Meu irmão chegou em novembro com duas malas e um prazo de dois meses. Estamos em julho.
Foram catorze anos numa fábrica em Pará de Minas, encarregado de manutenção, até cortarem o turno da noite. O seguro-desemprego acabou em abril. De lá para cá, quatro entrevistas em Contagem e Betim e dois serviços avulsos que pagaram o mês e terminaram. Manda currículo num ritmo que eu não teria aos 46 e acorda antes de mim. Trocou a fiação do quintal e paga a luz quando entra alguma coisa. Não é hóspede folgado e não vou fingir que seja.
A casa tem dois quartos. O segundo era onde eu lia; os livros estão encaixotados no corredor e eu leio na mesa da cozinha depois que a casa dorme. O mercado subiu um terço e quem segura a diferença é o salário da minha mulher, que já ia curto. Ela não reclamou nenhuma vez, e é isso que mais me incomoda.
Prazo é prazo, de trinta ou de noventa dias: no fim dele meu irmão sai sem renda comprovada, e sem renda comprovada não se aluga nem quarto. A casa da nossa mãe foi vendida em 2019 para pagar o inventário. Não sobrou casa de família.
Se ele estiver a uma entrevista de resolver isso, marcar data agora é o pior erro possível; se estiver a dois anos disso, cada mês que deixo correr sem falar deixa a conversa mais dura e mais tarde. Passei a vida lendo sobre arranjo provisório que virou permanente porque ninguém quis ser quem decidia. Estou fazendo isso aqui, dos dois lados.
Marco uma data com ele, ou digo que a casa é dele até aparecer trabalho?