Depois de uma boa transa no meio da semana, nos deitamos lado a lado. Sem nada falar, apenas nos acariciando, esperávamos o sono chegar. De repente, ela quebrou o silêncio e perguntou:
— Você acha que eu fodo bem?
Foi algo um tanto inusitado, mas a resposta não era difícil:
— Sim, claro que sim. A gente tem uma química ótima na cama e fora dela também. Mas por que a pergunta?
— Hoje, o senhorio me parou no corredor — bêbado, é claro — e disse que eu te fisguei. Falou que, depois que você me conheceu, nunca mais foi à zona. Que você já teve outras mulheres que não te tiraram totalmente de lá, mas eu tirei. Eu fodo melhor do que as putas de lá?
Respondi que sim, que ela fodia melhor do que elas, mas que não era só isso que eu havia encontrado nela. Ela olhou séria em meus olhos por alguns instantes, depois sorriu, me beijou, deitou-se sobre meu ombro e seguimos nos acariciando em silêncio, até pegar no sono.
Não foi uma pergunta que gostei de ouvir, e que também não faria, pois não sou nenhum touro na cama. Mas ela de fato fodia bem. Tão bem como a melhor das putas, tão bem como qualquer mulher que gosta de sexo e sabe ofertar e se dar prazer. É, ela fodia bem, sim.
Mas aquele assunto levou meus pensamentos para longe. Eu realmente havia deixado de ir à zona, mas não porque nossas fodas suprissem essa necessidade. Assim como também não eram as fodas que me levavam até lá, mas uma puta em especial: Desirée.
Não era seu nome verdadeiro, mas foi o nome que ela decidiu adotar por achar que representava bem uma puta de verdade. Não era sua beleza, nem seu corpo, nem a forma como fodia que mais me atraíam, mas seu riso. As putas ali eram sensuais, fodiam muito bem e de quase todas as formas imagináveis, mas nenhuma tinha o riso dela, contagiante e cheio de vida. Um pouco escrachado sem ser leviano, e um tanto amargo de um jeito bom, feito café, que ninguém sabe ao certo por que gosta, mas apreciam e não ficam sem. Assim era ela.
E fodia entre risos, ditando com eles o ritmo do sexo, que era lento na medida certa, apaziguando os ânimos dos mais afoitos. Alguns não a queriam, preferindo as mais selvagens, mas eu a adorava. Quando sozinho, eu era um cliente assíduo aos finais de semana, só deixando de ir quando iniciava algum relacionamento. Mas nenhum conseguia me deixar longe por muito tempo, não tanto por sentir falta da devassidão, mas por falta daquele riso. E logo estava eu lá novamente, inventando desculpas e álibis que encobrissem minhas idas até ela.
Às vezes não a encontrava disponível. Como não me agradava foder com ela depois de outro cliente, eu ficava lá, a esperando aparecer para conversar um pouco e ouvir seu riso. Então consumia bebidas para justificar a espera e evitar as outras cortesãs. Quando ela saía e me via debruçado no balcão, ciente de que eu não subiria, me puxava para uma mesa, sentava ao meu lado e eu podia ouvir seus risos entre nossas conversas, fazendo a espera ter valido a pena. Conversávamos bastante e sobre tudo. Ela era muito inteligente e versada em todos os assuntos debatidos naquelas mesas — e, acredite, conversa-se sobre tudo nas mesas de um puteiro entre as rodadas de bebida.
Conheci algumas mulheres interessantes durante o tempo em que estive em contato com Desirée, mas as perdi uma após a outra por nunca conseguir me afastar de seu riso, no qual me viciei. Eu já havia proposto inclusive que ficássemos juntos, mas era algo fora de seus planos. Tempos depois, o que parecia difícil se provaria impossível quando ela me avisou que iria embora. Não quis dizer para onde nem o motivo, mas naquele dia riu e fodeu comigo como quem ri e fode com quem ama. Quando fui pagar, ela não aceitou. Disse ser nossa despedida.
Eu não sabia seu nome verdadeiro, de que cidade era, nada que pudesse me fazer cogitar procurá-la. E assim fiquei eu, forçadamente me desintoxicando do riso de Desirée. Sem motivos, nunca mais fui ao puteiro.
Nesse meio tempo, outra mulher interessante cruzou meu caminho. Começamos a namorar, depois decidimos morar juntos e, para todos os efeitos, ficou com ela a fama de ter me afastado dos lugares de má reputação.
E cá estamos nós, nos acariciando depois dessa transa. Ela fode muito bem, tem inúmeros outros predicados, chatices também, e gosto muito de seu riso. Mas sempre levarei na lembrança a doce Desirée. A mulher do riso amargo de um jeito bom, feito café: que desperta, que queima e que deixa o gosto da ausência na boca.