Ele sabia que algumas marcas não saem da pele de jeito nenhum. A gente estuda isso aqui na cadeira.
Pastor da Ovelhas Negras
Meu rebanho era feito de sombras. De amargura.
Em séries
Pensamento
Ele sabia que algumas marcas não saem da pele de jeito nenhum. A gente estuda isso aqui na cadeira.
Conteúdo da publicação
O campo era seco.
A terra rachada se abria sob meus pés como se o próprio mundo estivesse cansado de sustentar o peso do que eu carregava. O pasto havia queimado havia muito tempo, e o cheiro de fumaça parecia ter se impregnado para sempre no ar.
Eu não tinha cajado.
Não tinha coroa.
Não tinha reino algum.
Os outros pastores conduziam rebanhos de lã branca e limpa, animais dóceis que pastavam em colinas verdes sob a luz tranquila da manhã.
O meu era diferente.
Meu rebanho era feito de sombras.
De amargura.
De tudo aquilo que tentei enterrar e nunca permaneceu enterrado.
Minhas ovelhas eram negras.
Não porque nasceram assim...
mas porque foram manchadas por mim.
Elas não produziam lã.
Não davam carne.
Não serviam para sustentar ninguém.
Viviam apenas para caminhar atrás de mim.
Dia após dia.
Noite após noite.
Sempre presentes.
Sempre famintas.
E o alimento delas era aquilo que eu mais tentava esconder.
A culpa.
Elas se alimentavam dos meus erros antigos.
Das mentiras que contei para salvar minha própria pele.
Das promessas frágeis que fiz e destruí com minhas próprias mãos.
Dos nomes que decepcionei.
Dos amores que abandonei.
Das versões de mim mesmo que traí.
Cada erro tomava forma.
Cada arrependimento ganhava olhos escuros e passos silenciosos.
E assim meu rebanho crescia.
Pesado.
Silencioso.
Infinito.
Eu caminhava, e elas vinham atrás.
Sempre.
O som de seus cascos contra a terra seca era como uma sentença repetida sem descanso.
Lembrando-me de tudo.
Lembrando-me de quem fui.
Lembrando-me do que fiz.
Eu era o pastor das ovelhas negras.
Guardião das minhas falhas.
Sentinela dos meus pecados.
Um homem encarregado de vigiar as ruínas que construiu com as próprias mãos.
Durante muito tempo pensei em abandoná-las.
Abrir os portões.
Virar as costas.
Fingir que nada daquilo me pertencia.
As pessoas diziam que eu precisava me perdoar.
Que bastava seguir em frente.
Lavar a alma.
Recomeçar.
Como se a culpa saísse com água.
Como se arrependimento desaparecesse com o tempo.
Mas quem cuidaria delas se eu partisse?
Quem assumiria aquilo que eu criei?
Afinal...
elas eram minhas.
Filhas do meu pior lado.
Pedaços vivos daquilo que tentei negar.
Se eu fechava os olhos para esquecê-las, elas derrubavam cercas.
Se eu fugia, elas me encontravam.
Se eu tentava amar alguém...
elas cercavam minha casa durante a noite.
Nenhuma pessoa entrava.
Nenhuma pessoa saía.
Elas protegiam minha solidão com devoção cruel.
E eu passei a entender algo terrível:
elas não eram apenas meu castigo.
Eram minha companhia mais fiel.
Minha guarda.
Minha prisão.
A herança viva de tudo que destruí.
Até os lobos evitavam meu campo.
Eu os via ao longe, observando da escuridão.
Mas nenhum deles se aproximava.
Talvez reconhecessem algo pior em mim do que fome.
Talvez soubessem que homens como eu já foram devorados por dentro há muito tempo.
Porque uma alma como a minha...
já sangrou tudo o que tinha para sangrar.
Thoughts
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PermalinkUma história que a gente leva pra cadeira de cliente sim. Pessoal vai entender.
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PermalinkMeu relógio parou mas a leitura continuou na cabeça.
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PermalinkPesado demais pra segunda de manhã. 🖤
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PermalinkSe ele abrisse os portões de verdade, essas ovelhas iriam embora ou já tinham tomado conta dele?
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PermalinkEle sabia que algumas marcas não saem da pele de jeito nenhum. A gente estuda isso aqui na cadeira.
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PermalinkSexta de pesar mesmo. Vou passar o fim de semana com essas ovelhas dele no peito.
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PermalinkDentro daquela solidão dele, qual era o tamanho da casa que as ovelhas ocupavam?
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PermalinkAquele peso das ovelhas negras é como corrente velha no fundo da gaveta. A gente sabe que está lá.
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