Lavei o rosto na água fria da pia, como se o choque pudesse arrancar de mim o peso de mais um amanhecer. A água escorria pela minha pele cansada enquanto eu tentava despertar não apenas o corpo, mas algo dentro de mim que parecia adormecido havia anos.
Quando ergui a cabeça, encontrei meu reflexo no espelho.
Por um instante, não reconheci o homem diante de mim.
Havia algo perdido em seus olhos fundos, como se carregassem noites demais e sonhos de menos. A barba mal feita denunciava o descuido de quem já não vê motivo para se arrumar. As rugas marcadas na testa pareciam mapas de decisões erradas — cada linha, uma escolha impensada; cada marca, uma estrada percorrida no momento errado.
Toquei a cicatriz em meu queixo.
Antiga.
Lembrei da briga que a deixou ali — uma luta travada por uma causa que hoje nem sei se realmente valia a pena. Sangrei por coisas que o tempo tratou de apagar, enquanto as marcas permaneceram em mim como lembranças silenciosas daquilo que perdi.
Procurei no reflexo o menino que eu costumava ser.
O garoto que ria sem medo, que acreditava no amor, no futuro, em promessas.
Mas ele não estava mais ali.
Talvez tenha fugido há muito tempo daquela casa vazia que me tornei por dentro.
Continuei encarando aquele estranho.
Quem era ele?
Por que me olhava de volta com tanta familiaridade e, ao mesmo tempo, tanta distância?
Seu sorriso parecia trancado em algum lugar inalcançável, escondido atrás de portas que eu mesmo fechei e nunca mais tive coragem de abrir.
Aquele rosto não parecia meu.
Parecia o retrato de alguém que trocou verdades por ilusões, amor por ausência, esperança por sobrevivência.
Bati a mão contra o espelho.
Uma vez.
Depois outra.
Como se pudesse expulsar aquele homem dali.
Como se ele fosse o problema.
Mas a verdade me atingiu com a mesma frieza da água na pele:
o estranho era eu.
Preso dentro da minha própria carne.
Tentei esconder minhas falhas.
Tentei disfarçar minhas dores.
Tentei vestir versões mais bonitas de mim mesmo para que ninguém percebesse o estrago.
Mas o espelho nunca esquece.
Ele revela as manchas.
Os defeitos.
As rachaduras.
E, principalmente, o vazio enorme que carrego no peito.
Pensei em quebrá-lo.
Em destruir aquela imagem de uma vez por todas.
Mas mesmo em pedaços, eu sabia...
os cacos no chão ainda refletiriam quem eu sou.
Afastei-me cambaleando e gritei para meu próprio reflexo, com a voz quebrada:
— Sai da minha frente...
Respirei fundo, já sem forças.
— Me deixa em paz...
Meus olhos arderam.
— Eu não sou você...
O silêncio me respondeu.
E pela primeira vez, percebi o que realmente me assustava: talvez eu já não soubesse mais quem eu era.