Ô, o abraço como casa segura o texto inteiro. Quem escreve assim já sabe pra onde quer voltar, o que falta é parar de procurar tempestade quando o céu tá limpo. Isso leva anos até em casamento velho.
Que o medo não nos roube
Pensamento
Ô, o abraço como casa segura o texto inteiro. Quem escreve assim já sabe pra onde quer voltar, o que falta é parar de procurar tempestade quando o céu tá limpo. Isso leva anos até em casamento velho.
Conteúdo da publicação
Como diz a música: “Se perguntar o que é o amor pra mim, não sei responder, não sei explicar (...)”.
Bom, assim como seu compositor, eu não sei responder. Mas sei que o amor é sagrado, que deve ser preservado e cuidado como o nosso bem mais precioso, como algo intocado. Mas, se penso assim, por que, às vezes, firo quando não quero ferir? Por que, às vezes, sou ferida quando tudo o que espero é ser amada?
Eu queria ter essa resposta. Queria que o amor fosse realmente estável, garantido, sem riscos de se perder, sem riscos de machucar. Mas, mesmo quando procuro a maior estabilidade, quando firmo meus pés no chão e tento me convencer de que estou segura, não há nada garantido em tempo algum.
E isso dói. Dói pelo sentimento de posse ou pelo medo de perder um elo que se tornou lar? Minha segurança? Aquele lugar onde posso respirar fundo, chorar, me despir das armaduras, me esconder do mundo que, a todo momento, bate à porta, exigindo de mim mais do que às vezes posso oferecer. Um lugar onde posso simplesmente existir, sem precisar me defender de nada.
Mas, então, por que acabar com algo assim? Tão bonito, tão mágico. Por que estou ajudando a destruir a minha própria morada de paz?
Não consigo entender a disputa que existe dentro de mim, essa guerra silenciosa entre o caos e a paz mais profunda. Não consigo compreender por que, mesmo reconhecendo a beleza do amor, às vezes permito que meus medos me conduzam por caminhos que ferem justamente aquilo que mais desejo preservar. E, nessa travessia, levo o outro comigo. Arrasto-o para a mesma direção e, depois, sinto medo. Medo de perder o que há de mais sagrado para mim nesse ato de amar e ser amada.
Eu só queria pedir perdão e receber, em troca, a possibilidade de recomeçar. Sei que não controlo o outro, nem os seus sentimentos, nem as suas escolhas. Sei que o amor não se sustenta apenas pela vontade. Ainda assim, queria ter mais uma oportunidade. Eu só queria cessar essa guerra que vive em mim.
Queria me permitir viver em paz. Acreditar que mereço essa paz, que não preciso sabotá-la por medo de que um dia ela acabe. Queria vencer esses fantasmas que sussurram, dentro de mim, que o amor vai embora, que a segurança é passageira, que tudo o que é bonito está prestes a se desfazer. E, tomada pela angústia de perder, acabo me antecipando ao fim. Como se, ao tentar evitar a dor de uma despedida que ainda nem aconteceu, eu mesma abrisse as portas para que ela entrasse.
Eu não quero mais ser assim. Não sei se ainda existe aquilo que eu tinha. Não sei se o que foi ferido ainda pode florescer, se o que se partiu ainda pode encontrar um jeito de se reconstruir. Mas eu queria que existisse. Queria que ainda houvesse um lugar para nós, um caminho de volta, uma chance de olhar nos olhos um do outro sem que os nossos medos falassem mais alto do que o amor.
Queria poder dizer o quanto eu o amo. Dizer que, apesar de todas as minhas contradições, de todas as guerras que travo dentro de mim, é no abraço dele que eu quero morar. É ali que quero descansar, baixar a guarda, respirar sem medo. Não porque o mundo deixará de ser incerto, mas porque quero aprender a não transformar a incerteza em ameaça, nem o amor em campo de batalha.
Queria pedir perdão. Queria cessar essa guerra. Queria aprender que amar também é permanecer sem tentar controlar, confiar sem exigir garantias, acolher a paz sem procurar nela os sinais de uma próxima tempestade. Porque, talvez, o meu maior medo nunca tenha sido apenas perder o amor, mas não saber o que fazer quando ele finalmente me encontra e me oferece abrigo.
E, então, eu luto. Luto contra aquilo que desejo, como se precisasse testar a resistência do que me faz bem, como se precisasse provar que a paz é capaz de sobreviver ao caos que carrego em mim. Mas eu não quero mais lutar contra o amor. Quero aprender a ficar, a acreditar, a cuidar. A não confundir a tranquilidade com a ameaça de uma despedida, nem a vulnerabilidade com o perigo de ser destruída.
Quero entender que não preciso antecipar o fim para me preparar para a dor. Que não preciso ferir para me proteger. Que não preciso transformar em inimigo aquilo que, na verdade, só desejo manter perto.
Porque fui eu quem, mesmo sem perceber, dei o primeiro tiro nessa guerra. Uma guerra em que talvez nunca tenha existido inimigo algum à vista, apenas os meus fantasmas. Fantasmas que, na tentativa de me protegerem de uma dor imaginada, me fizeram destruir aquilo que me trazia paz. E agora, tudo o que eu quero é que ainda haja tempo. Tempo para pedir perdão, para reconstruir, para aprender a amar sem medo. Tempo para que o amor, se ainda houver espaço para ele, não precise mais se defender de mim.
Eu só quero voltar para casa. Não para um lugar onde nada dói, nada muda e nada se perde, mas para aquele abraço onde, por um instante, o mundo silencia. Onde o amor não precisa prometer eternidade para ser verdadeiro. Onde eu possa, enfim, parar de lutar contra os meus próprios fantasmas e simplesmente viver.
Eu só quero aprender a cuidar daquilo que tanto amo. E, dessa vez, não deixar que o medo de perder me faça perder.
Thoughts
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PermalinkEsse título, mulher.
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PermalinkA mais ou menos 1 anos atrás se eu lesse o seu texto me identificaria com a maioria dos parágrafos, amar muito alguém, porém perceber que você estragou tudo.
Pelo menos na época, era o sentimento de culpa que eu carregava, hoje vejo com outros olhos.
Lindas palavras, obrigada por compartilhar o seu sentimento S2
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PermalinkPelo jeito que tu escreve, isso saiu na espera, antes de qualquer resposta dele, numa noite sem conversa marcada ainda.
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PermalinkÔ, o abraço como casa segura o texto inteiro. Quem escreve assim já sabe pra onde quer voltar, o que falta é parar de procurar tempestade quando o céu tá limpo. Isso leva anos até em casamento velho.
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