Não havia sangue em minhas mãos.
Nenhuma mancha no chão.
Nenhuma testemunha.
Nenhum grito atravessando a madrugada.
O delegado jamais bateria à minha porta.
Ninguém investigaria o que aconteceu naquela terça-feira comum, perdida entre compromissos banais e conversas vazias. O mundo continuou girando como se nada tivesse acontecido.
E, de certa forma, nada realmente aconteceu.
Pelo menos, nada que os olhos pudessem enxergar.
Foi um crime limpo.
Silencioso.
Preciso.
Sem dor aparente.
Sem funeral.
Sem suspeitos.
Sem absolvição.
Naquela manhã, encarei meu reflexo no espelho e vi um estranho sorrindo para mim.
Um sorriso frio.
Calculado.
Quase satisfeito.
Enquanto isso, o menino que eu havia sido, desaparecia lentamente dentro de mim.
O garoto era fraco demais para sobreviver a este mundo feito de concreto e crueldade.
Ainda acreditava em abraços sinceros.
Em promessas eternas.
Em palavras que deveriam significar alguma coisa.
Ainda achava que bondade era suficiente.
Que honestidade seria recompensada.
Que amor salvaria qualquer desastre.
Era ingênuo.
Terrivelmente ingênuo.
E eu sabia que ele não sobreviveria por muito tempo.
Então fiz o que achei necessário.
Matei o sorriso dele antes que o mundo o destruísse completamente.
Matei sua esperança antes que ela fosse humilhada.
Matei sua fé nas pessoas antes que ela fosse usada contra ele.
O homem que eu matei não tinha inimigos.
Não devia dinheiro.
Não carregava pecados graves.
Era apenas um menino sonhador...
que morava dentro de mim.
Eu sufoquei sua bondade até ela parar de respirar.
Arranquei sua delicadeza pela raiz.
Enterrei sua inocência em uma cova rasa, sem lápide, sem flores, sem despedidas.
E fui embora fingindo que aquilo era força.
Hoje me tornei tudo o que o mundo dizia que eu precisava ser.
Sou duro.
Sou frio.
Sou muralha.
Sou aço.
Sou rei de um reino vazio.
Ninguém me fere facilmente agora.
Ninguém me engana da mesma forma.
Ninguém me vê sangrar.
Mas, nas madrugadas silenciosas, quando o orgulho adormece e as máscaras caem no chão...
eu choro pela falta do homem que matei.
Dizem que amadurecer é ganhar a partida.
Ganhar estrutura.
Ganhar direção.
Mas às vezes amadurecer é apenas perder a parte mais viva de si mesmo.
Troquei o brilho dos meus olhos por calos nas mãos.
Troquei o “eu te amo” por “não tenho escolha”.
Troquei sonhos por boletos.
Troquei a sensibilidade pela sobrevivência.
E toda vez que aquele menino batia dentro do meu peito, implorando para voltar...
pedindo socorro...
gritando que ainda estava vivo...
eu trancava a porta.
E jogava a chave cada vez mais longe.
Até quase acreditar que ele nunca existiu.
Quase.