A casa estava em silêncio.
Um silêncio tão profundo que parecia engolir qualquer som antes mesmo que ele nascesse. O relógio pendurado na parede havia parado horas atrás — ou talvez dias. Eu já não me importava o suficiente para verificar.
Restava apenas eu.
O homem que a vida esculpiu com golpes brutos e mãos impiedosas.
Sentei-me sozinho à mesa da cozinha com uma garrafa quase vazia e um copo que já não contava quantas vezes havia sido preenchido naquela noite.
No fundo do vidro âmbar, eu enxergava sinais.
Fragmentos.
Memórias distorcidas de alguém que caminhou por territórios onde o bem e o mal se confundiam até se tornarem a mesma estrada.
Fechei as cortinas.
Não queria que a noite assistisse ao espetáculo miserável de um homem tentando sobreviver às próprias lembranças.
A guerra que acontecia ali dentro não precisava de plateia.
E eu sabia exatamente contra quem lutava.
Não eram monstros escondidos debaixo da cama.
Não eram fantasmas.
Não eram criaturas sobrenaturais esperando pela minha alma.
Eram piores.
Eram as decisões que tomei.
As leis que quebrei.
Os amores que rejeitei.
As pessoas que feri.
As versões de mim mesmo que abandonei pelo caminho.
Um por um, eles surgiram no silêncio.
Não em carne e osso.
Mas em presença.
Pesada.
Inconfundível.
Arrastaram cadeiras invisíveis e se sentaram ao meu redor como credores pacientes.
Esperando.
Sempre esperando.
Esperando pelo momento em que eu finalmente desmoronaria.
Esperando minha rendição.
Durante anos eu corri deles.
Mudei de cidade.
Mudei de rosto.
Mudei de hábitos.
Mudei de mentiras.
Mas culpa tem faro de caça.
Ela sempre encontra o caminho de volta.
Naquela noite, pela primeira vez, permaneci sentado.
Respirei fundo.
Enchi o copo outra vez.
E murmurei para o vazio:
— Se vieram cobrar... então sentem-se.
Vamos conversar.
Levantei o copo como quem faz um brinde em um funeral.
— Um brinde aos erros.
Bebi.
— Um brinde à dor.
Outra dose.
— Um brinde ao homem que nunca conseguiu mudar.
O líquido queimava minha garganta, mas não mais do que o orgulho que eu carregava.
Orgulho...
o veneno mais elegante que existe.
Eu o bebia sorrindo, fingindo força enquanto desmoronava por dentro.
Na parede à minha frente, minha sombra dançava com a luz fraca da cozinha.
Tinha o meu formato.
O meu rosto.
Mas parecia mais honesta do que eu jamais fui.
Um homem de pedra.
Olhos vazios.
Alma rachada.
Ficamos nos encarando por longos minutos.
Como jogadores em uma mesa de apostas.
Quem desviasse o olhar primeiro perderia.
Quem piscasse primeiro sangraria.
As vozes começaram.
Primeiro sussurros.
Depois gritos.
Chamavam meu nome como juízes lendo uma sentença.
Eles sabiam exatamente quem eu era.
Talvez melhor do que eu mesmo.
Mas enquanto minhas mãos ainda conseguissem levantar aquele copo...
enquanto eu ainda conseguisse encarar meus fantasmas sem cair de joelhos...
eu continuaria sendo o dono daquela noite.
O dono daquele jogo miserável.
A garrafa secou antes do amanhecer.
O silêncio voltou.
Mas eles ainda estavam lá.
Sempre estariam.
Observei pela janela o primeiro traço de luz rasgando a escuridão.
O sol nasceria em poucos minutos.
E quando ele surgisse no horizonte...
nem eu venceria.
Nem meus demônios.
Mais uma vez,
teríamos que empatar.