Fui casado com J. durante dez anos. Nesse período, tive algumas idas e vindas de empregos, e isso foi deixando ela cada vez mais insatisfeita. Até que um dia ela me mandou embora da sua vida.
Fui morar sozinho, nos fundos da casa da minha mãe.
Sozinho.
E isso, de certa forma, foi uma bomba dentro de mim.
Mas o pior ainda estava por vir.
Depois de ter voltado de uma ida ao centro de Porto Alegre, recebi a notícia da morte da minha mãe.
Aquele foi o pior dia da minha vida.
E, naquele momento, eu ainda teria que enfrentar tudo aquilo cercado por pessoas que, para mim, eram como sanguessugas ao redor dela. O clima era horrível. Pessoas falsas, algumas derramando lágrimas diante da morte de minha mãe, mas que, aos meus olhos, pareciam lágrimas de sangue.
Eu olhava para aquilo tudo e não conseguia separar a tristeza da revolta.
Minha mãe estava morta.
E aqueles que estavam ao redor dela agora pareciam disputar até o espaço deixado pela sua morte.
Era como se a morte tivesse arrancado a última proteção que ainda existia.
Eu tinha perdido o casamento.
Tinha perdido o rumo.
E agora tinha perdido minha mãe.
A solidão dos fundos daquela casa já não era mais a mesma.
Agora havia um vazio que não cabia dentro de quarto nenhum.