Que forma de pensar!
PERDI AS HORAS
PERDI AS HORA
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Pensamento
Que forma de pensar!
Conteúdo da publicação
PERDI AS HORA
O relógio não tem tempo,
Tem o som do movimento:
Tique, taque, tique, taque,
Tique, taque num lamento.
Passo a passo,
Passo a vida resumido em pensamento.
Absorto em profícuo passatempo,
Finjo em meu esquecimento;
Que a escrita regurgita meu silêncio.
São diversos, são dispersos no momento
Em que passo entre meus dedos;
São ponteiros, giram as horas.
Com as mãos em um aceno à memória
Traio versos e segredos.
Toda noite na penumbra do espelho,
Eu me vejo à espera de respostas
Não caladas, antecipações, demoras
Nas estrofes que escrevo.
Pela madrugada afora, a aurora
Mostra que PERDI AS HORAS.
Muito embora, tenha glória
O que foi feito:
Poesias removidas por defeito
Do meu peito que ainda chora.
O relógio não tem tempo
A perder com minhas horas;
Tem o som do movimento:
Tique, taque, tique, taque,
Tique, taque num lamento.
A VOLTA DO SIM
Eu diria que o não
É uma volta do sim
A espera talvez, que enfim,
Tome uma decisão.
IRONIA
Cravo os dentes na comida
Que mantém a minha vida
De doente, mais saudável.
Uma provável
Ironia.
A PAGA É A COVA
Será que estarei aqui amanhã?
Pouco importa a resposta.
Se ainda estou agora,
Eu já estive outrora.
E isso prova que existi,
Que chorei e sorri,
Que gozei e sofri,
Que ganhei e perdi.
Pelo tanto que vivi,
A paga é a cova.
ENTRE TETO, CHÃO, PAREDES
O que vejo em minha casa
Entre teto, chão, paredes?
Afazeres, afazeres, afazeres;
Tantos que a um, não basta.
Vou atrás de uma escada,
Consertar uma goteira.
Choveu a semana inteira,
Tenho roupa acumulada.
A vassoura espantada
Com a nuvem de poeira,
Eu não vejo outra maneira
Que não seja acalmá-la.
Varro até a madrugada.
O banheiro sem descarga,
O chuveiro com defeito;
Meu cabelo, meu traseiro,
Cada um quer ser primeiro,
Quem me lava?
FOME DE PRAZER
Tenho fome.
Tanta fome quanto tenha pra comer.
Tenho fome de prazer
Que me consome.
Se eu sou um homem,
Não consigo me conter.
Se eu sou mulher, o que fazer?
Sou capaz de me perder.
UM BOB MARLEY IRREAL
Que personagem é esse da vida real?
Um Bob Marley irreal
Que bêbado e drogado,
Caminha na calçada ao meu lado
Com passos de eterna harmonia
Com o seu próprio tempo.
O que está dizendo
Com seus dentes à amostra,
Como se abrisse uma porta
Sem mostrar o que há lá dentro?
O que faz da sua existência
Na displicência de ser?
O que tem a nos dizer
Com sua débil ciência
De que toda ausência de si mesmo
Seja medo de existir?
LGBTQIA+
Eu desperto em meu leito e aceito
Qualidade ou defeito, o que for.
Admito mentir a mim mesmo
Por achar que ainda sei quem eu sou.
Nada sei de limite no amor.
Sou aquilo que me satisfaz:
Uma moça, uma outra, um rapaz
Uma letra que escreva prazer
Entre um L, um G, B ou T
Ou um Q, ou um I, A ou mais.
PELO MENOS
Jamais nos encontraremos
No mesmo lugar
Em que nos separamos,
Nunca no mesmo momento.
Posto que o nosso tempo,
Já passamos.
Visto que os nossos planos,
Os fizemos.
Se não os consolidamos a tempo,
Pelo menos
Nós tentamos.
COM TERNURA
Minha casa se situa
Além da sua,
Fica próxima àquela praça
Na qual conversava
Em meio à turma
Com a qual estudava.
Lembro a roupa que usava,
O detalhe na blusa,
Um moletom amarrado na cintura;
Até as luvas usadas
Que na verdade eram minhas
E você as mantinha
Como se fossem minhas mãos a usá-las.
A lembrança me abraça
Com ternura.
TRISTEZA NATA DOS SENTIDOS
Lá fora, o sol começa a aparecer
E eu aqui a escrever
Meus sentimentos:
Querem que eu viva pesadelos
Enquanto simplesmente sonho.
Que siga no engano
Para não ser taxado de louco.
Que deveria ver pelo mesmo olho
Pelo qual enxerga a grande maioria.
Que toda a realidade que me habita,
Nada significa em outro plano;
Um lugar que não sei onde era,
Mas que era preciso
Que jamais o tivesse esquecido
E voltar para lá,
Muito além de onde tenha nascido.
E um dia, a mim mesmo prometido
Que estaria de volta.
Que às perguntas não devemos respostas.
Que suposta
É a razão de ser.
No entanto, prefiro ir ao mar
E me banhar de sal e sol.
E viver dessa tristeza nata dos sentidos.
AO SABER QUE TUDO ACABA
Tenho na alma
Um quê de simpatia.
E sei que um dia,
Terei de sepultá-la.
Bem antes da alma,
A minha alegria,
Ao saber que tudo acaba.
JOGO SEM PALAVRAS
Um fala, o outro fala
E cada um por sua vez se cala
Com suas reservas
Num silêncio que ansiava
Por conversa
De forma inversa
Num jogo sem palavras
Onde cada peça
Por se só, não basta.
PARA MEU ENGANO
Pelos meus cabelos brancos,
Viam-se os anos
Já vividos.
Mas os pintei, novo estilo;
Talvez para meu engano,
Ser mais jovem, mais bonito.
Porém para meu espanto,
Além de estranho e esquisito,
Fiquei ridículo.
QUANTO A MIM
Tu, não sei;
Mas quanto a mim,
Um pouco mais de solidão
Não vai mudar
A dor que tem meu coração
Com a vaga ilusão
De ainda te amar.
Não sei se andar
De mão em mão,
Vai te salvar
De tua própria solidão.
Talvez, a tua intenção
Seja encontrar
Alguém que possa te amar
Sem condição.
POR MIM TANTO FAZ
Se me derem uma vida longa,
Muito longa,
Longa até demais,
Jamais serei capaz
De morrer em paz.
Por Deus ou por Satanás,
Tanto faz,
Pois o céu não me atrai
E o inferno não me apraz,
Só viver me satisfaz.
FRÍGIDO JARDIM
Não queira fazer de mim
O que não sou.
Eu seria um bom pastor,
Mas um cético, mesmo assim.
E diria que ser ruim
É se dispor
A forçar, seja quem for,
A fingir sentir calor
No mais frígido jardim.
REI DOS REIS
A espera de um clemente deus
Que lhes dê a resposta;
Mas o que têm em troca,
A pergunta que volta
Em um eco, outra vez:
Por que impõe tantas leis
Ao povo que o adora?
As trombetas, enfim a resposta:
Por que sou o Rei dos Reis.
É TUDO QUE TENHO
O que eu posso te dar
É muito pouco:
Um amor meio louco
E um modesto lar.
O que eu posso te dar
É tudo que tenho:
Um enorme empenho
Pra sonhar.
O MUNDO TODO NOS OMBROS
Um passageiro corre para alcançar a porta
Enquanto o ônibus se desloca com sua poltrona vazia.
O que seria mais um dia,
Se não fossem tantos
Planos e sonhos
Entre serviços prestados
Por salários dignos de endividamento?
Qual o melhor movimento
De sua bolsa,
Senão aquele dos ombros
Ao cabide dos usados a venda?
Melhor que atenda antes que a ligação caia
E que saia da frente antes que passem por cima.
No céu acima, nada além de nuvens;
No chão há marcas das solas gastas pelo uso.
Qual de nós é o intruso
Nessa trama abandonada?
De nada.
Não agradeça por tudo
Se nada é feito de graça.
O mundo todo nos ombros
E enquanto o ônibus passa,
Disputamos as migalhas
Com os pombos.
CRENDICES
Sobre a sombra de uma mangueira,
Lembro que a infância inteira
Eu tendia a me assombrar.
Talvez, por tanto acreditar.
Em noite de lua cheia,
Eu tremia na cadeira
Ouvindo lobisomem uivar.
Até no banho de mar,
Que era casa de sereia,
Deixava-me com coceira;
Pescaria, nem pensar.
Caipora, Pererê e Boitatá
Não eram de brincadeira,
Não me deixavam caçar.
Na cidade, mato ou mar,
Eu ficava a espreitar.
Toda aparição suspeita,
Eu teria que evitar.
O REFLEXO
Eu imito cada gesto do espelho
Como se eu fosse o reflexo.
Mal escuto o que converso
Comigo mesmo,
Talvez por medo
De revelar meus segredos.
Ou ao inverso,
Meu reflexo ser eu mesmo.
PANTOMIMA DE PATETAS
O silêncio ansiava por conversa
E a gente se calava.
Nesse jogo sem palavras,
Cada um mantinha a calma
À espera,
Pantomima de patetas.
Um casal que então brigava
Ao sair de uma festa
Indo para casa.
VÁ QUE ESQUEÇA
Devo pôr o travesseiro na cabeça
Sem o peso
De qual decisão tomar:
Dormir ou acordar.
Vá que esqueça,
Não teria que optar.
APESAR DA LUZ ACESA
Eu detesto esse sujeito
Que me olha do espelho
Com essa cara de tristeza.
A cadeira se espelha
E lá no fundo,
Uma corda enrolada sobre a mesa.
Apesar da luz acesa,
Tenho medo, e muito,
Que o meu mundo
No escuro mais profundo,
Desapareça.
EXÉRCITO SEM SALVAÇÃO
Não me venha com sermão,
Nem me chame de irmão,
Pois não vou me alistar
Nesse exército capaz de entregar
Sem nenhuma hesitação
E condenar à execução,
A quem prometia salvar,
Desde que teime em usar
O bom senso e a razão.
BILOCAÇÃO
Meu monólogo foi deixado
À mercê do silêncio
E parei de me ouvir pelo tempo
Que permaneci calado.
De pé no palco,
Eu me via naquele momento,
Tentando me reconhecer no assento
O qual estava sentado.
QUE OS DEMAIS
Muitas vezes me sucumbo ao medo
De que creia mesmo
Que os mitos sejam reais
E que entre ais,
O meu apelo
Seja que eu morra primeiro
Que os demais.
NO REGULAR TIQUE, TAQUE
O tempo estava passando
No regular tique, taque;
Eu, prestes a um ataque
De ansiedade e de pânico.
Lá fora, o mundo mudando
De claro, ficando escuro.
E eu em cima do muro,
Sem decidir como e quando.
Talvez por falta de um plano,
De um projeto pensado,
Eu não escolha qual lado:
Se o que tenho imaginado
Ou o que é real de fato.
Fico estático e suando.
SER IMAGINÁRIO
O que faço com esse laço
Que me aperta o pescoço,
Apesar do meu esforço,
Muito além do meu cansaço?
Sinto falta de um abraço,
Tanto quanto de um almoço.
Sou tão magro, pele e osso,
Que talvez, seja o que ouço:
Ele é um ser imaginário.
ENTRE CRER OU PENSAR
Uma boa parte de nós, não consegue escrever;
Outro tanto, nem mesmo sabe ler
E a grande maioria é incapaz de pensar.
É mais fácil acreditar
No que se ouve e se vê
Do que tentar entender
E em seguida questionar,
Dessa forma, decifrar
O que querem enfim dizer.
As palavras têm o poder
De convencer e controlar
Ou conhecer e ensinar,
A questão é escolher
Entre crer e pensar.
NOSSOS SILÊNCIOS
Consigo ouvir o seu silêncio.
Ele está entre as letras de um verso,
No anoitecer disperso nas estrelas,
Na lua cheia que observo diante do mar.
Por que você foi se calar?
Sinto falta de sua voz
A me chamar,
A me falar
Que era capaz de ouvir o meu silêncio.
O FANTASMA
Talvez a noite lá fora
Queira que eu saia.
Mas não!
Prefiro a solidão
Dentro de casa,
Pois todos foram embora.
Fiquei na mão
Com a estranha sensação
Que sou um fantasma.
FRASE DE EFEITO
Ao quebrar esse dedo
Que em riste me acusa,
Não me vejo com medo,
Nem me encho de culpa.
Ter a vida oculta
Em mistério e segredo
É reflexo no espelho
De quem a outrem, julga.
Não lhe devo desculpa
Pelo seu próprio erro,
Pois aceito a mim mesmo
Como sendo o sujeito
De uma frase de efeito
Que ninguém mais escuta.
VIAGEM NO TEMPO E NO ESPAÇO
Ao passar o tempo,
Permaneço estático
Olhando o cenário
Que muda tão lento
Quanto o próprio espaço
Onde passo a passo
Vai se encolhendo
E eu mal percebendo.
Mas se ao contrário,
Para longe, viajo
Por mais de um decênio,
Volto abismado,
Boquiaberto, pasmo
Com o que estou vendo.
A AMIGA SALVA-VIDAS
O que me fez pensar que seria fácil?
Achei que amar fosse um regaço.
Foi só um beijo e um abraço.
De repente, numa torrente,
Águas turvas.
Você seminua, me afoga.
Eu sem uma boia,
Caio na sua.
Ela era salva-vidas,
Não é mais.
SABIAMENTE LOUCO
É tarde, talvez,
Para juntar letras
E fazer das mesmas
Palavras fadadas
A serem caladas,
A perderem a voz.
Eu entre vocês,
Único e disperso,
Nunca em cada verso
De um poema só.
Pela timidez,
Demasiado tolo.
Pela lucidez,
Sabiamente louco.
PELA MESMA RÉGUA
Uma se desfaz da roupa
Enquanto espera
Pela outra
Que se despe,
Desinibida e louca.
Numa troca de moeda,
Uma cara, outra coroa.
Talvez pela mesma régua,
Eu meça as duas.
ENTRE PIA E REDE
Na pia, uma pilha de pratos pra lavar.
Numa rede, o homem dela a balançar.
Quando então, se põe a pensar:
Se o homem é meu,
Vou pô-lo na pia em meu lugar
E pra rede, vou eu.
MENSAGEM ADULTERADA
Não importa o que ele disse,
Mas o que se entendeu.
A mensagem não morreu,
Foi deturpada.
O mundo não depende de quem fala
Tanto quanto de quem cala
E consente
Que a mensagem adulterada,
Siga em frente.
SEM SERVENTIA
Nessa vida, vivo à toa
Sem saber o que fazer.
Talvez tenha que escolher.
Mas qual a minha escolha?
E diriam que eu tenho a vida boa.
E se a vida não é boa, o que fazer?
Se um dia vou morrer,
Que ironia,
Outro ser sem serventia
Irá nascer.
MIRA SEM ROSTO
Sob essa mira sem rosto,
Esse maldito desgosto
Que nos almeja
Feito uma seta que acerta
No que cada um deseja
E que sobeja
Nossa inveja e mau gosto.
DESEQUILIBRADO
Junto os cacos dos meus pratos
Que eram quatro ao todo.
E de fato, nesse caso,
Talvez sejam poucos.
Mas se acaso, eu fosse outro,
Eu seria um astro
Por demais exposto;
Um equilibrista louco
Que perdeu o gosto pela atuação
Com as mãos no rosto
E a bunda no chão.
NUDES
Não disputo o resultado
Da vida em vicissitude.
Minha única atitude
É permanecer calado.
Em meu retrato falado,
Há silêncio e quietude.
Irreconhecível nudes,
Quase invisibilidade.
LEMBRAR PARA QUE
E me vem à lembrança:
Lembrar para que,
Se tudo será esquecido?
Boca, olhos e ouvidos,
Dirimidos em palavras,
Deletados em conversas.
O que ainda resta de mim,
Do que eu era,
Depois de anos de espera
Pelo meu fim.
Fizeram tantas promessas,
E mesmo assim,
Desnecessárias.
Juraram, deram a palavra,
E no fim nada,
Nada que enfim,
Não atenda aos seus interesses.
DISPERSOS
Nossas lágrimas inundam nossos olhos
E afogam nossas mágoas.
Nossas bocas gritam loucas
E salivam nosso tédio.
Nosso pânico é disperso
Nos excessos do alvoroço.
E apesar do nosso esforço,
Somos no todo, dispersos.
ENTRE ALMAS
Essa noite andei ao acaso,
A um destino certo.
Num lugar incerto,
Em um ponto exato,
Encontrei, eu acho,
O que não procurava.
De pé na calçada,
Eu olhei pra baixo
E vi o telhado
De uma antiga casa.
E lembrei que estava
No sobrado velho,
Próximo ao cemitério...
Chega de mistério!
No antepenúltimo verso?
Fica inacabada.
Calma, tenha calma,
Eu ainda a espero.
Onde eu estava?
No sobrado velho,
Próximo ao cemitério...
Ah! Onde, que inferno!
Fomos sepultadas.
QUE OS OUTROS CONTEM
Ante a incerteza do amanhã,
Viva o seu hoje.
Não espere por um futuro,
Faça-o agora,
Enquanto enfim, comemora
Suas conquistas de ontem.
Seus dias somem
Por entre dedos de prosa.
E a sua história,
Que os outros contem.
DIA DOS MORTOS
Os meus mortos
Não me esperam nesse dia.
Vivo, não visitaria
Os seus ossos.
Não me vejo com remorsos,
Nem me arrependeria,
Pois respiro alegria
E lembranças dos mais próximos.
Os mais moços
Vão trazendo suas características,
Tanto físicas
Quanto de comportamento.
E assim, eu vou revendo,
Dia a dia,
Cada membro da família,
Renascendo.
CAIS DOS ESQUECIDOS
Pare de chorar um pouco,
Pelo morto que se vai
Para o cais dos esquecidos
Entre prantos e gemidos,
Entre gritos, entre ais
Como todos os demais.
Pois no cais dos esquecidos,
Pode dar-se por perdido.
Em um dia, ser um vivo
E em outro, não ser mais.
ALGUÉM BATE À PORTA
Um beijo deixado no lábio
Da boca molhada e aberta
De quem sonha acordado
Em um banho demorado,
O eterno namorado
À espera da donzela.
De repente ele desperta:
Alguém bate à porta. É ela!
-Você pega um resfriado.
Diz sua mãe do outro lado.
RESUMO TRÁGICO
Eu vou passar a limpo
Meus traços pessoais,
Meus ais com os demais.
Em um resumo trágico,
Eu vou bancar o mágico
E dá sumiço aos tais.
UMA LONGA NOITE
Uma noite tão longa, a espera
De quem foi, de quem é, quem me dera
Minha única e eterna amada.
Na penumbra da sala,
Luz de vela.
Sobre a mesa arrumada,
Um arranjo de flor.
Uma cadeira ocupada
Talvez, por um fantasma
Que morreu por amor.
QUEM MAIS FAZ FALTA
Pelo silêncio da casa,
Procuro por sua voz.
Você é a parte de nós
Que mais faz falta.
Pela janela aberta,
Olho lá fora.
Mas aqui dentro, quem mora
É a espera
Que a porta se abra
E eu veja entre lágrimas,
Você de volta.
TALVEZ APENAS CANSAÇO
Porque navalho os meus braços
Em um anseio febril,
Se chego ao mês de abril,
Acreditando ser março.
As cicatrizes, disfarço.
Não justifico o que fiz.
Não é por ser infeliz.
Talvez, apenas cansaço.
O tempo passa, eu não passo.
Eis que a angústia quer bis
E em cada vã cicatriz,
Um novo risco, refaço.
E vou assim, traço a traço,
Riscando os meses em mim.
OUSADA
O que faço agora
Se é tão tarde a hora,
Se ainda queima e arde
Quase em toda parte
Tamanha saudade
Por ter ido embora?
Ousou ainda me dizer:
Nunca esqueça de você
Quando se lembrar de mim.
Pois só assim,
Você vai me esquecer.
SINTO TANTO
Enquanto
Eu conto
Que encanto
Quando canto,
Sinto tanto
Pelo quanto
Que não sinto
Quando minto.
MAU GOSTO
Essa história de que a vida ainda é pouco
É o que me deixa louco.
Fala sério,
Uma opção de eterno
Para um morto.
Uma abstração sem rosto
Entre um céu e um inferno
É no mínimo
Em aspecto,
Um mau gosto.
ENTRE MORTAS E FERIDAS
Toda queda dar por terra
E a terra por perdida.
Entre mortas e feridas,
Nos escombros de uma guerra,
Resta a luta pela vida:
Um lado pede comida;
O outro, a nega.
POR ENTRE OS DEDOS
Deixei o tempo passar
Por entre os dedos.
Ficaram mágoas e erros
Na palma de minha mão.
Fechei o punho em vão,
Tentei sustê-los.
Jamais seriam os mesmos,
Meus dias não voltarão.
SONETO DO PEQUENO DESEJO
Quanto eu queria esquecê-lo.
Agora procuro me lembrar.
A idade tende a realizar
Algum pequeno desejo.
Seria tão grave erro
Ou mesmo, dá pra pensar,
O medo de se afogar
Num mar de dor e desespero?
Seria um vil pesadelo
Do qual tentava acordar,
Mas continuava a assombrar
Meu outro dia inteiro
E longe do travesseiro
Teimava em se realizar?
AMAR EM SILÊNCIO
Da minha boca pra fora,
Falo o que quero.
Do coração para dentro,
Eu te espero.
O meu amor é sincero
Quando se cala.
A minha fala é falsa,
Então eu nego.
Você desfaz o deserto
De minha alma
E me liberta, me acalma
Nesse inferno
De desejar ser eterno
Enquanto tudo se acaba.
MEUS DEUSES
Os meus deuses são mortais.
Mas permanecem reais
Enquanto lidos.
Os meus deuses são pacíficos
Por demais,
Choram os mais tristes ais
Em seus escritos;
Não elegem favoritos,
Nem exigem rituais.
São imortais
Entre as páginas dos seus livros.
AO FALAR DE MIM
Eu me quebro em osso
E me corto em pele
E me dejeto em verme
E me cego em olho.
Eu respiro o pouco
Que o nariz me serve.
Minha boca bebe
Meu suor do rosto.
Meu juízo é louco.
Meu silêncio é verbo.
E por ser reflexo,
Sou igual no oposto.
DESABAFO NA ESTANTE
Entre traças, esquecido
Numa velha estante.
Ninguém lembra que antes
Eu fui lido e relido.
O que houve comigo
Ou com o jovem estudante
Que se mantém distante
Do mais útil amigo,
O imprescindível livro?
LUZ AMARELA
Tantas vidas dispersas
Pelas casas alheias
Sob tetos de telhas
E janelas abertas;
Suas calçadas desertas
Pelas ruas estreitas
Onde a lua espreita
Com sua luz amarela.
UM POUQUINHO MAIS DE TEMPO
Se no decorrer da vida,
Eu pudesse ter
Um pouquinho mais de tempo
Para conviver,
Não teria um porquê
Pelo qual me arrepender
Do que deixei de fazer
Pela pressa de passar.
Hoje, me ponho a olhar
Para o que deixou de ser
Por não esperar você
E tanto correr
Com a ânsia de chegar.
POR SER ASSIM
O que sou em mim,
Senão eu mesmo?
Por haver começo,
Se dará meu fim.
Uma vez, enfim,
Eu preciso sê-lo;
Não por meu apelo,
Mas por ser assim.
OS PRÓXIMOS
Não choro meus mortos,
Eu os enterro.
Choro por meus vivos,
Por não serem eternos,
Por correrem o risco
De serem os próximos
Num caixão de ossos
Sob o cemitério.
Não tem um remédio
Para seus remorsos.
Pelos seus esforços,
Não há nenhum crédito.
MAIS UM DIA
A noite hoje, será tão longa
Quanto ontem foi o dia.
Sem a sua companhia,
O sono anda
De mãos dadas com a melancolia.
A vigília
Se agita com a ânsia.
E quem paga a conta
É a manhã que já desponta
Em mais um dia.
RETRATO EM AQUARELA
Disperso nas letras que componho,
O meu amor eu disponho
Num jantar à luz de velas.
As notas seriam pérolas;
A música, um colar de contas.
A voz já nem se dá conta
De que o ouvido, a espera.
De quem seria a tela,
Retrato em aquarela
Que tanto encanta?
Os passos pedem a dança,
Mas sob a mesa, descansa
O mais belo par de pernas.
SERVIDÃO
Estou atrás do volante
Com o carro estacionado
A espera que o último ocupante
Deixe o táxi liberado.
Expediente encerrado,
Sigo para o lar distante.
No espelho, o semblante
É de quem está cansado.
Nova espera no semáforo,
Segue o trânsito.
Sou um condutor anônimo,
Um escravo do trabalho.
N95
Apesar da máscara no rosto,
Eu percebo seu esforço
Para me ocultar o sorriso.
Ao se proteger do risco,
Você disfarça seu gosto.
Se eu não fosse assim,
Tão moço,
Talvez fosse enfim,
O escolhido.
SOLILÓQUIO
Dizia cada palavra
Com uma voz de certeza.
Talvez cresse que as mesmas
Seriam-me ouvidas com calma.
O meu sorriso tinha lágrima.
A minha dor, uma pureza.
A chama da vela acesa,
Não me queimava
E a taça me esvaziava,
Abandonada na mesa.
QUATRO DE OUTUBRO
Meus cabelos vão pintando
Aos poucos, preto em branco;
A cada ano,
Todo quatro de outubro.
Vou pisando no escuro,
Mesmo olhando;
Vou andando,
Tateando o futuro.
Os meus olhos, os perfuro
Com nuances do agora.
Minha dor não incomoda
Tanto quanto meu augúrio.
Os meus anos, os desnudo
Pelas horas.
E a noite me apavora
Como quem está sonhando
E acorda no escuro.
UM EXEMPLAR FALCIFORME
Por tantas horas de sonho,
Eu não encontro comigo.
Não sei se escuto, se falo;
E se me calo, gemido.
Na solidão é preciso
Se desfazer do que pensa,
Talvez as dores atentas
Aos meus sentidos.
Deveras, sonho comigo
Em muitas noites, além.
E não encontro ninguém
Aquém do meu endereço.
As cartas que já não leio
São os modernos e-mails,
Os meios que ainda tenho.
Volto a me ver no espelho
Que o tempo me dissecou
De filho a pai, a avô.
Eu sou da cor que me vejo.
Em meio ao meio em que vivo,
Entre modelos precisos,
Um exemplar falciforme.
A minha cara disforme
Tem um olhar de desejo
Ao que é sobejo.
Na boca, o último beijo
No qual comia a terra.
Cá dentro, o caixão me encerra.
Lá fora, há medo.
O ENGENHEIRO
O que faço dessas horas
Tão senhoras de si mesmas.
Como apresso essas lesmas
Na espera com demora.
E na rapidez do agora,
O que faço pra detê-las?
Pois necessito retê-las
Para execução das obras.
NINGUÉM SABE QUANDO
Será que é o último ano
Mês, semana ou dia?
Mas o que me alivia
É que ninguém sabe quando.
A vida vai me ensinando,
Talvez de forma tardia,
Que tudo que eu não previa
Deflagro se consumando.
Muitas vezes o que é plano,
Jamais concretizaria.
Noutras, mera fantasia
Se realiza, me espanto.
BEM MELHOR
Talvez, eu tenha a resposta;
Mas não consiga explicar.
Bem melhor deixar pra lá.
Você não vai entender
O que tenho a dizer,
Mesmo que eu teime em falar.
Bem melhor será calar.
Pare de se comportar
Como se houvesse prova.
Não há sentido nem lógica.
É questão de acreditar.
Como eu não acredito,
Fica o dito por não dito.
Bem melhor deixar pra lá.
FRACIONADOS
Meça um terço do que faço
No quarto inteiro,
Entre nossos travesseiros.
Eu em você, me desfaço
Entre sonhos e abraços
Num recomeço.
Sua boca pede beijo,
Seu olhar confirma: faço.
Entre pernas, um compasso
De nós mesmos.
Fracionados
Eu e você, um nó desfeito.
SOLIDÃO ATROZ
Os degraus dormentes sob meus pés
Enquanto subo a escada
Em direção a sacada
Onde estaríamos nós.
Na lembrança, sua voz,
O cheiro dos seus cabelos,
Os seus olhos no espelho.
Oh! Que solidão atroz.
O que faço eu sem nós?
Tenho medo
De acordar do pesadelo
Ainda só.
À PRÓPRIA SORTE
O seu beijo longo e quente
Na frieza dessa noite,
Feito a lâmina da foice
Que simboliza a morte,
Dá a sensação de um corte
Decepando minha alma.
Mesmo assim, mantenho a calma
E me entrego à própria sorte.
PASSOS DE VIGÍLIA
Assombro a casa à noite
Com meus passos de vigília.
A geladeira vazia
Não me satisfaz a fome.
Do quarto, escuto meu nome.
Se fosse eu, um sonâmbulo
E houvesse perdido o sono,
Eu mesmo o procuraria.
Ficam para o outro dia
Minhas horas de descanso.
Volto pra rede e balanço
Os sonhos que eu teria.
ZONA DE PERIGO
Levantei tantas paredes
Quantas fossem necessárias
Para me insular do mundo.
Mas há portas e janelas
Que precisam ser abertas,
E assim, entra o perigo.
Como estar protegido?
Corro risco dentro ou fora.
Ou decido ir embora
Ou obstinado, fico.
APESAR DE ALQUEBRADO
Quem diria que eu chegaria aqui,
Apesar de alquebrado.
Os meus passos foram dados
Em direção ao porvir.
Quanto tive que sentir.
Tantos foram os obstáculos.
Pelos anos, ao acaso,
Fui deixado a existir.
Alguns sonhos, vi ruir.
Outros, pude realizá-los.
Apesar de alquebrado,
Quem diria que eu chegaria aqui.
DESPERTO
Esse sangue que brota,
Jorra do peito que sofre.
Uma dor que disforme,
Muda a face que chora.
A cortina se dobra
Pelo vão da janela.
Sua mão, não a dela
Que está presa na corda.
O ciúme, o transtorna,
Ele se joga na mesa.
Há uma vela acesa
Que o queima e o acorda.
SIMPLES DIÁRIO
Eu recortei figuras de uma revista
E as colei em meu caderno em meio as pautas.
Um dos recortes, parecia um astronauta
Ou talvez, fosse a foto de um escafandrista.
Fui ao espaço e mergulhei no mar profundo.
E via o mundo em meio a fotografias.
Enquanto o grafei nas linhas em cursiva
Fui deixando viva a memória, em rascunho.
Simples diário de criança que crescia
E percebia o quanto tudo era estranho.
Que não havia uma medida em tamanho
Que pelos anos, não mudasse o que se via.
Tornei-me guia de mim mesmo pela estrada.
Aonde os passos me levavam, não sabia.
Mas, persistia e só a minha voz, ouvia.
Até o dia em que finda minha jornada.
OLHO NO OLHO
Todo tempo ainda é pouco
Para o nosso amor tão louco
Quanto possa ser.
O que fazer
Se eu e você,
Fomos feitos um para o outro?
E se nascermos de novo,
Ao olharmos olho no olho,
Vamos nos reconhecer.
UM ATO DE GRANDEZA
Sua rede no alpendre, o permite observar
Os detalhes do lugar
Até aonde alcançar sua vista.
Há um carro de polícia
Que outros querem ultrapassar,
Lentamente, devagar na mesma pista.
Cada um que dobra, pisca
Ou deveria piscar.
Entre a casa do major e do artista,
Há um carro a esperar.
Não se sabe quem.
Muito além,
Dá pra imaginar o mar.
Pois a rua aonde está,
Não permite ver a praia.
Ver o lixo que se espalha
Ao redor da sua casa,
É de dar muita tristeza.
Por saber que essa vileza,
Essa ação torpe e maldosa,
Foi de um vizinho dali
Que antes mesmo de partir,
Deu essa prova
Que tem péssima educação.
E cuidando de antemão,
Ele se põe à limpeza.
Olha a rede que o espreita,
Quase a ouve lhe chamar.
Mas precisar terminar
O seu ato de grandeza.
O DESCASO
O que mais prezo é o silêncio,
Algo raro atualmente.
A surdez numa linha ascendente,
Está mudando o nosso tempo.
Por onde andam o bom senso
E o bom gosto musical?
Todo dia é carnaval
Com tambores barulhentos,
Com cantores sem talento
E o ouvinte tolamente irracional.
Mais parece um ritual
De canibais na floresta.
Como um vírus que infesta
A população geral,
O descaso é fatal.
Leva um ser que é racional
A se tornar uma fera.
CONSCIÊNCIA LÚCIDA
Sinto as dores da existência
Nos sabores dos sentidos.
Ouço todos os gemidos
De tão lúcida consciência.
Que dirão em minha ausência:
Não sofreu sem correr risco
E em seu último suspiro,
Não havia um pedido
De clemência.
INVOLUÇÃO
Alcançamos um tal nível
Na ascensão musical,
Desde uma melodia genial
A uma voz inconfundível;
Uma letra inexprimível
E um ouvinte especial.
O que houve com a música atual
Pra tamanha decadência?
Se hoje, canta o que se pensa.
Não se pensa, afinal.
Numa involução mental,
Voltaremos às cavernas
Com tambores entre as pernas
E a voz, som gutural.
O ACHADO
Não apenas uma escolha,
Foste um achado no caminho.
Eu andava tão sozinho
Como qualquer outra pessoa,
Indiferente e à toa.
O sorriso que eu vi em sua boca,
Comparando com carinho,
Parecia um passarinho
Quando cai do ninho e voa.
O QUE QUER FAZER?
Faça L, B ou C;
Faça o que quiser fazer.
Preto e branco ou colorido,
Não depende de partido,
Todo e qualquer político
Está pensando no poder.
Todo e qualquer político
Vê seu voto, não você;
Faça L, B ou C.
DOS BEIJOS CASTOS
Era você numa carta
Sem destino
Que encontrei por acaso.
Talvez apenas um caso,
Um desatino
De um viúvo sepultado
No seu quarto de casado,
Tão amargo e tão sozinho.
Ao me lembrar de seus lábios,
A minha boca sente a outra,
Dos beijos castos.
SEU JEITO
Ora!
A minha porta tem rótulas
Que me deixam perceber
Um mundo além de você,
Antes de abri-la pra rua.
A vida aqui, continua.
Teimo em viver
Sem jamais me esquecer
Tanta falta de ternura.
Que fazer, se não há culpa;
Se é o seu jeito de ser;
Se não sabe o que fazer
Quando lhe peço ajuda?
OS SONHOS MAIS BONITOS
Eu procuro pela casa,
Os meus sonhos mais bonitos;
Mesmo os quase esquecidos.
Porém, não encontro nada.
Vasculhando cada quarto,
Entre móveis, entre tralhas
Vou revendo as estradas
Dos meus anos.
Foram tantos os encantos
E aventuras engraçadas
Que esqueci que procurava
Os meus mais bonitos sonhos.
VERSÕES DE NÓS
Andando pelas ruas onde moro,
Exploro rostos que passam ao lado.
Serão cópias de mim ou ao contrário,
Eu seja a versão de seus remorsos?
O que posso fazer se em meus esforços
De vê-los se livrarem do cansaço,
Acabo por perder-me no embaraço,
Permaneço calado, portanto, choro.
A condição de ser mero devoto
Mantém cada indivíduo aprisionado
A uma multidão de condenados
A viver reprimidos em seus corpos.
Por que será que tanto me importo?
Talvez por me ver neles, confinado.
Enquanto sou o mais fiel retrato
Da face que teriam seus opostos.
OS MEIOS
O fascínio, a dúvida e o medo
São meios para eu me despir
Da decepção por vir,
Da certeza em um erro,
E da audácia a me ruir.
O que faço a me iludir
Comigo mesmo,
Se conheço cada torpe e vil segredo
Sem poder me corrigir.
NEM, NEM
Todo tempo de espera é taciturno
Quando o turno está longe de acabar.
Tantos anos, eu estou a trabalhar
Que cansei de quase tudo.
Meus ouvidos estão surdos
Dos barulhos que tiveram de escutar.
Meus joelhos já me fazem vacilar.
O enfado nos meus braços, um absurdo.
No país em que um jovem carrancudo
Nem trabalha, nem se dispõe estudar
E um idoso continua a batalhar
Sem poder se aposentar é um abuso.
NO CHÃO DA SALA
Adormeço no chão da sala
Rabiscando pensamentos.
Talvez, fossem sentimentos
Que perdi quando sonhava.
Eu estaria desperto
Num deserto de palavras?
Ou simplesmente acordava
Sob uma chuva de espectros?
O caderno estava perplexo,
A caneta se calava,
E o silêncio se encantava
Com o oceano de versos.
MEU EMBARAÇO
Os meus dias são marcados
Pelo tédio e a esperança
E por diversas lembranças
Do mais remoto passado
Jamais seriam dourados
Recheados com mudanças
O meu dia a dia alcança
Pouco mais que o meu braço
E de abraço em abraço
Vou medindo a distância
De minha tenra infância
Ao que agora, eu faço:
Que é viver no embaraço
De quem todo dia, conta
E que a ninguém encanta
Por jamais ser escutado
A PESTE
Por que matamos outras espécies
Pelo incômodo que nos dão?
Qual seria a razão?
Talvez, por nós sermos a peste.
Aquilo que já não nos serve
Perde nossa compaixão.
Tudo que nos vêm à mão,
Serve pra livrar os vermes
De sua triste condição.
Somos reis da criação,
Dizem os que a um deus servem
Antes que os mestres neguem:
Ápices da evolução.
Mas na minha opinião
Que não vale um tostão:
Nós é que somos a peste.
OU PATRÃO OU EMPREGADO
O patrão tem um sanitário
Que é um luxo, requintado.
Também tem um, o empregado,
Que está sempre ocupado.
Mas na hora do serviço necessário,
Ambos ficarão sentados
A espera do esperado,
A própria merda.
QUEM, EU?
Na ausência de mim,
Sou anônimo e estranho,
Desconheço meu sonho
E acordo, enfim.
Seja eu quem (eu) for,
Sem saber qual de mim,
Reconheço no fim,
Que não o sou.
Isso de ser eu, sem sê-lo;
Talvez, seja por medo
De encontrar a mim mesmo
E ir embora.
E quem sou eu, agora?
Ora!
Meu reflexo no espelho.
PELOS COTOVELOS
Falo de tudo um pouco.
Seja do são e do louco,
Do bom e do que é ruim.
E até mesmo de mim.
Desde o começo ao fim,
Falo do ontem, do outrora,
Também do hoje, do agora,
Do próprio tempo e das horas.
Eu falo tanto, assim?
Literalmente, em resumo
Falo de Deus e do mundo.
Enquanto falam de mim.
DENTRO DE MINHA ALMA
Eu jamais estou sozinho,
Pois por todo o caminho,
Tenho a sua companhia.
Lembranças do dia a dia,
De quando você sorria,
De quando você chorava.
Sei que ao chegar em casa,
Logo ao abrir a porta,
Vou ouvir sua resposta
Antes mesmo de indagá-la.
A TV, deixei ligada;
Pois você assim fazia.
Na sala, mesmo vazia,
Sua recordação me abraça.
Cada cômodo, retrata
Uma cena de sua vida.
E assim, a mantém viva,
Renascida em minha alma.
O DINHEIRO
O dinheiro compra tudo.
Compra quase todos nós.
Compra lixo, compra luxo.
Até cobertores sujos
Como os mais finos lençóis.
O dinheiro, na verdade,
Só não compra dignidade,
Geralmente a destrói.
AGRADECER?
Agradecer à vida
Por tudo que tem me dado?
Ou talvez, eu tenha achado
Ou buscado com afinco.
Na verdade, o que eu sinto
É uma enorme tristeza;
Sobra comida na mesa
E tantos outros, famintos.
O que tenho a agradecer
Ao ver tanto padecer,
Sem ter vergonha ou culpa
Ante a estúpida desculpa
De que fiz por merecer?
Ninguém precisa sofrer,
Viver de pedir ajuda
Enquanto mesmo na luta,
Temos para oferecer.
Agradecer por eu ter
Tudo que falta a você,
Não é a conduta justa.
A COMPANHIA
Não tenho planos, lamento.
Eu vivo cada momento,
Meu eterno dia a dia;
Geralmente de alegria
Por cada amanhecer
E por ter sempre você
Como minha companhia.
Thoughts
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PermalinkPerder as horas de verdade é ficar com gente que te faz não contar os minutos.
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Permalink✨
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PermalinkA gente perde as horas com quem importa e só depois é que percebe o tempo que deu.
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PermalinkQue forma de pensar!
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PermalinkIsso. Horas perdidas com gente que importa é como a gente mede o que realmente conta.
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PermalinkPerder as horas é saber onde você quer estar.
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