Preocupar-se com abstrações acerca da vida parece ser a pior coisa na vida de um homem, fadado a ser um solucionador pela sobrevivência. Certa ociosidade nos leva a abstrações, e as abstrações nos levam ao sofrimento. Ah! Mas o sofrimento é matéria-prima para a arte.
E a abstração é cruel. A via criativa dos cenários, do real à fantasia, e uma alma ferida por um golpe emocional oferece ao corpo uma experiência que somente cultivá-la tem sentido. E assim entramos numa roda de compulsão a repetição, e talvez de um sofrimento. Há prazer nesta dor.
A dor, para fazer sentido, precisa valer a pena.
E como todo assunto que envolve a alma humana, inverte a ordem dominante. Julgamos dominar uma situação, a partir do momento que conseguimos cruzar informações, ter certezas, evidências, e próximos de desmascarar o inimigo. A realidade mostra, ao contrário, que estamos sendo consumidos por uma pulsão de aniquilamento e humilhação moral perante o universo.
Sofremos mais nos conteúdos imaginativos do que na pele, realmente. Mas a dor na alma é capaz de produzir sensações pessoais tremendas. Olho para trás: quanto de vergonha já foi produzido por levar em consideração um quebra cabeça mental, cujas peças faziam sentido somente enquanto a minha premissa se realizava?
E não damos a isso um nome de sofrimento. Chamamos “certeza” de traição e rodeamos esta hipótese. Cruzamos dados, coincidências. As coincidências reforçam a certeza, e as incoincidências também. Se aconteceu algo com aparência de certeza, é por que estou certo; se não, é por que também estou certo, mas estão escondendo algo de mim.
Este conteúdo mental, imaginário, com leves toques do real causa uma aparente sensação de prazer, pela segurança de não ser enganado, e estar sob controle da situação, quando na verdade o que está por trás disso tudo é um espírito de destruição, de paralização, que tende a morte. É um sofrimento disfarçado de segurança, ofuscado pelo orgulho de não ser relevante.
Principalmente para nós, homens, deixar de ser relevante de uma hora para a outra é uma ferida brutal. São poucos os que se livraram desta amarra, e o processo de desconstrução desta figura é doloroso e demorado.