depois que Cecil encerrou a conversa e o clima pesado se amenizou um pouco, decidiram que já era hora de ir embora. Ainda assim, quando finalmente deixaram a casa, o silêncio entre eles carregava o peso de um velório.
Suzane ainda estava abalada com as condições impostas por Cecil, enquanto Marcelo permanecia mais calado do que de costume.
Assim que entraram no carro, Cecil pediu que Danilo monitorasse a conta de Suzane no fórum. Queria que ele verificasse se ela estava trocando mensagens privadas com alguém.
Danilo não questionou.
Depois de tudo o que acontecera naquela noite, sentia que devia aquilo a Cecil.
Ela permaneceu por alguns instantes olhando para a casa de Suzane. A preocupação em seu rosto era evidente, assim como o quanto aquela situação a afetava.
Marcelo chamou sua atenção com um toque suave no rosto, fazendo-a se virar para ele.
— Vocês acham que eu peguei pesado? — perguntou Cecil
Marcelo negou com a cabeça.
— Não. Você está certa. É uma responsabilidade muito grande levar a Suzane para uma missão sem sabermos sequer o que vamos encontrar.
— Concordo com ele — acrescentou Danilo. — E tenho certeza de que ela também entende. Só está chateada porque, pela primeira vez, apareceu alguma coisa que parece tornar possível o que ela sempre quis.
Cecil permaneceu em silêncio.
— Não fica pensando demais nisso — completou ele.
Marcelo ligou o carro e partiu, levando os três de volta em meio a um silêncio carregado de dúvidas.
No dia seguinte, teve início uma espécie de força-tarefa que Danilo, sem muita cerimônia, batizou de “Sala Desconhecida”..
Cecil, como sempre, detestou o nome. Dizia que os títulos de Danilo eram óbvios demais e não tinham originalidade. Mas ele sabia que, se tentasse colocar alguma personalidade neles, ela também reclamaria. A C3 era prova disso.
Suzane passou a ajudar Cecil nas pesquisas depois do expediente. As duas haviam dado uma trégua e passavam horas entre anotações, fóruns e registros antigos.
Mas, naquele momento, era Marcelo quem começava a preocupar todos.
Ele parecia disposto a encontrar aquela sala de qualquer maneira.
Danilo ainda não entendia em que momento aquilo havia deixado de ser apenas curiosidade para se transformar em obsessão.
Marcelo não explicava. Passava a maior parte do tempo trancado em sua sala, cercado de mapas, anotações e tentativas frustradas de rastreamento. Olheiras fundas começavam a marcar seu rosto, como se já não dormisse direito havia dias. Pulava refeições, se isolava cada vez mais e seu humor parecia mudar a cada nova tentativa.
Às vezes, Danilo pensava que talvez fosse melhor aquela Sala nunca aparecer.
Desde que souberam de sua existência, alguma coisa entre eles havia começado a mudar.
Eles haviam conseguido solicitar uma conversa com o Comendador por intermédio de Mike. Como já esperavam, porém, ele estava sempre ocupado e indisponível.
Toda semana, entravam em contato para tentar uma nova data, mas Mike repetia a mesma resposta: o Comendador estava envolvido em um grande projeto e ainda não poderia falar com eles.
Depois de algum tempo, aquilo começou a parecer menos falta de agenda e mais uma forma deliberada de mantê-los à distância.
Se fosse por qualquer outro assunto, provavelmente já teriam desistido de falar com ele.
Cecil, principalmente, não suportava a ideia de deixá-lo agir como se tivesse alguma vantagem sobre eles.
Mas era por causa de Suzane que continuavam esperando. E, enquanto existisse a possibilidade de conseguirem respostas para ela, nenhum dos três parecia disposto a abandonar aquela tentativa.
Então, sete meses depois de aceitarem o trabalho para rastrear a Sala, finalmente receberam uma data para falar com o Comendador.
Cecil teria preferido uma conversa cara a cara, mas precisaram se contentar com uma ligação.
Naquela noite, os três aguardavam com uma ansiedade difícil de disfarçar.
Marcelo parecia o mais inquieto deles. Talvez só perdesse para Suzane, mas ela não participaria da reunião. Cecil havia sido categórica: sem habilidades, sem participação.
Às vezes, ela conseguia ser bastante opressiva.
Às dezenove horas, a ligação finalmente começou e a resposta que eles estavam procurando há meses soou como uma sirene:
— A Sala Desconhecida realmente existe.
A voz do Comendador era séria, calma e estranhamente hipnótica.
— Na verdade, conheço pelo menos três pessoas que já passaram por ela...
Segundo ele, a existência da Sala jamais deveria ter se tornado pública. Era justamente por isso que havia tão poucas informações disponíveis sobre ela.
O governo teria tratado o assunto como sigiloso, removendo registros oficiais, restringindo documentos e tentando impedir que informações sobre a Sala circulassem livremente. O receio era simples: se sua existência fosse confirmada, o interesse em encontrá-la poderia sair de controle.
Ainda assim, cerca de dois anos antes, começaram a surgir relatos de alguém que afirmava ter estado dentro da Sala quase cinquenta anos atrás. A partir daí, os rumores ganharam força.
Empresários, pessoas influentes, celebridades e outros interessados passaram a procurá-la, todos atraídos pelo mesmo boato: a possibilidade de que a Sala guardasse riquezas e artefatos capazes de conceder habilidades a pessoas comuns.
Para isso, porém, era necessário entrar nela.
Nada poderia simplesmente ser retirado da Sala, como alguns rumores afirmavam.
O absurdo que Cecil tanto esperava que fosse apenas um rumor acabara de se tornar real.
Pela expressão em seu rosto, parecia que ela havia chegado a um beco sem saída.
Quando a ligação terminou, Marcelo e Cecil permaneceram em silêncio, cada um preso às próprias preocupações. Era informação demais para processar de uma só vez.
Marcelo já não parecia tão empolgado quanto antes. Alguma coisa no que o Comendador dissera havia mudado seu comportamento.
Dessa vez, não havia curiosidade em sua expressão.
Havia receio.
Então decidiram fazer uma votação.
Naquele momento, já sabiam mais sobre o que poderia existir dentro da Sala e, principalmente, sobre os riscos envolvidos em tentar chegar até ela. Se tanta gente poderosa estava atrás daquele lugar, então encontrá-lo poderia colocá-los em uma situação muito mais perigosa do que haviam imaginado.
Por isso, precisavam decidir juntos.
Entrariam na Sala Desconhecida para tentar ajudar Suzane ou desistiriam antes de cruzar uma linha da qual talvez não conseguissem voltar.
Danilo improvisou o sistema de votação usando munições que havia desenvolvido para a C3. Cada um recebeu duas pequenas balas de cores diferentes: uma verde e uma vermelha.
A verde representava ir até a Sala.
A vermelha, desistir.
Meia hora depois, Danilo colocou uma pequena urna improvisada sobre a mesa.
Um por vez, enquanto os outros permaneciam de costas, aproximou-se dela e depositou uma única bala.
Quando terminaram, os três se reuniram em volta da mesa.
Cecil pegou a urna.
Retirou a primeira bala.
Verde.
Marcelo soltou o ar devagar, mas sua expressão não revelou se aquilo significava alívio ou preocupação.
Cecil permaneceu impassível.
Ela retirou a segunda.
Vermelha.
Danilo sentiu a tensão crescer no ambiente.
Restava apenas uma.
Cecil colocou a mão dentro da urna novamente e retirou a última bala.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Agora sabiam o que fariam quando a Sala aparecesse.
Cecil permaneceu imóvel, encarando a bala sobre a palma de sua mão.
Marcelo foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Então era para ser assim...
Cecil ergueu os olhos.
— Do que você está falando?
Havia algo diferente na expressão dele.
Um brilho quase animado.
— Ela apareceu.
Danilo franziu a testa.
Marcelo continuou:
— A Sala. Eu sei onde ela está.
Cecil olhou para ele por alguns segundos.
— É como se ela tivesse me achado, isso nunca havia acontecido. — continuou ele surpreso.
Ela então colocou as balas sobre a mesa, virou-se e seguiu para o escritório sem dizer uma única palavra.
Duas verdes e uma vermelha.
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PermalinkO Marcelo deu-me cuidado o capítulo inteiro: as olheiras, as refeições saltadas, a sala trancada com mapas. E no fim diz que a Sala o encontrou a ele. Aposto que isto já o chamava antes do fórum, daí a obsessão. Já tinhas decidido quem votou vermelho quando escreveste a cena da urna?
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