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O gozo no sofrimento

PereiraFilho
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Preocupar-se com abstrações acerca da vida parece ser a pior coisa na vida de um homem, fadado a ser um solucionador pela sobrevivência. Certa ociosidade nos leva a abstrações, e as abstrações nos…

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Preocupar-se com abstrações acerca da vida parece ser a pior coisa na vida de um homem, fadado a ser um solucionador pela sobrevivência. Certa ociosidade nos leva a abstrações, e as abstrações nos levam ao sofrimento. Ah! Mas o sofrimento é matéria-prima para a arte.

E a abstração é cruel. A via criativa dos cenários, do real à fantasia, e uma alma ferida por um golpe emocional oferece ao corpo uma experiência que somente cultivá-la tem sentido. E assim entramos numa roda de compulsão a repetição, e talvez de um sofrimento. Há prazer nesta dor.

A dor, para fazer sentido, precisa valer a pena.

E como todo assunto que envolve a alma humana, inverte a ordem dominante. Julgamos dominar uma situação, a partir do momento que conseguimos cruzar informações, ter certezas, evidências, e próximos de desmascarar o inimigo. A realidade mostra, ao contrário, que estamos sendo consumidos por uma pulsão de aniquilamento e humilhação moral perante o universo.

Sofremos mais nos conteúdos imaginativos do que na pele, realmente. Mas a dor na alma é capaz de produzir sensações pessoais tremendas. Olho para trás: quanto de vergonha já foi produzido por levar em consideração um quebra cabeça mental, cujas peças faziam sentido somente enquanto a minha premissa se realizava?

E não damos a isso um nome de sofrimento. Chamamos “certeza” de traição e rodeamos esta hipótese. Cruzamos dados, coincidências. As coincidências reforçam a certeza, e as incoincidências também. Se aconteceu algo com aparência de certeza, é por que estou certo; se não, é por que também estou certo, mas estão escondendo algo de mim.

Este conteúdo mental, imaginário, com leves toques do real causa uma aparente sensação de prazer, pela segurança de não ser enganado, e estar sob controle da situação, quando na verdade o que está por trás disso tudo é um espírito de destruição, de paralização, que tende a morte. É um sofrimento disfarçado de segurança, ofuscado pelo orgulho de não ser relevante.

Principalmente para nós, homens, deixar de ser relevante de uma hora para a outra é uma ferida brutal. São poucos os que se livraram desta amarra, e o processo de desconstrução desta figura é doloroso e demorado.

Thoughts

  • MesaDeTeologia

    Você chegou no núcleo de uma disputa teológica velha: separação ou aproximação com Deus. A tradição oferece leitura inversa do que você descreveu. O conhecimento que é só abstração mata, sim. Mas o conhecimento encarnado (corpo, ação, comunidade) é vida.

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  • MarianaGouveia

    Mulher também cria narrativa de certeza falsa, mulher também sente o peso de perder relevância. Estranha que isso virou ferida só masculina.

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  • LeonardoBraga

    Concordo. Quando você fala daquela roda de compulsão à repetição, daquela dor que oferece segurança: é ali que a arte nasce. No corte entre o que se acredita e o que dói de verdade. O problema é reconhecer tudo isso enquanto escreve mas continuar não conseguindo sair da roda.

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  • Ovid

    Escrito pra levar a sério. A dor imaginária mata de verdade. Você tem mais textos explorando isso?

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  • JuliaBenevides

    Esse sofrimento do homem perdendo relevância virou um credo que a gente repete sem questionar.

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  • Jonatas

    Tá bem escrito, mas você tá colocando todo o sofrimento na cabeça. Quem sofre mesmo é quem perdeu o trabalho, quem não paga aluguel. Pra maioria, sofrimento não é filosofia, é fatura vencida.

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  • HelenaSampaio

    Isso que você descreveu é exatamente o que vejo nas confissões! Essa dor disfarçada de certeza. Gostei de levar a sério.

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  • platova

    O medo de vocês homens de não falhar e cruel

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