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Prostituta acidental.

Antonio_Goncalves
Pensamento

Pensamento

hinshiki

Gostei da história, conseguiu abordar bem um tema muito delicado e faz o leitor refletir um pouco depois da leitura

Gostei da história, conseguiu abordar bem um tema muito delicado e faz o leitor refletir um pouco depois da leitura

Conteúdo da publicação

Chovia muito aquela noite. Seguia eu de volta ao hotel, depois de um dia inteiro tentando entender aquele projeto. Detesto terminar trabalhos incompletos de outra pessoa, mas achavam que eu era bom nisso. Era tarde. As ruas estavam vazias. O semáforo fechou. Pensei em passar no vermelho, mas, receoso por conta da chuva, resolvi esperar.

Olhei ao lado e vi aquela bela silhueta, protegida embaixo de uma marquise. Era Riely. A reconheci de imediato. Havia saído com ela na visita anterior que fiz a cidade. Ela percebeu que era observada e gesticulou, sinalizando se eu queria que ela entrasse. Sinalizei que não. Ela insistiu. Reforcei que não. Ela pareceu entender.

O semáforo abriu. Tentei sair com o carro, mas a imaginando ali, sozinha e escondida da chuva, resolvi aceitar o programa. Dei um toque na buzina. Ao ouvir, ela colocou a bolsa sobre a cabeça e correu até o veículo. Entrou e logo me reconheceu:

- Valney. De novo na cidade? Que bom revê-lo. Pelo visto, gostou da região.

- Pois é. Tem algumas coisas interessantes por essas bandas. Mas o que você faz a essas horas e debaixo dessa chuva?

- Eu. Esperando você, é claro. Mas, falando sério, sabe como é: A gente tem que ganhar a vida.

Ela comentou sobre um hotelzinho ali perto, mas apresentei outra opção:

- Bom, vendo sua loucura em buscar clientes debaixo dessa chuva, pensei em outra sandice, irmos pro hotel onde estou hospedado. Fica ali na rua principal. Conhece?

- Claro. Todo mundo que vem de fora se hospeda lá. Mas você não tem medo? Prostitutas são seres marginais.

- Não. Por algum motivo, confio em você.

- Mas e com você, preciso me preocupar? Afinal, sou uma mulher indefesa.

- Fica tranquila. Você vai sair viva dessa experiência. No mais, você pode dormir lá, a gente toma café na primeira hora e te deixo em casa quando eu sair.

- Olha, não me lembro de receber uma proposta assim. Acho que vou aceitar.

Riely não era uma prostituta comum. Numa cidade grande, poderia fazer serviço de acompanhante por conta de sua aparência e classe, além de suas artimanhas na cama. Transamos sem pressa aquela noite. Depois fizemos um lanche e ficamos conversando.

Ela tinha um papo legal e comentei sobre achar estranho ela ser tão esclarecida, de boa conversa, bons modos, boa aparência e se sujeitar a ser uma prostituta e justo numa cidade pequena, ao que ela respondeu:

- As coisas simplesmente acontecem e nos direcionam a isso ou àquilo. E eu tive o azar de nascer na cidade errada e na família mais errada ainda. A vida me direcionou pra isso.

- Bom, eu sempre quis entender o que leva uma mulher à prostituição, e uma mulher como você me deixa mais intrigado.

- Olha, Valney, é uma longa, triste e entediante história. Você quer mesmo que eu te conte?

- Temos até de manhã. Então, a não ser que você não queira falar, eu gostaria de ouvir.

- Tá bom. Então puxe uma cadeira e prepare os ouvidos.

E ela começou seu relato:

- Acho que tudo começou com a primeira vez que fiz sexo oral. O filho da vizinha fazia uma instalação no quintal de casa e, sabendo que eu estava sozinha e do descaso de minha mãe comigo, ficou fazendo insinuações e investidas, buscando que eu fizesse sexo com ele. Eu tinha 15 anos.

Hoje, imagino que por eu não sair correndo e gritando e ter permanecido na casa o fez acreditar que eu quisesse e só me fazia de difícil. Na verdade, eu não tinha pra onde correr nem pra quem gritar. E mesmo que gritasse, minha mãe, ao saber do fato, me bateria primeiro pra depois perguntar o que aconteceu, e mesmo eu explicando, ela tentaria me encaixar ao menos como tendo parte da culpa.

Éramos só eu e ela e a sombra de um pai desconhecido, tanto na certidão quanto nas histórias, pois eu nunca a escutei falando nada sobre ele. Era como se nunca tivesse existido. Mas, voltando ao episódio com o filho da vizinha, cansado da minha relutância, disse que se eu apenas o chupasse, ele me deixaria em paz, então aceitei.

Sexo oral não é ruim numa situação normal, mas pra uma adolescente, fazendo isso pela primeira vez e para se ver livre de um assédio excessivo, não é nada legal, principalmente quando você tem em mente que tá pondo uma fábrica de urina na boca. Não foi nenhum pouco agradável e ficou pior quando ele gozou na minha garganta e minha reação automática foi vomitar.

Foi uma iniciação bem traumática. E isso aconteceu outras vezes, essas sob ameaça, onde ele dizia que se eu não fizesse, contaria pra todo mundo que eu era uma boqueteira. Mas, mesmo eu cedendo, ele acabou contando e logo eu era novamente assediada, agora por outros rapazes, que vinham atrás de um boquete.

Por alguma razão, eu não sabia me defender, talvez por nunca ter me sentido protegida dentro de minha própria casa. Alguém aparecia pedindo pra eu o chupar e, como uma reação automática, eu aceitava, imaginando que isso o faria ir embora sem tentar algo a mais. Eu tinha medo de ser tocada e lembraria do real motivo disso bem mais tarde, mas naquela época eu não imaginava o porquê e, diante daquelas procuras constantes, passei a ter como razoável fazer sexo oral em troca de não ser violada.

Quando tive a atitude de recusar, me ofereceram dinheiro. Passei então a ser paga e se tornou de praxe me procurarem pra "comprar" um boquete. A casa isolada no fim da rua criava um ambiente ideal para o que acontecia ali. O interessante é que eu continuava virgem, e não por pudor ou senso moral, mas apenas por conta do medo. Isso me privou de conhecer garotos de uma forma normal e ter um namorado com quem eu descobrisse o sexo; e a pesar da minha recusa em fazer, eu fiquei estigmatizada como a pagadora de boquete antes mesmo que algum garoto se interessasse em me namorar.

Eu devia ser a única puta virgem em atividade, se reservando apenas a fazer sexo oral por dinheiro. De uma forma não programada ou sem uma necessidade real, aquilo se tornou minha fonte de renda informal. Enquanto algumas meninas da minha idade ganhavam dinheiro fazendo unhas, eu ganhava fazendo boquete.

Minha mãe certamente sabia, mas fazia vista grossa e não se importava, até porque eu já conseguia ajudar um pouco nas despesas de casa. E o trabalho evoluía. Lembro da primeira vez que chupei dois caras ao mesmo tempo. Eu relutei, mas insistiram e pagaram até um pouco a mais. Eu não entendia a razão de dois caras ficarem vendo uma puta os chupando. Mas enfim, fiz o serviço e depois os assisti, com os pintos quase colados um no outro, gozando em minha cara.

Em outra ocasião, trouxeram um terceiro rapaz, o que me incomodou, mas quem chupa dois, chupa três. Enquanto os dois rapazes seguiram firmes recebendo boquete, o outro ficava me olhando e me tocando. Ele quis tirar minha roupa, mas eu reforcei que não fazia aquilo. Ele insistiu, segurando forte em minha blusa, ao que eu me lancei bruscamente para trás, estourando todos os botões.

- Uma puta que não dá a buceta? Conta outra. Só falta você dizer que é virgem.

- Sou, e eu só faço boquete.

- Você tá falando sério? Você é virgem? Uma puta virgem? Tá de sacanagem. E quanto é pra arrancar esse seu cabaço?

- Não é nada.

- Nada? É de graça então?

- Não tá à venda. Eu não faço isso.

- Você tá na profissão errada então, pois não existe puta que só faz boquete. Ou você é dessas crentes que só faz anal pra casar virgem?

- Não, eu não dou nada, só faço boquete.

- Ah gente, pra mim já deu. Perdi o tesão.

- Pera aí, o serviço tá pago.

- E vocês querem mais o quê? A mina tá acuada e quase chorando.

- Não, eu termino, mas só boquete.

- Vcs são dois babacas. Termina aí então com essa vadia. Eu tô indo embora.

Continuei chupando os dois. Me vendo com a blusa aberta, gozaram em meus peitos semi-expostos. Perguntei se iam querer de volta o dinheiro do amigo, mas disseram que não, pra eu ficar com tudo. Encostada na parede, com a roupa rasgada e o corpo melado, me senti de fato uma puta, alguém sem valor nenhum. Aquilo me fez parar, mesmo com os rapazes me procurando. Após um tempo, minha mãe já havia se acostumado comigo ajudando em casa e me cobrava por não participar mais.

- Você vai ter que dar um jeito. Não vou sustentar vadia em casa sem fazer nada.

- Mas eu sempre ajudei, mãe. Eu limpo a casa, ajudo a fazer comida, ir ao mercado.

- Você acha que isso paga sua estadia aqui? Não paga, e eu já fiz demais por você.

- Mas você tem obrigação comigo. Eu sou sua filha e sou menor de idade.

- Obrigação? E eu lá tenho obrigação de cuidar de puta? Cadê seus machos?

- Eu não tenho machos. E eu parei.

- Parou? Não existe isso. Com essa fama que você já tem, acha que vai conseguir o quê nessa cidade?

- Mas eu não sou puta. Eu só fazia sexo oral.

- Uma puta que só faz sexo oral? Riely, não existe isso. De onde você tirou essa ideia? Você quer me convencer que ganhava dinheiro só fazendo boquete? Quem eram seus clientes, um monte de retardado? Cara nenhum ia ficar sem comer uma novinha gostosinha feito você.

- Olha como você tá falando comigo, mãe. Por que tá fazendo isso?

- Por quê? É assim que a gente fala com puta. E agora se vira. Ou volta à ativa e começa a dar essa buceta ou vai arrumar um emprego, se é que alguém vai dar uma chance pra uma vadia.

A conversa com minha mãe fez eu me sentir mais baixa ainda. E como dito por ela, rodei toda a cidade, buscando todo tipo de serviço e não consegui nada, apenas alguns convites pra tirarem minha virgindade. Agora eu era a puta virgem. Eu tava famosa, tanto que no meio dessa busca por um emprego, fui abordada pela cafetina local, que me propôs ir pra um bordel numa cidade próxima, onde minha virgindade podia valer muito mais do que os míseros trocados que eu ganharia a perdendo na rua.

- Oi Riely, você sabe quem sou?

- Acho que sim.

- Sei que sabe. Todo mundo sabe. Eu pensei em te procurar há mais tempo, mas soube que você parou.

- Mas o que você queria comigo?

- Como o que? Te contratar, pois puta aqui só sobrevive sob minha proteção.

- Mas eu não sou puta. Quer dizer, nunca foi essa a intenção. Eu só queria evitar ser estuprada. Todos queriam me comer, aí eu os satisfazia com boquete e eles me deixavam em paz. Eu não programei nada disso.

- Imagino. E se fosse programado, não daria tão certo. A puta virgem. A cidade tá afoita, motivada por essa ideia, sabia? E agora eu e você temos um trunfo na manga, que pode nos render um bom bocado.

- Mas e se eu não quiser?

- Não tem querer, Riely. Sem proteção na rua e com essa fama, uma hora você vai se dar mal. Estuprar uma puta que não quer liberar a merreca não é nada difícil pra muito doido por aí, e quem vai aceitar a denúncia de uma vadia, num fim de mundo desse? Capaz até de você acabar morta. Você não tem outra opção além de aceitar minha proteção e me ajudar a ganhar uma grana boa vendendo esse seu cabacinho. Você já tá famosa, pois o boato da puta virgem já rompeu nossas pequenas fronteiras. O que você me diz?

- Posso pensar?

- Pensar? E precisa? As opções são aceitar ou ir embora. Imagino que você já entendeu que não tem outro destino pra você aqui.

- Eu não queria nada disso. Eu queria voltar no tempo, sabe. Voltar pra quando isso não existia.

- Eu também queria. Eu já tive numa situação parecida com a sua, mas nem todo mundo nasceu pra viver num lar feliz e seguro. Aceita teu destino e usa isso a teu favor.

- Posso te dar a resposta depois?

- Não sei pra que você quer adiar as coisas. A resposta que você vai me dar depois é a mesma que me daria agora.

- Só até amanhã.

- Tudo bem, te aguardo amanhã.

Voltei pra casa aquele dia e me coloquei a pensar na minha triste sina. Uma puta acidental. O que teria acontecido se eu não tivesse cedido àquela primeira vez? Eu cedi com medo de ser estuprada, mas será que ele teria coragem de fazer algo assim? Talvez não. Talvez ele tivesse ido embora e eu teria tido outro tipo de experiência e não seria exposta ao assédio dos rapazes. Mas, como dizem, "E SE" não existe.

Diante da ideia de me perder de vez, criei uma coragem que nunca tive e perguntei à minha mãe sobre meu pai. Mesmo depois dela me xingar e até me bater, continuei firme na pergunta, até que ela resolveu falar. Eu era filha do meu avô, seu pai, que abusava dela. A casa onde morávamos foi ele quem comprou, pra manter longe dos olhos de todos o fruto daquele erro: Eu. Agora fazia sentido a maneira como ela sempre me tratou. Ficou claro que realmente não vim a esse mundo pra ter ao menos dignidade.

Já aos 15 anos marcada daquela forma, aceitei meu triste destino e me tornai oficialmente uma prostituta. E era indiferente eu ser menor. Aliás, neste meio, isso tem até mais valor, mesmo com os riscos. Sei de meninas prostituídas com menos idade. A realidade da vida é dura demais pra algumas pessoas e ali eu abraçava a minha porção dela, vestindo de vez a máscara da puta virgem.

No dia seguinte, fui até a cafetina e aceitei sua proposta. Ela me abrigou por uns dias em sua casa até irmos pra tal cidade. Não atendi ninguém até conhecer o homem que me inauguraria. Fui apresentada a ele só no dia. Tinha pinta de fazendeiro e devia ser rico, pois era limpo, poucos calos nas mãos, barba e cabelos aparados e deve ter pago um bom dinheiro, pois até eu recebi uma boa quantia.

Ele foi carinhoso. Talvez soubesse que tinha algo intacto nas mãos e tratou com cuidado. Acho que até senti algum prazer com ele apertando todo meu corpo. De uma forma insana, parecia um abraço. Ele foi gentil, conversou comigo, me tratou como gente, mas não anulou a impressão de que eu era só uma experiência sexual diferente. Não foi tão ruim quanto eu esperava, mas tive que engolir meus gatilhos enquanto via minha virgindade escorrer por minhas pernas.

Só fiquei no tal bordel pra conceber a noite da minha inauguração. Depois, ela me deu como opção ir pra uma cidade vizinha e fui conhecer novos ares, onde eu não fosse uma figurinha carimbada. E segui nessa lida, labutando todo dia desde aquela época. E lá se vão quase 15 anos nessa atividade. A mesma prática que me tornou uma boa boqueteira, também me tornou uma boa cortesã e anulou os gatilhos que me bloqueavam, tornando o sexo algo aceitável.

Tempos depois, uma psicóloga que conheci e que prestava auxílio às prostitutas, me ajudou a lembrar o motivo de meus traumas. Eu era pequena, entre 4 ou 5 anos. Minha mãe levou algum ficante pra casa e, com ambos bêbados, ela permitiu que ele me pegasse. Acordei com ele tirando minha roupa e se esfregando em mim. Comecei a gritar e minha mãe colocou sua mão em minha boca, pra eu não fazer barulho. Me vendo em pânico, ela deve ter mudado de ideia, me tomou das mãos dele e me colocou de volta na cama.

Depois do susto, fiquei ali, encolhida e olhando pra parede, esperando que nada mais me acontecesse. Eles seguiram conversando e depois fazendo barulhos que me eram estranhos na época, e adormeci em meio àquilo. Aquele evento ficou bloqueado, mas desde então, sempre que algum homem se aproximava, eu entrava em pânico, até o fatídico dia onde vi que conseguiria me livrar do assédio fazendo sexo oral no filho da vizinha. E foi assim que me tornei uma prostituta. Essa é minha história.

Depois de relatar tudo isso, seu olhar trazia um misto de medo, raiva, tristeza. Eu estava estarrecido e não sabia o que dizer. Quantas vezes imaginamos que prostitutas são meras desavergonhadas, que optaram gratuitamente em seguir esse caminho, mas quantas jovens não devem ser empurradas pra essa vida, sem nunca terem desejado ou buscado de fato isso? Eu me sentia como um daqueles jovens que a procuravam atrás de um boquete por ter ouvido de alguém que a menina da casa no fim da rua, fazia.

Olhei pra ela e pedi desculpas. Ela começou a chorar. A abracei e ela se debruçou em meu ombro, até adormecer. A deixei deitada na cama e me sentei na poltrona. A observando dormir, via em seu rosto a face daquela jovenzinha, atormentada pela vida e pelo mundo. Vendo o dinheiro destinado ao programa sobre a mesa, me senti o pior dos homens.

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  • hinshiki

    Gostei da história, conseguiu abordar bem um tema muito delicado e faz o leitor refletir um pouco depois da leitura

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