Fui teu espelho em tardes delicadas,
refletia em ti o que faltava ver,
dei-te calor nas horas mais geladas,
sem nunca ao menos me reconhecer.
Em mim, tua imagem era preservada,
inteira, limpa, pronta a florescer,
mas foste tu — em lâmina velada —
quem fez meu vidro, enfim, se desfazer.
Agora sou fragmento e superfície,
não mais abrigo, nem calor antigo,
apenas frio em muda transparência.
Se em mim te buscas, já não há indício:
o que restou de tudo que foi dito
é um reflexo opaco — indiferença.