Tem gente que mata e fica frio, tem gente que mata e chora pra sempre đ
A pessoa que eu matei
Pensamento
Tem gente que mata e fica frio, tem gente que mata e chora pra sempre đ
ConteĂșdo da publicação
NĂŁo havia sangue em minhas mĂŁos.
Nenhuma mancha no chĂŁo.
Nenhuma testemunha.
Nenhum grito atravessando a madrugada.
O delegado jamais bateria Ă minha porta.
Ninguém investigaria o que aconteceu naquela terça-feira comum, perdida entre compromissos banais e conversas vazias. O mundo continuou girando como se nada tivesse acontecido.
E, de certa forma, nada realmente aconteceu.
Pelo menos, nada que os olhos pudessem enxergar.
Foi um crime limpo.
Silencioso.
Preciso.
Sem dor aparente.
Sem funeral.
Sem suspeitos.
Sem absolvição.
Naquela manhĂŁ, encarei meu reflexo no espelho e vi um estranho sorrindo para mim.
Um sorriso frio.
Calculado.
Quase satisfeito.
Enquanto isso, o menino que eu havia sido, desaparecia lentamente dentro de mim.
O garoto era fraco demais para sobreviver a este mundo feito de concreto e crueldade.
Ainda acreditava em abraços sinceros.
Em promessas eternas.
Em palavras que deveriam significar alguma coisa.
Ainda achava que bondade era suficiente.
Que honestidade seria recompensada.
Que amor salvaria qualquer desastre.
Era ingĂȘnuo.
Terrivelmente ingĂȘnuo.
E eu sabia que ele nĂŁo sobreviveria por muito tempo.
EntĂŁo fiz o que achei necessĂĄrio.
Matei o sorriso dele antes que o mundo o destruĂsse completamente.
Matei sua esperança antes que ela fosse humilhada.
Matei sua fé nas pessoas antes que ela fosse usada contra ele.
O homem que eu matei nĂŁo tinha inimigos.
NĂŁo devia dinheiro.
NĂŁo carregava pecados graves.
Era apenas um menino sonhador...
que morava dentro de mim.
Eu sufoquei sua bondade até ela parar de respirar.
Arranquei sua delicadeza pela raiz.
Enterrei sua inocĂȘncia em uma cova rasa, sem lĂĄpide, sem flores, sem despedidas.
E fui embora fingindo que aquilo era força.
Hoje me tornei tudo o que o mundo dizia que eu precisava ser.
Sou duro.
Sou frio.
Sou muralha.
Sou aço.
Sou rei de um reino vazio.
Ninguém me fere facilmente agora.
Ninguém me engana da mesma forma.
NinguĂ©m me vĂȘ sangrar.
Mas, nas madrugadas silenciosas, quando o orgulho adormece e as mĂĄscaras caem no chĂŁo...
eu choro pela falta do homem que matei.
Dizem que amadurecer Ă© ganhar a partida.
Ganhar estrutura.
Ganhar direção.
Mas Ă s vezes amadurecer Ă© apenas perder a parte mais viva de si mesmo.
Troquei o brilho dos meus olhos por calos nas mĂŁos.
Troquei o âeu te amoâ por ânĂŁo tenho escolhaâ.
Troquei sonhos por boletos.
Troquei a sensibilidade pela sobrevivĂȘncia.
E toda vez que aquele menino batia dentro do meu peito, implorando para voltar...
pedindo socorro...
gritando que ainda estava vivo...
eu trancava a porta.
E jogava a chave cada vez mais longe.
Até quase acreditar que ele nunca existiu.
Quase.
Thoughts
-
PermalinkSe pudesse voltar, vocĂȘ pedia pro menino nĂŁo morrer ou diz que foi necessĂĄrio?
-
PermalinkTem gente que mata e fica frio, tem gente que mata e chora pra sempre đ
-
PermalinkA dor de ser forte sem ser frio Ă© real. VocĂȘ escreveu bem esse lugar.
-
PermalinkNem sempre é morte - às vezes é só hibernação e a gente pode acordar de novo.
-
PermalinkVocĂȘ arrependida daquele menino que morreu, ou aliviada de nĂŁo ser mais ele?
-
Permalinkse vocĂȘ tivesse a chance agora, vocĂȘ deixaria aquele menino ainda estar vivo?
-
PermalinkQue verdade incĂŽmoda essa de que a gente precisa matar partes de si pra sobreviver.
-
PermalinkA criança que vocĂȘ era - vocĂȘ acha que ainda mora em algum lugar seu ou desapareceu de verdade?
-
Permalinkessa dor de ter matado um pedaço de si é bem real
-
PermalinkCrescer Ă© meio isso mesmo - vocĂȘ fica mais forte mas perde aquele brilho de quem acredita em tudo.
PublicaçÔes relacionadas
-
SĂł se ama uma vez
Mas do jeito que a memória conserva quem amamos: mais bonita do que qualquer fotografia, mais viva do que qualquer presença.
-
O Ășltimo drinque
Não queria que a noite assistisse ao espetåculo miseråvel de um homem tentando sobreviver às próprias lembranças.
-
A Ășltima rodada
As ruas que antes eu atravessava sem perceber agora carregavam fantasmas em cada esquina. Os bares ainda estavam acesos, cuspindo mĂșsica e risadas na madrugada, mas eu jĂĄ nĂŁo pertencia Ă quele mundo. Caminhava sozinho, afundado num silĂȘncio pesado, acompanhado apenas pelas lembranças dela.
-
Pastor da Ovelhas Negras
Meu rebanho era feito de sombras. De amargura.
-
O Estranho no Espelho
Parecia o retrato de alguĂ©m que trocou verdades por ilusĂ”es, amor por ausĂȘncia, esperança por sobrevivĂȘncia.
-
Nostalgiando-me
Tenho saudades â de tempos que nĂŁo voltam, de movimentos que cessaram, de grupos que nĂŁo mais se ajuntam, de coisas que nĂŁo mais sĂŁo comuns. Tenho saudades â de um passado congelado como uma imagemâŠ
-
Poesias realmente sĂŁo belas?
Se a poesia algo tĂŁo bonito por que ainda tem tristeza sobre ela no infinito Se ela Ă© tĂŁo pura quanto um amigo por que choramos por conta deles nos ferindo Posso atĂ© fazer um sacrificio para nĂŁoâŠ
-
Por me acabarem palavras...
Que podem os bĂșzios diante de teu olhar, Se nem os Odus te conseguem compreender? Que pode um poeta ao tentar te descrever, Se fazes da poesia um modo de falhar?
Naquela manhĂŁ, encarei meu reflexo no espelho e vi um estranho sorrindo para mim.