escrita perfeita, parabéns!
~ Que ilha você levaria para uma pessoa deserta? Pergunta Sem resposta
Tenho uma pergunta que talvez pareça inútil, mas desconfio profundamente das perguntas inúteis. Algumas são apenas perguntas importantes usando roupas de passeio.
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escrita perfeita, parabéns!
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Tenho uma pergunta que talvez pareça inútil, mas desconfio profundamente das perguntas inúteis. Algumas são apenas perguntas importantes usando roupas de passeio.
Que ilha você levaria para uma pessoa deserta?
Não, não é um erro de digitação.
Eu poderia ter perguntado: “Que ilha você levaria para uma pessoa deserta?” e depois explicar que me refiro a alguém que se encontra sozinho, isolado, afastado do mundo. Mas prefiro a pequena confusão. Ela me parece mais honesta.
Porque uma pessoa deserta é diferente de uma pessoa deserta.
A primeira pode estar cercada de gente e ainda assim parecer uma praia depois da maré: bonita, extensa e sem ninguém por perto.
A segunda talvez seja apenas uma pessoa que ainda não encontrou onde desembarcar.
E aqui começa o problema.
Se você pudesse escolher uma ilha para entregar a alguém que viveu tempo demais em terra firme sem sentir que pertencia a lugar algum, o que levaria?
Uma ilha bonita?
Uma ilha grande?
Uma ilha com água doce, coqueiros e um pôr do sol que justificasse fotografias?
Ou levaria uma ilha que tivesse uma casa, duas cadeiras e alguém disposto a ficar?
Eu, particularmente, desconfio das ilhas muito perfeitas.
Elas parecem excelentes para férias e péssimas para conversas.
Talvez eu levasse uma ilha pequena. Dessas que cabem numa tarde, numa xícara de café, numa varanda depois da chuva. Uma ilha sem grandes atrações turísticas, mas com um lugar onde se possa sentar sem precisar preencher o silêncio.
Porque existe uma diferença enorme entre estar sozinho e estar sem ninguém.
A solidão, às vezes, é uma escolha.
O abandono, não.
E há pessoas que passam anos aprendendo a chamar de independência aquilo que, no fundo, foi apenas a maneira mais elegante que encontraram de sobreviver à falta de companhia.
A filosofia já desconfiava disso muito antes de nós. Aristóteles dizia que o ser humano é um animal político — isto é, feito para viver entre outros. Talvez por isso o exílio seja uma das punições mais antigas da humanidade: retirar alguém do convívio é uma maneira particularmente eficiente de lembrar que ninguém se constrói completamente sozinho.
Mas há uma ironia nisso.
Passamos a vida inteira tentando nos tornar ilhas.
“Eu me basto.”
“Não preciso de ninguém.”
“Aprendi a resolver tudo sozinha.”
Bonito.
Admirável.
E um pouco triste também.
Porque uma ilha pode ser autossuficiente e ainda assim continuar sendo uma ilha.
Talvez a maturidade não esteja em precisar cada vez menos das pessoas, mas em aprender de quem vale a pena precisar.
Há uma espécie de arrogância moderna em transformar vulnerabilidade em defeito. Como se precisar de colo fosse uma falha de projeto. Como se pedir ajuda diminuísse o tamanho de alguém. Como se amar fosse entregar ao outro o manual completo de onde apertar para nos desmontar.
Não é.
Talvez amar seja justamente aceitar que somos todos territórios parcialmente inexplorados.
Há lugares em nós que nem nós conhecemos.
Há praias que só aparecem em determinadas marés.
Há tempestades que ninguém vê da costa.
E há pessoas que chegam como quem chega a uma ilha desconhecida: sem mapa, sem garantia e sem saber se deve desembarcar.
É curioso como escolhemos aquilo que oferecemos aos outros.
Quando alguém está triste, damos conselhos.
Quando alguém está perdido, damos direções.
Quando alguém está com medo, dizemos “vai passar”.
Quando alguém chora, procuramos um lenço.
Quase nunca perguntamos:
“Você quer que eu fique?”
Talvez porque ficar seja mais difícil do que resolver.
Resolver exige competência.
Ficar exige presença.
E presença não tem botão de desligar.
Machado de Assis provavelmente faria uma observação muito mais elegante a esta altura, acompanhada de alguma ironia sobre a vaidade humana e a nossa irresistível tendência de oferecer ao próximo exatamente aquilo que gostaríamos de receber. Eu, não tendo o talento do Bruxo do Cosme Velho, fico apenas com a suspeita.
Talvez sejamos péssimos em oferecer abrigo porque ainda estamos procurando o nosso.
Talvez seja por isso que algumas pessoas ofereçam dinheiro quando o outro precisava de tempo.
Outras ofereçam palavras quando o outro precisava de silêncio.
Outras ofereçam liberdade quando o outro precisava de segurança.
E há quem ofereça distância chamando-a de respeito.
Não é maldade, necessariamente.
Às vezes é ignorância.
Às vezes é medo.
Às vezes é apenas a nossa incapacidade de reconhecer no outro uma fome que nunca tivemos.
E essa talvez seja uma das tarefas mais bonitas de estar vivo: aprender a perguntar antes de oferecer.
“Do que você precisa?”
Não o que eu acho que você precisa.
Não o que seria melhor para você segundo a minha experiência.
Não aquilo que eu sei dar.
Mas aquilo de que você realmente precisa.
Porque talvez a pessoa deserta não queira uma ilha.
Talvez queira um barco.
Talvez queira alguém que lhe ensine a nadar.
Talvez queira apenas um lugar onde possa tirar os sapatos e admitir, finalmente:
“Estou cansada.”
E talvez, em certos dias, ela não queira nada disso.
Talvez queira ficar sozinha.
Também é preciso saber respeitar o deserto do outro.
Nem todo silêncio pede resgate.
Nem toda distância é abandono.
Nem toda ilha precisa de ponte.
Existem solidões que são jardins.
Outras são prisões.
A diferença, quase sempre, está em saber se podemos sair quando quisermos.
Por isso, se algum dia me perguntarem novamente que ilha eu levaria para uma pessoa deserta, talvez eu responda que nenhuma.
Eu levaria água.
Uma cadeira.
Um pouco de comida.
Um livro.
E, se ela permitisse, ficaria ali por algum tempo.
Sem transformar sua dor em projeto.
Sem tentar ser indispensável.
Sem fazer discursos sobre como tudo ficará bem.
Apenas ficando.
Porque descobri que existe uma forma muito particular de amor em não tentar arrancar alguém do lugar onde está antes que ela esteja pronta para partir.
Às vezes, o que salva não é alguém que nos tira do deserto.
É alguém que se senta conosco na areia até que tenhamos força para procurar o caminho.
E talvez seja isso que todas as grandes histórias de encontro tentam nos dizer, cada uma à sua maneira: ninguém precisa deixar de ser ilha para ser amado.
Mas é bom encontrar alguém diante de quem a ponte possa existir.
Uma ponte que não nos aprisione.
Uma ponte que não cobre pedágio.
Uma ponte que não diga “agora você é minha”.
Apenas:
“Quando quiser atravessar, eu estou aqui.”
E talvez seja esse o verdadeiro luxo da vida.
Não encontrar alguém que tenha a ilha perfeita.
Mas alguém que, ao perceber que você está deserta, não pergunte primeiro o que fazer com você.
Pergunte onde dói.
E sente ao lado.
Porque, no fim, talvez a pergunta nunca tenha sido sobre qual ilha levaríamos.
Era sobre o que somos capazes de oferecer quando encontramos alguém que está longe de si mesmo.
E essa resposta diz muito mais sobre nós do que sobre o náufrago.
Quanto a mim, se um dia você me encontrar no meio do meu próprio deserto, não precisa construir nada.
Não traga flores demais.
Nem promessas.
Nem mapas.
Traga uma cadeira.
Sente comigo.
E, se eu perguntar para onde vamos, talvez você possa sorrir e dizer:
“Primeiro, vamos descobrir onde estamos.”
O resto a gente aprende com a maré.
Respostas
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Permalinkescrita perfeita, parabéns!
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