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PERDI AS HORAS

joaofelintoneto
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PERDI AS HORA

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Conteúdo da publicação

PERDI AS HORA

O relógio não tem tempo,

Tem o som do movimento:

Tique, taque, tique, taque, 

Tique, taque num lamento.

Passo a passo,

Passo a vida resumido em pensamento.


Absorto em profícuo passatempo,

Finjo em meu esquecimento;

Que a escrita regurgita meu silêncio.


São diversos, são dispersos no momento

Em que passo entre meus dedos;

São ponteiros, giram as horas.

Com as mãos em um aceno à memória 

Traio versos e segredos.


Toda noite na penumbra do espelho,

Eu me vejo à espera de respostas

Não caladas, antecipações, demoras

Nas estrofes que escrevo.


Pela madrugada afora, a aurora

Mostra que PERDI AS HORAS.

Muito embora, tenha glória 

O que foi feito:

Poesias removidas por defeito

Do meu peito que ainda chora.


O relógio não tem tempo 

A perder com minhas horas;

Tem o som do movimento:

Tique, taque, tique, taque, 

Tique, taque num lamento.

A VOLTA DO SIM


Eu diria que o não 

É uma volta do sim

A espera talvez, que enfim, 

Tome uma decisão.



IRONIA 

Cravo os dentes na comida 

Que mantém a minha vida 

De doente, mais saudável.

Uma provável 

Ironia.


A PAGA É A COVA 

Será que estarei aqui amanhã?

Pouco importa a resposta.

Se ainda estou agora,

Eu já estive outrora.

E isso prova que existi,

Que chorei e sorri,

Que gozei e sofri,

Que ganhei e perdi.

Pelo tanto que vivi,

A paga é a cova.




ENTRE TETO, CHÃO, PAREDES


O que vejo em minha casa

Entre teto, chão, paredes?

Afazeres, afazeres, afazeres;

Tantos que a um, não basta.


Vou atrás de uma escada,

Consertar uma goteira.

Choveu a semana inteira,

Tenho roupa acumulada.


A vassoura espantada 

Com a nuvem de poeira,

Eu não vejo outra maneira 

Que não seja acalmá-la.

Varro até a madrugada.


O banheiro sem descarga,

O chuveiro com defeito;

Meu cabelo, meu traseiro,

Cada um quer ser primeiro,

Quem me lava?



FOME DE PRAZER 


Tenho fome. 

Tanta fome quanto tenha pra comer.

Tenho fome de prazer 

Que me consome.

Se eu sou um homem,

Não consigo me conter.

Se eu sou mulher, o que fazer?

Sou capaz de me perder.


UM BOB MARLEY IRREAL 


Que personagem é esse da vida real?

Um Bob Marley irreal

Que bêbado e drogado,

Caminha na calçada ao meu lado 

Com passos de eterna harmonia 

Com o seu próprio tempo.


O que está dizendo

Com seus dentes à amostra,

Como se abrisse uma porta

Sem mostrar o que há lá dentro?


O que faz da sua existência 

Na displicência de ser?

O que tem a nos dizer

Com sua débil ciência

De que toda ausência de si mesmo

Seja medo de existir?



LGBTQIA+


Eu desperto em meu leito e aceito 

Qualidade ou defeito, o que for.

Admito mentir a mim mesmo

Por achar que ainda sei quem eu sou.

Nada sei de limite no amor.

Sou aquilo que me satisfaz: 

Uma moça, uma outra, um rapaz

Uma letra que escreva prazer

Entre um L, um G, B ou T 

Ou um Q, ou um I, A ou mais.



PELO MENOS 


Jamais nos encontraremos 

No mesmo lugar 

Em que nos separamos, 

Nunca no mesmo momento.

Posto que o nosso tempo,

Já passamos.

Visto que os nossos planos,

Os fizemos.

Se não os consolidamos a tempo,

Pelo menos

Nós tentamos.



COM TERNURA


Minha casa se situa 

Além da sua, 

Fica próxima àquela praça 

Na qual conversava

Em meio à turma

Com a qual estudava.

Lembro a roupa que usava,

O detalhe na blusa,

Um moletom amarrado na cintura;

Até as luvas usadas

Que na verdade eram minhas

E você as mantinha

Como se fossem minhas mãos a usá-las.

A lembrança me abraça 

Com ternura.



TRISTEZA NATA DOS SENTIDOS 

Lá fora, o sol começa a aparecer 

E eu aqui a escrever

Meus sentimentos:

Querem que eu viva pesadelos

Enquanto simplesmente sonho.

Que siga no engano 

Para não ser taxado de louco.

Que deveria ver pelo mesmo olho

Pelo qual enxerga a grande maioria.

Que toda a realidade que me habita,

Nada significa em outro plano;

Um lugar que não sei onde era,

Mas que era preciso

Que jamais o tivesse esquecido

E voltar para lá, 

Muito além de onde tenha nascido. 

E um dia, a mim mesmo prometido

Que estaria de volta.

Que às perguntas não devemos respostas. 

Que suposta

É a razão de ser.

No entanto, prefiro ir ao mar

E me banhar de sal e sol.

E viver dessa tristeza nata dos sentidos.




AO SABER QUE TUDO ACABA 

Tenho na alma 

Um quê de simpatia.

E sei que um dia, 

Terei de sepultá-la.

Bem antes da alma,

A minha alegria,

Ao saber que tudo acaba.



JOGO SEM PALAVRAS 


Um fala, o outro fala

E cada um por sua vez se cala

Com suas reservas

Num silêncio que ansiava 

Por conversa

De forma inversa

Num jogo sem palavras

Onde cada peça 

Por se só, não basta.



PARA MEU ENGANO 


Pelos meus cabelos brancos, 

Viam-se os anos

Já vividos.

Mas os pintei, novo estilo;

Talvez para meu engano,

Ser mais jovem, mais bonito.

Porém para meu espanto,

Além de estranho e esquisito,

Fiquei ridículo.


QUANTO A MIM


Tu, não sei;

Mas quanto a mim,

Um pouco mais de solidão 

Não vai mudar

A dor que tem meu coração

Com a vaga ilusão 

De ainda te amar.


Não sei se andar

De mão em mão,

Vai te salvar

De tua própria solidão.

Talvez, a tua intenção

Seja encontrar

Alguém que possa te amar

Sem condição.



POR MIM TANTO FAZ

Se me derem uma vida longa,

Muito longa, 

Longa até demais,

Jamais serei capaz

De morrer em paz.

Por Deus ou por Satanás,

Tanto faz,

Pois o céu não me atrai

E o inferno não me apraz,

Só viver me satisfaz.



FRÍGIDO JARDIM 

Não queira fazer de mim

O que não sou.

Eu seria um bom pastor,

Mas um cético, mesmo assim.

E diria que ser ruim

É se dispor 

A forçar, seja quem for,

A fingir sentir calor

No mais frígido jardim.



REI DOS REIS 

A espera de um clemente deus

Que lhes dê a resposta;

Mas o que têm em troca,

A pergunta que volta

Em um eco, outra vez:

Por que impõe tantas leis

Ao povo que o adora?

As trombetas, enfim a resposta:

Por que sou o Rei dos Reis.



É TUDO QUE TENHO

O que eu posso te dar

É muito pouco:

Um amor meio louco 

E um modesto lar.

O que eu posso te dar

É tudo que tenho:

Um enorme empenho 

Pra sonhar.

O MUNDO TODO NOS OMBROS

Um passageiro corre para alcançar a porta

Enquanto o ônibus se desloca com sua poltrona vazia.

O que seria mais um dia,

Se não fossem tantos  

Planos e sonhos 

Entre serviços prestados 

Por salários dignos de endividamento?

Qual o melhor movimento

De sua bolsa,

Senão aquele dos ombros

Ao cabide dos usados a venda?

Melhor que atenda antes que a ligação caia

E que saia da frente antes que passem por cima.

No céu acima, nada além de nuvens;

No chão há marcas das solas gastas pelo uso.

Qual de nós é o intruso 

Nessa trama abandonada?

De nada.

Não agradeça por tudo

Se nada é feito de graça.

O mundo todo nos ombros

E enquanto o ônibus passa,

Disputamos as migalhas 

Com os pombos.





CRENDICES 


Sobre a sombra de uma mangueira, 

Lembro que a infância inteira 

Eu tendia a me assombrar.

Talvez, por tanto acreditar. 


Em noite de lua cheia, 

Eu tremia na cadeira 

Ouvindo lobisomem uivar.


Até no banho de mar,

Que era casa de sereia, 

Deixava-me com coceira;

Pescaria, nem pensar.


Caipora, Pererê e Boitatá

Não eram de brincadeira, 

Não me deixavam caçar.


Na cidade, mato ou mar,

Eu ficava a espreitar.

Toda aparição suspeita, 

Eu teria que evitar.



O REFLEXO 

Eu imito cada gesto do espelho 

Como se eu fosse o reflexo.

Mal escuto o que converso

Comigo mesmo,

Talvez por medo

De revelar meus segredos. 

Ou ao inverso,

Meu reflexo ser eu mesmo.

PANTOMIMA DE PATETAS

O silêncio ansiava por conversa 

E a gente se calava.

Nesse jogo sem palavras, 

Cada um mantinha a calma

À espera,

Pantomima de patetas.

Um casal que então brigava

Ao sair de uma festa 

Indo para casa.



VÁ QUE ESQUEÇA 

Devo pôr o travesseiro na cabeça 

Sem o peso

De qual decisão tomar:

Dormir ou acordar.

Vá que esqueça, 

Não teria que optar.



APESAR DA LUZ ACESA 

Eu detesto esse sujeito 

Que me olha do espelho

Com essa cara de tristeza.

A cadeira se espelha

E lá no fundo, 

Uma corda enrolada sobre a mesa.

Apesar da luz acesa,

Tenho medo, e muito,

Que o meu mundo

No escuro mais profundo,

Desapareça. 

EXÉRCITO SEM SALVAÇÃO 

Não me venha com sermão, 

Nem me chame de irmão, 

Pois não vou me alistar 

Nesse exército capaz de entregar 

Sem nenhuma hesitação 

E condenar à execução, 

A quem prometia salvar,

Desde que teime em usar

O bom senso e a razão. 



BILOCAÇÃO

Meu monólogo foi deixado

À mercê do silêncio 

E parei de me ouvir pelo tempo

Que permaneci calado.


De pé no palco,

Eu me via naquele momento,

Tentando me reconhecer no assento

O qual estava sentado.



QUE OS DEMAIS 

Muitas vezes me sucumbo ao medo

De que creia mesmo

Que os mitos sejam reais

E que entre ais,

O meu apelo

Seja que eu morra primeiro 

Que os demais. 


NO REGULAR TIQUE, TAQUE

O tempo estava passando 

No regular tique, taque;

Eu, prestes a um ataque

De ansiedade e de pânico.


Lá fora, o mundo mudando

De claro, ficando escuro.

E eu em cima do muro,

Sem decidir como e quando.


Talvez por falta de um plano, 

De um projeto pensado,

Eu não escolha qual lado:


Se o que tenho imaginado 

Ou o que é real de fato.

Fico estático e suando.



SER IMAGINÁRIO 

O que faço com esse laço 

Que me aperta o pescoço,

Apesar do meu esforço, 

Muito além do meu cansaço? 


Sinto falta de um abraço, 

Tanto quanto de um almoço.

Sou tão magro, pele e osso, 

Que talvez, seja o que ouço: 

Ele é um ser imaginário.




ENTRE CRER OU PENSAR

Uma boa parte de nós, não consegue escrever;

Outro tanto, nem mesmo sabe ler

E a grande maioria é incapaz de pensar.

É mais fácil acreditar 

No que se ouve e se vê

Do que tentar entender 

E em seguida questionar,

Dessa forma, decifrar 

O que querem enfim dizer. 

As palavras têm o poder

De convencer e controlar

Ou conhecer e ensinar,

A questão é escolher 

Entre crer e pensar.



NOSSOS SILÊNCIOS 

Consigo ouvir o seu silêncio. 

Ele está entre as letras de um verso,

No anoitecer disperso nas estrelas,

Na lua cheia que observo diante do mar.

Por que você foi se calar?

Sinto falta de sua voz 

A me chamar,

A me falar

Que era capaz de ouvir o meu silêncio.




O FANTASMA 

Talvez a noite lá fora

Queira que eu saia.

Mas não!

Prefiro a solidão 

Dentro de casa, 

Pois todos foram embora.

Fiquei na mão 

Com a estranha sensação 

Que sou um fantasma.



FRASE DE EFEITO 

Ao quebrar esse dedo

Que em riste me acusa, 

Não me vejo com medo, 

Nem me encho de culpa.


Ter a vida oculta

Em mistério e segredo 

É reflexo no espelho

De quem a outrem, julga.


Não lhe devo desculpa 

Pelo seu próprio erro,

Pois aceito a mim mesmo


Como sendo o sujeito 

De uma frase de efeito 

Que ninguém mais escuta.





VIAGEM NO TEMPO E NO ESPAÇO

Ao passar o tempo,

Permaneço estático 

Olhando o cenário 

Que muda tão lento

Quanto o próprio espaço 

Onde passo a passo

Vai se encolhendo 

E eu mal percebendo.


Mas se ao contrário, 

Para longe, viajo 

Por mais de um decênio, 

Volto abismado,

Boquiaberto, pasmo 

Com o que estou vendo.



A AMIGA SALVA-VIDAS

O que me fez pensar que seria fácil?

Achei que amar fosse um regaço.

Foi só um beijo e um abraço.

De repente, numa torrente,

Águas turvas.

Você seminua, me afoga.

Eu sem uma boia,

Caio na sua.

Ela era salva-vidas, 

Não é mais.




SABIAMENTE LOUCO

É tarde, talvez,

Para juntar letras

E fazer das mesmas

Palavras fadadas

A serem caladas,

A perderem a voz.


Eu entre vocês, 

Único e disperso, 

Nunca em cada verso 

De um poema só.


Pela timidez,

Demasiado tolo.

Pela lucidez,

Sabiamente louco.



PELA MESMA RÉGUA 

Uma se desfaz da roupa

Enquanto espera 

Pela outra

Que se despe,

Desinibida e louca.


Numa troca de moeda,

Uma cara, outra coroa.

Talvez pela mesma régua,

Eu meça as duas.





ENTRE PIA E REDE

Na pia, uma pilha de pratos pra lavar.

Numa rede, o homem dela a balançar.

Quando então, se põe a pensar:

Se o homem é meu,

Vou pô-lo na pia em meu lugar

E pra rede, vou eu.



MENSAGEM ADULTERADA

Não importa o que ele disse,

Mas o que se entendeu.

A mensagem não morreu, 

Foi deturpada.

O mundo não depende de quem fala

Tanto quanto de quem cala

E consente

Que a mensagem adulterada,

Siga em frente.



SEM SERVENTIA 

Nessa vida, vivo à toa

Sem saber o que fazer.

Talvez tenha que escolher.

Mas qual a minha escolha?

E diriam que eu tenho a vida boa.

E se a vida não é boa, o que fazer?

Se um dia vou morrer,

Que ironia,

Outro ser sem serventia 

Irá nascer.


MIRA SEM ROSTO

Sob essa mira sem rosto,

Esse maldito desgosto 

Que nos almeja

Feito uma seta que acerta

No que cada um deseja

E que sobeja

Nossa inveja e mau gosto.



DESEQUILIBRADO

Junto os cacos dos meus pratos

Que eram quatro ao todo.

E de fato, nesse caso, 

Talvez sejam poucos.

Mas se acaso, eu fosse outro, 

Eu seria um astro 

Por demais exposto;

Um equilibrista louco 

Que perdeu o gosto pela atuação

Com as mãos no rosto

E a bunda no chão.



NUDES

Não disputo o resultado 

Da vida em vicissitude.

Minha única atitude

É permanecer calado. 

Em meu retrato falado, 

Há silêncio e quietude. 

Irreconhecível nudes,

Quase invisibilidade. 

LEMBRAR PARA QUE

E me vem à lembrança:

Lembrar para que,

Se tudo será esquecido?

Boca, olhos e ouvidos,

Dirimidos em palavras,

Deletados em conversas.


O que ainda resta de mim, 

Do que eu era,

Depois de anos de espera

Pelo meu fim.


Fizeram tantas promessas,

E mesmo assim,

Desnecessárias.

Juraram, deram a palavra,

E no fim nada,

Nada que enfim,

Não atenda aos seus interesses.



DISPERSOS 

Nossas lágrimas inundam nossos olhos 

E afogam nossas mágoas.

Nossas bocas gritam loucas

E salivam nosso tédio.


Nosso pânico é disperso 

Nos excessos do alvoroço. 

E apesar do nosso esforço, 

Somos no todo, dispersos.



ENTRE ALMAS

Essa noite andei ao acaso,

A um destino certo.

Num lugar incerto,

Em um ponto exato,

Encontrei, eu acho,

O que não procurava.

De pé na calçada, 

Eu olhei pra baixo

E vi o telhado 

De uma antiga casa.

E lembrei que estava

No sobrado velho,

Próximo ao cemitério...

Chega de mistério!

No antepenúltimo verso?

Fica inacabada.

Calma, tenha calma,

Eu ainda a espero.

Onde eu estava?

No sobrado velho,

Próximo ao cemitério...

Ah! Onde, que inferno!

Fomos sepultadas.





QUE OS OUTROS CONTEM 

Ante a incerteza do amanhã,

Viva o seu hoje.

Não espere por um futuro,

Faça-o agora,

Enquanto enfim, comemora 

Suas conquistas de ontem.

Seus dias somem

Por entre dedos de prosa.

E a sua história,

Que os outros contem.



DIA DOS MORTOS

Os meus mortos

Não me esperam nesse dia.

Vivo, não visitaria 

Os seus ossos.

Não me vejo com remorsos,

Nem me arrependeria,

Pois respiro alegria

E lembranças dos mais próximos. 


Os mais moços 

Vão trazendo suas características,

Tanto físicas

Quanto de comportamento.

E assim, eu vou revendo,

Dia a dia,

Cada membro da família,

Renascendo.




CAIS DOS ESQUECIDOS

Pare de chorar um pouco, 

Pelo morto que se vai

Para o cais dos esquecidos 

Entre prantos e gemidos, 

Entre gritos, entre ais

Como todos os demais.

Pois no cais dos esquecidos,

Pode dar-se por perdido.

Em um dia, ser um vivo 

E em outro, não ser mais. 



ALGUÉM BATE À PORTA 

Um beijo deixado no lábio

Da boca molhada e aberta

De quem sonha acordado

Em um banho demorado,

O eterno namorado 

À espera da donzela.

De repente ele desperta:

Alguém bate à porta. É ela!

-Você pega um resfriado.

Diz sua mãe do outro lado.



RESUMO TRÁGICO

Eu vou passar a limpo

Meus traços pessoais, 

Meus ais com os demais.

Em um resumo trágico,

Eu vou bancar o mágico 

E dá sumiço aos tais.

UMA LONGA NOITE

Uma noite tão longa, a espera

De quem foi, de quem é, quem me dera

Minha única e eterna amada.

Na penumbra da sala,

Luz de vela.

Sobre a mesa arrumada,

Um arranjo de flor.

Uma cadeira ocupada 

Talvez, por um fantasma 

Que morreu por amor.



QUEM MAIS FAZ FALTA

Pelo silêncio da casa,

Procuro por sua voz.

Você é a parte de nós 

Que mais faz falta. 


Pela janela aberta,

Olho lá fora.

Mas aqui dentro, quem mora

É a espera

Que a porta se abra

E eu veja entre lágrimas,

Você de volta.





TALVEZ APENAS CANSAÇO 

Porque navalho os meus braços 

Em um anseio febril,

Se chego ao mês de abril, 

Acreditando ser março. 

As cicatrizes, disfarço.

Não justifico o que fiz.

Não é por ser infeliz.

Talvez, apenas cansaço.

O tempo passa, eu não passo.

Eis que a angústia quer bis

E em cada vã cicatriz, 

Um novo risco, refaço. 

E vou assim, traço a traço,

Riscando os meses em mim.



OUSADA

O que faço agora 

Se é tão tarde a hora,

Se ainda queima e arde 

Quase em toda parte

Tamanha saudade

Por ter ido embora?


Ousou ainda me dizer:

Nunca esqueça de você 

Quando se lembrar de mim.

Pois só assim,

Você vai me esquecer.





SINTO TANTO 

Enquanto 

Eu conto 

Que encanto 

Quando canto,


Sinto tanto

Pelo quanto 

Que não sinto

Quando minto.



MAU GOSTO 

Essa história de que a vida ainda é pouco 

É o que me deixa louco. 

Fala sério, 

Uma opção de eterno 

Para um morto.

Uma abstração sem rosto 

Entre um céu e um inferno 

É no mínimo

Em aspecto, 

Um mau gosto.



ENTRE MORTAS E FERIDAS 

Toda queda dar por terra 

E a terra por perdida.

Entre mortas e feridas,

Nos escombros de uma guerra,

Resta a luta pela vida:

Um lado pede comida;

O outro, a nega.


POR ENTRE OS DEDOS 

Deixei o tempo passar 

Por entre os dedos.

Ficaram mágoas e erros

Na palma de minha mão.

Fechei o punho em vão,

Tentei sustê-los.

Jamais seriam os mesmos, 

Meus dias não voltarão. 



SONETO DO PEQUENO DESEJO 

Quanto eu queria esquecê-lo.

Agora procuro me lembrar. 

A idade tende a realizar

Algum pequeno desejo.


Seria tão grave erro

Ou mesmo, dá pra pensar,

O medo de se afogar

Num mar de dor e desespero? 


Seria um vil pesadelo 

Do qual tentava acordar, 

Mas continuava a assombrar


Meu outro dia inteiro

E longe do travesseiro 

Teimava em se realizar?






AMAR EM SILÊNCIO 

Da minha boca pra fora, 

Falo o que quero.

Do coração para dentro,

Eu te espero.

O meu amor é sincero 

Quando se cala.

A minha fala é falsa,

Então eu nego.

Você desfaz o deserto

De minha alma

E me liberta, me acalma

Nesse inferno

De desejar ser eterno 

Enquanto tudo se acaba.



MEUS DEUSES 

Os meus deuses são mortais.

Mas permanecem reais

Enquanto lidos. 

Os meus deuses são pacíficos

Por demais, 

Choram os mais tristes ais

Em seus escritos;

Não elegem favoritos,

Nem exigem rituais.

São imortais

Entre as páginas dos seus livros.






AO FALAR DE MIM

Eu me quebro em osso

E me corto em pele

E me dejeto em verme

E me cego em olho.


Eu respiro o pouco

Que o nariz me serve.

Minha boca bebe

Meu suor do rosto.


Meu juízo é louco.

Meu silêncio é verbo.

E por ser reflexo,

Sou igual no oposto.



DESABAFO NA ESTANTE

Entre traças, esquecido 

Numa velha estante.

Ninguém lembra que antes

Eu fui lido e relido.

O que houve comigo

Ou com o jovem estudante

Que se mantém distante

Do mais útil amigo,

O imprescindível livro?





LUZ AMARELA 

Tantas vidas dispersas

Pelas casas alheias 

Sob tetos de telhas

E janelas abertas;

Suas calçadas desertas

Pelas ruas estreitas

Onde a lua espreita

Com sua luz amarela.



UM POUQUINHO MAIS DE TEMPO 

Se no decorrer da vida,

Eu pudesse ter

Um pouquinho mais de tempo

Para conviver,

Não teria um porquê 

Pelo qual me arrepender

Do que deixei de fazer

Pela pressa de passar.

Hoje, me ponho a olhar

Para o que deixou de ser

Por não esperar você 

E tanto correr

Com a ânsia de chegar.







POR SER ASSIM 

O que sou em mim,

Senão eu mesmo?

Por haver começo,

Se dará meu fim.

Uma vez, enfim,

Eu preciso sê-lo;

Não por meu apelo,

Mas por ser assim.



OS PRÓXIMOS 

Não choro meus mortos,

Eu os enterro.

Choro por meus vivos,

Por não serem eternos,

Por correrem o risco

De serem os próximos

Num caixão de ossos

Sob o cemitério. 

Não tem um remédio 

Para seus remorsos.

Pelos seus esforços, 

Não há nenhum crédito.








MAIS UM DIA 


A noite hoje, será tão longa

Quanto ontem foi o dia.

Sem a sua companhia,

O sono anda

De mãos dadas com a melancolia.

A vigília 

Se agita com a ânsia.

E quem paga a conta

É a manhã que já desponta

Em mais um dia.



RETRATO EM AQUARELA 

Disperso nas letras que componho,

O meu amor eu disponho

Num jantar à luz de velas.

As notas seriam pérolas;

A música, um colar de contas.

A voz já nem se dá conta 

De que o ouvido, a espera.

De quem seria a tela,

Retrato em aquarela

Que tanto encanta?

Os passos pedem a dança,

Mas sob a mesa, descansa

O mais belo par de pernas.





SERVIDÃO 

Estou atrás do volante 

Com o carro estacionado 

A espera que o último ocupante 

Deixe o táxi liberado.

Expediente encerrado,

Sigo para o lar distante.

No espelho, o semblante

É de quem está cansado.

Nova espera no semáforo,

Segue o trânsito.

Sou um condutor anônimo,

Um escravo do trabalho.



N95

Apesar da máscara no rosto,

Eu percebo seu esforço 

Para me ocultar o sorriso.

Ao se proteger do risco,

Você disfarça seu gosto.

Se eu não fosse assim, 

Tão moço,

Talvez fosse enfim, 

O escolhido.







SOLILÓQUIO

Dizia cada palavra 

Com uma voz de certeza.

Talvez cresse que as mesmas

Seriam-me ouvidas com calma.

O meu sorriso tinha lágrima.

A minha dor, uma pureza.

A chama da vela acesa,

Não me queimava

E a taça me esvaziava,

Abandonada na mesa.



QUATRO DE OUTUBRO

Meus cabelos vão pintando

Aos poucos, preto em branco;

A cada ano,

Todo quatro de outubro.

Vou pisando no escuro,

Mesmo olhando;

Vou andando,

Tateando o futuro.

Os meus olhos, os perfuro

Com nuances do agora.

Minha dor não incomoda

Tanto quanto meu augúrio.

Os meus anos, os desnudo

Pelas horas.

E a noite me apavora

Como quem está sonhando

E acorda no escuro.




UM EXEMPLAR FALCIFORME 

Por tantas horas de sonho,

Eu não encontro comigo.

Não sei se escuto, se falo;

E se me calo, gemido.

Na solidão é preciso

Se desfazer do que pensa, 

Talvez as dores atentas

Aos meus sentidos.

Deveras, sonho comigo 

Em muitas noites, além. 

E não encontro ninguém 

Aquém do meu endereço. 

As cartas que já não leio

São os modernos e-mails, 

Os meios que ainda tenho.

Volto a me ver no espelho

Que o tempo me dissecou

De filho a pai, a avô. 

Eu sou da cor que me vejo.

Em meio ao meio em que vivo,

Entre modelos precisos,

Um exemplar falciforme.

A minha cara disforme

Tem um olhar de desejo

Ao que é sobejo.

Na boca, o último beijo

No qual comia a terra.

Cá dentro, o caixão me encerra.

Lá fora, há medo.




O ENGENHEIRO 

O que faço dessas horas

Tão senhoras de si mesmas.

Como apresso essas lesmas

Na espera com demora.

E na rapidez do agora,

O que faço pra detê-las?

Pois necessito retê-las 

Para execução das obras.



NINGUÉM SABE QUANDO

Será que é o último ano

Mês, semana ou dia?

Mas o que me alivia

É que ninguém sabe quando.


A vida vai me ensinando, 

Talvez de forma tardia,

Que tudo que eu não previa

Deflagro se consumando.


Muitas vezes o que é plano,

Jamais concretizaria.

Noutras, mera fantasia

Se realiza, me espanto.






BEM MELHOR

Talvez, eu tenha a resposta;

Mas não consiga explicar.

Bem melhor deixar pra lá.


Você não vai entender

O que tenho a dizer,

Mesmo que eu teime em falar.

Bem melhor será calar.


Pare de se comportar

Como se houvesse prova.

Não há sentido nem lógica.

É questão de acreditar.


Como eu não acredito,

Fica o dito por não dito.

Bem melhor deixar pra lá.



FRACIONADOS

Meça um terço do que faço

No quarto inteiro,

Entre nossos travesseiros.

Eu em você, me desfaço

Entre sonhos e abraços

Num recomeço.


Sua boca pede beijo,

Seu olhar confirma: faço.

Entre pernas, um compasso

De nós mesmos. 

Fracionados 

Eu e você, um nó desfeito.

SOLIDÃO ATROZ

Os degraus dormentes sob meus pés

Enquanto subo a escada 

Em direção a sacada

Onde estaríamos nós.

Na lembrança, sua voz,

O cheiro dos seus cabelos, 

Os seus olhos no espelho.

Oh! Que solidão atroz.

O que faço eu sem nós?

Tenho medo

De acordar do pesadelo

Ainda só.



À PRÓPRIA SORTE

O seu beijo longo e quente

Na frieza dessa noite,

Feito a lâmina da foice

Que simboliza a morte,

Dá a sensação de um corte

Decepando minha alma.

Mesmo assim, mantenho a calma

E me entrego à própria sorte.






PASSOS DE VIGÍLIA

Assombro a casa à noite

Com meus passos de vigília.

A geladeira vazia

Não me satisfaz a fome.

Do quarto, escuto meu nome.


Se fosse eu, um sonâmbulo 

E houvesse perdido o sono,

Eu mesmo o procuraria.


Ficam para o outro dia

Minhas horas de descanso.

Volto pra rede e balanço

Os sonhos que eu teria.



ZONA DE PERIGO

Levantei tantas paredes

Quantas fossem necessárias

Para me insular do mundo.

Mas há portas e janelas

Que precisam ser abertas,

E assim, entra o perigo.

Como estar protegido?

Corro risco dentro ou fora.

Ou decido ir embora

Ou obstinado, fico.







APESAR DE ALQUEBRADO

Quem diria que eu chegaria aqui,

Apesar de alquebrado.

Os meus passos foram dados

Em direção ao porvir.

Quanto tive que sentir.

Tantos foram os obstáculos.

Pelos anos, ao acaso,

Fui deixado a existir.

Alguns sonhos, vi ruir.

Outros, pude realizá-los.

Apesar de alquebrado,

Quem diria que eu chegaria aqui.



DESPERTO

Esse sangue que brota,

Jorra do peito que sofre.

Uma dor que disforme,

Muda a face que chora.


A cortina se dobra 

Pelo vão da janela.

Sua mão, não a dela

Que está presa na corda.


O ciúme, o transtorna,

Ele se joga na mesa.

Há uma vela acesa 

Que o queima e o acorda.





SIMPLES DIÁRIO

Eu recortei figuras de uma revista

E as colei em meu caderno em meio as pautas.

Um dos recortes, parecia um astronauta

Ou talvez, fosse a foto de um escafandrista.


Fui ao espaço e mergulhei no mar profundo.

E via o mundo em meio a fotografias.

Enquanto o grafei nas linhas em cursiva

Fui deixando viva a memória, em rascunho.


Simples diário de criança que crescia

E percebia o quanto tudo era estranho.

Que não havia uma medida em tamanho

Que pelos anos, não mudasse o que se via.


Tornei-me guia de mim mesmo pela estrada.

Aonde os passos me levavam, não sabia.

Mas, persistia e só a minha voz, ouvia.

Até o dia em que finda minha jornada.



OLHO NO OLHO

Todo tempo ainda é pouco

Para o nosso amor tão louco

Quanto possa ser.

O que fazer

Se eu e você, 

Fomos feitos um para o outro?

E se nascermos de novo,

Ao olharmos olho no olho,

Vamos nos reconhecer.



UM ATO DE GRANDEZA

Sua rede no alpendre, o permite observar

Os detalhes do lugar

Até aonde alcançar sua vista.

Há um carro de polícia 

Que outros querem ultrapassar,

Lentamente, devagar na mesma pista.

Cada um que dobra, pisca

Ou deveria piscar.

Entre a casa do major e do artista,

Há um carro a esperar.

Não se sabe quem.

Muito além,

Dá pra imaginar o mar.

Pois a rua aonde está,

Não permite ver a praia.

Ver o lixo que se espalha

Ao redor da sua casa,

É de dar muita tristeza.

Por saber que essa vileza,

Essa ação torpe e maldosa,

Foi de um vizinho dali

Que antes mesmo de partir,

Deu essa prova

Que tem péssima educação. 

E cuidando de antemão,

Ele se põe à limpeza.

Olha a rede que o espreita,

Quase a ouve lhe chamar.

Mas precisar terminar

O seu ato de grandeza.





O DESCASO

O que mais prezo é o silêncio, 

Algo raro atualmente.

A surdez numa linha ascendente,

Está mudando o nosso tempo.


Por onde andam o bom senso

E o bom gosto musical?

Todo dia é carnaval

Com tambores barulhentos,

Com cantores sem talento

E o ouvinte tolamente irracional.


Mais parece um ritual 

De canibais na floresta.

Como um vírus que infesta

A população geral,


O descaso é fatal.

Leva um ser que é racional

A se tornar uma fera.



CONSCIÊNCIA LÚCIDA 

Sinto as dores da existência 

Nos sabores dos sentidos.

Ouço todos os gemidos

De tão lúcida consciência. 

Que dirão em minha ausência:

Não sofreu sem correr risco

E em seu último suspiro,

Não havia um pedido

De clemência.


INVOLUÇÃO

Alcançamos um tal nível 

Na ascensão musical,

Desde uma melodia genial

A uma voz inconfundível;

Uma letra inexprimível

E um ouvinte especial.


O que houve com a música atual

Pra tamanha decadência?

Se hoje, canta o que se pensa.

Não se pensa, afinal.


Numa involução mental,

Voltaremos às cavernas

Com tambores entre as pernas

E a voz, som gutural.



O ACHADO

Não apenas uma escolha,

Foste um achado no caminho.

Eu andava tão sozinho

Como qualquer outra pessoa,

Indiferente e à toa. 


O sorriso que eu vi em sua boca,

Comparando com carinho,

Parecia um passarinho 

Quando cai do ninho e voa.





O QUE QUER FAZER?

Faça L, B ou C;

Faça o que quiser fazer.

Preto e branco ou colorido, 

Não depende de partido,

Todo e qualquer político 

Está pensando no poder.

Todo e qualquer político 

Vê seu voto, não você;

Faça L, B ou C.



DOS BEIJOS CASTOS 

Era você numa carta

Sem destino

Que encontrei por acaso.

Talvez apenas um caso,

Um desatino

De um viúvo sepultado 

No seu quarto de casado,

Tão amargo e tão sozinho.

Ao me lembrar de seus lábios, 

A minha boca sente a outra,

Dos beijos castos.





SEU JEITO

Ora!

A minha porta tem rótulas

Que me deixam perceber

Um mundo além de você, 

Antes de abri-la pra rua.


A vida aqui, continua.

Teimo em viver

Sem jamais me esquecer

Tanta falta de ternura.


Que fazer, se não há culpa;

Se é o seu jeito de ser;

Se não sabe o que fazer

Quando lhe peço ajuda? 



OS SONHOS MAIS BONITOS

Eu procuro pela casa,

Os meus sonhos mais bonitos;

Mesmo os quase esquecidos.

Porém, não encontro nada.


Vasculhando cada quarto,

Entre móveis, entre tralhas

Vou revendo as estradas

Dos meus anos.


Foram tantos os encantos

E aventuras engraçadas

Que esqueci que procurava

Os meus mais bonitos sonhos.


VERSÕES DE NÓS 

Andando pelas ruas onde moro,

Exploro rostos que passam ao lado.

Serão cópias de mim ou ao contrário, 

Eu seja a versão de seus remorsos?


O que posso fazer se em meus esforços

De vê-los se livrarem do cansaço,  

Acabo por perder-me no embaraço,

Permaneço calado, portanto, choro.


A condição de ser mero devoto

Mantém cada indivíduo aprisionado

A uma multidão de condenados

A viver reprimidos em seus corpos.


Por que será que tanto me importo?

Talvez por me ver neles, confinado.

Enquanto sou o mais fiel retrato

Da face que teriam seus opostos.



OS MEIOS 

O fascínio, a dúvida e o medo

São meios para eu me despir

Da decepção por vir,

Da certeza em um erro,

E da audácia a me ruir.


O que faço a me iludir

Comigo mesmo,

Se conheço cada torpe e vil segredo

Sem poder me corrigir.


NEM, NEM 

Todo tempo de espera é taciturno

Quando o turno está longe de acabar.

Tantos anos, eu estou a trabalhar

Que cansei de quase tudo.


Meus ouvidos estão surdos 

Dos barulhos que tiveram de escutar.

Meus joelhos já me fazem vacilar.

O enfado nos meus braços, um absurdo. 


No país em que um jovem carrancudo

Nem trabalha, nem se dispõe estudar

E um idoso continua a batalhar

Sem poder se aposentar é um abuso. 



NO CHÃO DA SALA

Adormeço no chão da sala

Rabiscando pensamentos.

Talvez, fossem sentimentos

Que perdi quando sonhava. 


Eu estaria desperto

Num deserto de palavras?

Ou simplesmente acordava

Sob uma chuva de espectros? 


O caderno estava perplexo,

A caneta se calava,

E o silêncio se encantava 

Com o oceano de versos.



MEU EMBARAÇO

Os meus dias são marcados

Pelo tédio e a esperança

E por diversas lembranças

Do mais remoto passado


Jamais seriam dourados

Recheados com mudanças

O meu dia a dia alcança

Pouco mais que o meu braço


E de abraço em abraço

Vou medindo a distância 

De minha tenra infância 

Ao que agora, eu faço:


Que é viver no embaraço

De quem todo dia, conta

E que a ninguém encanta

Por jamais ser escutado






A PESTE

Por que matamos outras espécies 

Pelo incômodo que nos dão? 

Qual seria a razão?

Talvez, por nós sermos a peste.


Aquilo que já não nos serve

Perde nossa compaixão.

Tudo que nos vêm à mão,

Serve pra livrar os vermes

De sua triste condição.


Somos reis da criação,

Dizem os que a um deus servem

Antes que os mestres neguem:

Ápices da evolução.


Mas na minha opinião

Que não vale um tostão:

Nós é que somos a peste.



OU PATRÃO OU EMPREGADO

O patrão tem um sanitário

Que é um luxo, requintado.

Também tem um, o empregado,

Que está sempre ocupado.

Mas na hora do serviço necessário,

Ambos ficarão sentados

A espera do esperado,

A própria merda.




QUEM, EU?

Na ausência de mim,

Sou anônimo e estranho,

Desconheço meu sonho

E acordo, enfim.


Seja eu quem (eu) for,

Sem saber qual de mim,

Reconheço no fim,

Que não o sou.


Isso de ser eu, sem sê-lo; 

Talvez, seja por medo

De encontrar a mim mesmo

E ir embora.

E quem sou eu, agora?

Ora!

Meu reflexo no espelho.



PELOS COTOVELOS 

Falo de tudo um pouco.

Seja do são e do louco,

Do bom e do que é ruim.

E até mesmo de mim.

Desde o começo ao fim,

Falo do ontem, do outrora,

Também do hoje, do agora,

Do próprio tempo e das horas.

Eu falo tanto, assim?

Literalmente, em resumo

Falo de Deus e do mundo.

Enquanto falam de mim.


DENTRO DE MINHA ALMA 

Eu jamais estou sozinho,

Pois por todo o caminho,

Tenho a sua companhia.

Lembranças do dia a dia,

De quando você sorria,

De quando você chorava.

Sei que ao chegar em casa,

Logo ao abrir a porta,

Vou ouvir sua resposta

Antes mesmo de indagá-la.

A TV, deixei ligada;

Pois você assim fazia.

Na sala, mesmo vazia,

Sua recordação me abraça. 

Cada cômodo, retrata

Uma cena de sua vida.

E assim, a mantém viva,

Renascida em minha alma.



O DINHEIRO 

O dinheiro compra tudo.

Compra quase todos nós. 

Compra lixo, compra luxo.

Até cobertores sujos

Como os mais finos lençóis. 

O dinheiro, na verdade,

Só não compra dignidade,

Geralmente a destrói.





AGRADECER? 

Agradecer à vida

Por tudo que tem me dado?

Ou talvez, eu tenha achado 

Ou buscado com afinco.

Na verdade, o que eu sinto 

É uma enorme tristeza;

Sobra comida na mesa

E tantos outros, famintos.


O que tenho a agradecer

Ao ver tanto padecer,

Sem ter vergonha ou culpa

Ante a estúpida desculpa

De que fiz por merecer?

Ninguém precisa sofrer,

Viver de pedir ajuda

Enquanto mesmo na luta,

Temos para oferecer.


Agradecer por eu ter

Tudo que falta a você, 

Não é a conduta justa.



A COMPANHIA

Não tenho planos, lamento.

Eu vivo cada momento, 

Meu eterno dia a dia;

Geralmente de alegria 

Por cada amanhecer

E por ter sempre você 

Como minha companhia.



Thoughts

  • vqueiroz90

    Perder as horas de verdade é ficar com gente que te faz não contar os minutos.

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  • tresPaginas

    ✨

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  • tmoreira93

    A gente perde as horas com quem importa e só depois é que percebe o tempo que deu.

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  • selicAlta

    Que forma de pensar!

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  • Ovid

    Isso. Horas perdidas com gente que importa é como a gente mede o que realmente conta.

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  • rendaFixa

    Perder as horas é saber onde você quer estar.

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