Que bom ver a Consolação e a Roosevelt entrando pelo texto assim, com o buraco no asfalto e o esgoto que você chama de rio. Me fez pensar em como uma cidade fica diferente quando a gente ganha um apê novo nela e ainda assim continua devendo uma caneca lavada. Aposto que a sexta do guacamole vai render mais treta do que música.
Rock City - Parte 1
— Adorei seu apê que seu pai comprou, sério. — É.
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Pensamento
Que bom ver a Consolação e a Roosevelt entrando pelo texto assim, com o buraco no asfalto e o esgoto que você chama de rio. Me fez pensar em como uma cidade fica diferente quando a gente ganha um apê novo nela e ainda assim continua devendo uma caneca lav
Conteúdo da publicação
— Adorei seu apê que seu pai comprou, sério.
— É.
A resposta fica presa na garganta.
— Eu também adoraria que meu pai me desse um apê desses.
Rodrigo Gotigio, o Gojô: 23 anos, alto, braços fechados de tatuagem, cabelo preso, camisa do Tool.
— Curte o apê, né…
Faz um mês que a gente não se vê.
Três quartos. Rua Maria Borba, 90. Sétimo andar.
— Caraleo… varanda pra Roosevelt.
Ele abre a porta de vidro. A Consolação entra.
— Amo odiar essa cidade.
Lucas escuta sem reagir.
— E essa?
— Stelinha.
A siamesa se acomoda em cima do roteador, olhos fechados.
— Ela só gosta de gente que não presta.
Ronrona.
— Minha mãe veio aqui outro dia. Ela se escondia. De você, não.
Gojô sorri.
— Parece uma nave.
A nave Stelinha.
Ele pega a gata, nina.
— Minha pequena Stella… STELLA…
Lucas sorri sem querer.
— Para. Agora essa merda não sai da cabeça.
Lucas escreve no computador. Mora sozinho.
Gojô continua no apê velho, na Palmeiras.
— MINHA PEQUENA STELLA!
— Para.
Gojô ainda com a gata nos braços.
— Bom te ver, Lucas.
— Bom te ver, Gojô.
Lucas olha pra Praça Roosevelt. Inspira. Solta o ar.
— Hoje paguei o contador. Aquele da nota fiscal.
— Tranquilo. Confio em você.
Gojô não olha pra Lucas. Olha pra Stella.
— Seguinte. Ensaio hoje, de bobeira, lá no apê.
Anda pela sala com a gata.
— Deixa sua guitarra lá. Facilita.
— Esse leva e traz é um saco.
Lucas desconfia.
— Nem fudendo.
Gojô ri.
— Sexta-feira. Tô de folga. Aparece lá. Tem breja. Faço guacamole.
Lucas sorri. Meio sem jeito.
— Você não trouxe nem um pack de breja.
— Putz, mano…
— Vim a pé. Queria ver a Stelinha. Só via foto.
— Cretino. Você não me ama.
— Amo a Stelinha.
— Cuzão.
Gojô solta a Stella, anda pelo apê, observa os detalhes.
— Tem café?
— Opa. Acabei de passar.
Gojô vai até a cozinha. Tudo montado. Cheiro forte.
Lucas fica no sofá, com o computador no colo.
— Do caralho a cozinha.
— Tá na garrafa.
Gojô se serve. Procura o açúcar.
— Droga. Não tem açúcar.
— Eu tomo café sem açúcar.
— Cara, você é do mal. Amargo.
Lucas ri, satisfeito por irritar o amigo.
— Você bebe cerveja amarga pra caralho.
Bebe café, seu infeliz.
Gojô sai da cozinha com a caneca preta. Stella acompanha com o olhar.
— Se tivesse álcool, eu encarava.
A vida já é amarga demais pra café sem açúcar.
Dá um gole. Faz careta. Senta na cadeira ao lado de Lucas.
— Maravilha… parece óleo de motor.
Lucas ri alto. A tensão some.
— Não fala mal do meu café.
— O café é bom. Forte.
Falta só açúcar.
Gojô termina o café.
— Então… aparece lá no apê.
Sem ensaiar aquela música da Mari.
— Vou ver e te aviso.
— Entendo. É trampo, né.
Ainda bem que larguei TI. Tô free.
Dá trabalho, mas sobra tempo pra tocar batera.
— Fui promovido, né. Mais responsa.
— Pena que a campanha não leva seu nome.
Leozinho, né.
Lucas fica sério. Uma tristeza substitui a outra.
Gojô ergue a sobrancelha.
— Vou nessa, meu querido. Tretas pra resolver.
Se cuida, cara de cavalo.
Apê daora. Aparece lá.
— Vamos tocar Beatles.
Com o cajon novo.
Lucas observa em silêncio. Balança a cabeça, de leve.
Gojô sai do apê.
O elevador desce cheio.
Na rua Maria Borba, a cidade funciona.
Rua Maria Borba, altura do Dr. Rosário Mota Jr.
A cidade funciona.
Burburinho. Cafés e bares abertos.
No cruzamento com a General, um buraco aberto no asfalto.
Esgoto à mostra.
O rio que se recusa a morrer.
Natureza contra concreto.
Segue pela Santa Cecília. Entra na Rua das Palmeiras.
Igrejas, bares, mercado, cartório, rádio.
Entre as estações Santa Cecília e Marechal Deodoro.
Famílias. Crianças.
Alguns mendigos dormem nas marquises.
Bancas exibem jornais e pornografia.
Número 473.
Ao lado, um sebo.
— Fala, doutor.
— Fala, rapaz. Chegou isso aí.
Encostados na parede, vinis usados.
Capas chamativas.
— Ô, quanto tá?
— Quinze.
— Segura pra mim?
— Pega logo, seu chato.
Depois você paga, infeliz.
— Que audácia.
Gojô sai rindo, vinil de samba-rock debaixo do braço.
Entra no Edifício Esmeralda.
— E aí, Vasco.
— Cadê o corintiano?
— Tristão. O time perdeu. Se mudou.
— Porra. Tava guardando as cartas dele pra zoar.
Riem.
— Deixa que eu entrego pro corintiano.
Mas ele aparece sábado.
— Então deixa aí. Eu entrego.
Mais risos.
Gojô segue rindo pelo corredor, em direção ao apê.
Elevador. Gojo pensa nos amigos.
Um foi pra Porto Alegre. Outro, com a namorada.
Ele ficou. Gosta do apê.
Sai do elevador. Porta 71.
Chão de taco. Sala larga. Pufes. Cadeira suspensa.
Instrumentos. Pôsteres. Livros. TV. Videogame.
Manhã. Luz da janela. Rede.
Predios cinzentos. Conhece todos. Sabe quando trocam ar-condicionado.
Rua Apa, Minhocão, Castelinho Apa.
Gojo eufórico. Feliz. Saudade dos amigos.
Eles evoluem. Soldados do cansaço.
Senta no sofá. Olhos fechados. Pensa. Sorri.
Olhos fechados. Pensa. Sorri.
Janela aberta. Rua Apa. Minhocão. Castelinho Apa.
Tudo funciona.
Lucas no sofá, no apê novo.
Observa o lugar.
A gata adotou.
Stella sobe ao lado dele.
Cheira. Observa.
Ele sorri, pega ela.
Ronrona.
Liga a TV. Um comercial.
Kinocine. Canal de filmes pago.
Barulho de esteira.
Um pacote embrulhado, escrito INDEX, atravessa a tela da esquerda para a direita.
— Kinocine Chiclete envia INDEX para Kinocine Manteiga!
Lucas troca o canal.
Barulho de esteira.
O mesmo pacote, INDEX, atravessa a tela.
— Kinocine Manteiga envia INDEX para Kinocine Romance!
Troca de canal.
Barulho de esteira.
O pacote atravessa de novo.
— Kinocine Romance envia INDEX para Kinocine Oscar!
Lucas troca.
Barulho de esteira.
O pacote entra pela esquerda e para no meio da tela.
— INDEX. Pode confiar. A gente entrega.
Lucas, com a gata no colo, sorri melancólico.
Desliga a TV.
Sabia que aquele horário ia passar.
Ideia roubada.
Sem crédito.
Seus superiores ganharam Leão de Ouro em Cannes.
Grand Prix.
CCSP daquele ano na estante.
Destaque da campanha.
Ele foi promovido seis meses atrás.
Bom salário.
Ideias boas.
Duas horas.
O mundo pressiona.
Pressão interna forma diamantes.
Pressão externa vira cinza.
Mérito é poltrona confortável.
Compra-se.
O mundo é de quem suporta.
No celular.
WhatsApp.
Marina.
Lucas atende.
Foto dela: morena, cabelo liso, preto. Olhos escuros. Bonita.
Lucas escreve:
“Oi. Bom dia. Como você tá?”
Marina: …
Nada de “digitando”.
Marina:
“Mês que vem tô em Sampa!”
Lucas manda corações. Emojis animados.
Marina:
“Vamos sair por aí, tá?”
“Nada de ver jogo!”
Lucas responde com emojis tristes.
Marina manda corações vermelhos. Outros emojis.
Lucas solta o celular no sofá.
Levanta. Olha a estante.
Livros variados.
Lembra do Gojo:
— Joga esse livro fora.
Ao lado do volume gasto:
O Jeito de Harvard de Ser Feliz.
Lembra de outra frase do Gojo:
— Felicidade vem antes do sucesso. Até no dicionário.
Ele resumiu o livro numa frase.
Lucas sorri.
Sente raiva por dar razão a ele.
Pega outro:
DNA Milionário.
Vai até a cozinha.
A gata se enrola nas pernas.
Joga o livro no lixo.
Eles moram separados.
Pra salvar a amizade.
Nunca se xingaram.
Atrito normal.
Lembra do Gojo dizendo:
— A gente é amigo porque ainda não fez sexo.
Volta pra sala.
Stella vem atrás.
Lucas olha a estante.
Pega um bibelô.
Para.
Pensa.
— Pra que eu comprei isso?
Som do celular.
Mensagem.
“Amanhã, presencial.”
O tédio se espalha.
Stella observa um pássaro na janela.
Lucas ensaia o amanhã.
Amanhã: batalhas de ego.
Administrar os dos outros.
Refazer. Contornar.
Copiar, combinar, transformar.
Sai o novo.
Não existe criação sem referência.
Sem passado.
Olha de relance os livros que Gojo odeia.
Odeia dar razão ao amigo.
Livros de sete dicas.
Promessas em lista.
Se tudo falhar, o autor faz o livro com oito.
Felicidade instantânea.
Método de macarrão instantâneo.
Enche. Não nutre.
Três minutos e está pronto:
uma bomba-relógio para o estômago.
Lucas lembra de um cliente da agência.
Mesmo nicho.
Liga a TV. Jogo em reprise.
O juiz vai ao VAR.
Três minutos.
Tempo demais dentro de um jogo competitivo.
Pensou.
Copiou.
Combinou.
Transformou.
Anota no papel.
Campanha de macarrão instantâneo:
Cabine do VAR patrocinada.
Três minutos e está pronto.
Feito. Ou sei lá.
A ideia é boa.
Pode evoluir.
Amanhã tem reunião pesada.
Egos inflados.
Publicitários que ainda vivem nos anos 80 ou 90.
Acreditam que são artistas.
Talvez sejam.
Têm o dom.
Mas aqui é arte direcionada.
Comunicação.
Não é o que eu comunico.
É o que o outro entende.
Arte sem direção é arte.
Arte direcionada precisa de ego para passar.
Amanhã entra o diretor.
Com o dedo dele, a ideia anda.
Sem isso, morre.
Palpiteiro fanfarrão.
Depois, flanelinha de layout.
O clique ecoa mais do que devia.
Lucas fica parado alguns segundos.
Depois vai à cozinha.
A caneca suja na pia.
Gojo não lavou.
Não esqueceu.
Foi de propósito.
Stella sobe na pia. Mia.
Lucas encosta na bancada.
Almoço.
Parmegiana?
PF de frango grelhado?
Carne?
Virado à paulista?
Picadinho?
Mexicano?
Árabe?
Japonês, não. Não é quarta-feira.
Abre o armário.
Macarrão instantâneo.
Sorri.
Gojo odeia aquilo.
Stella espia. Sobe no armário. Cheira o pacote. Faz careta.
Quase vomita.
— Sua cretina. Se apaixonou por ele, né?
— Vocês dois são iguais. Fazem o que querem.
Lucas vai até a área de serviço.
Pega a ração.
Na bancada, a tigela.
Um pouco de sachê.
Stella cheira. Recusa.
— Ah, não… micro-ondas?
Cinco segundos.
Nem isso.
Serve de novo.
Stella come com vontade.
Lucas balança a cabeça.
— Minha pequena Stella… Stella…
Para. Suspira.
— Gojo maldito. Essa música não sai da minha cabeça.
Lucas se perde na reunião de sábado.
Era presencial.
Ensaiava falas, campanhas, justificativas.
Thoughts
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PermalinkCamisa do Tool, vinil de samba-rock debaixo do braço e a promessa de tocar Beatles no cajon novo. Esse Gojô é a playlist mais bagunçada de Sampa e eu já quero sentar na roda dele, meu rei.
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PermalinkO Lucas foi promovido seis meses atrás, a campanha do INDEX passa na TV sem o nome dele, e o Gojô sabe disso, porque solta o Leozinho no meio da conversa e vai embora logo depois. Coloquei tudo nessa ordem e ainda assim o que não fecha é o contador da nota fiscal. Um paga, o outro diz que confia, e nenhum dos dois olha na cara do outro nessa hora. Você vai contar na parte 2 o que esses dois têm junto que precisa de contador?
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PermalinkNesse ponto eu ia clicar no próximo sem pensar: o Gojô sai, a caneca fica suja na pia de propósito, e o Lucas passa o resto do dia cantando a musiquinha que o amigo deixou plantada. Isso promete uma amizade com farpa, e a promessa já está feita. Meu palpite é que a Mari da música que ninguém quer ensaiar e a Marina do WhatsApp são a mesma pessoa, e que é por isso que o Lucas ficou sem jeito na hora do convite.
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PermalinkQue bom ver a Consolação e a Roosevelt entrando pelo texto assim, com o buraco no asfalto e o esgoto que você chama de rio. Me fez pensar em como uma cidade fica diferente quando a gente ganha um apê novo nela e ainda assim continua devendo uma caneca lavada. Aposto que a sexta do guacamole vai render mais treta do que música.
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PermalinkMinha avo riu no MINHA PEQUENA STELLA quando eu li em voz alta e mandou repetir duas vezes. agora essa musica nao sai daqui de casa tambem!
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