Moro num quarto sem janelas.
A noite entrou há muitos anos
e esqueceu de partir.
As paredes têm o cheiro
das flores deixadas sobre túmulos,
e o silêncio cresce nos cantos
como mofo sobre retratos antigos.
Às vezes escuto passos.
Não sei se são fantasmas
ou lembranças voltando para casa.
A lua observa pela fechadura,
pálida como uma carta nunca enviada.
Seu brilho toca meu rosto
e me faz parecer uma assombração de mim mesma.
Então converso com as sombras.
Elas sabem meu nome,
sabem dos jardins que morreram dentro de mim,
sabem que continuo acendendo velas
para coisas que já não existem.
Quando o amanhecer finalmente chega,
ele encontra apenas poeira,
um coração acordado
e uma menina vestida de escuridão,
esperando a noite voltar
como quem espera
o único amor que nunca foi embora.