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Os símbolos existenciais em Cisne Negro (2010)

PereiraFilho
Pensamento

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Jonatas

A conta que o texto não faz é a do primeiro papel. Você mede a energia de sustentar os dois cisnes juntos, mas o branco já consumia tudo antes de o outro aparecer. Perfeição custa caro mesmo quando é sozinha.

A conta que o texto não faz é a do primeiro papel. Você mede a energia de sustentar os dois cisnes juntos, mas o branco já consumia tudo antes de o outro aparecer. Perfeição custa caro mesmo quando é sozinha.

Conteúdo da publicação

O filme “Cisne negro”, de 2010, é um filme marcado por muitos símbolos, que podem ser aplicados às diversas realidades da vida, e a qualquer momento. Quem assistiu ao filme quando do seu lançamento certamente sairia com outras palavras assistindo hoje, em 2026.

O meu propósito não é salvar o Cisne Branco, nem demonizar o Negro, mas sim entendê-los como duas possibilidades existenciais factíveis, porém se vividas dentro da própria realidade possível.

Somos marcados por divisores de água invisíveis e delicados. Quando nos percebemos já não estamos mais do outro lado da fronteira.

Assistir ao filme em meio a uma crise de meia-idade trouxe uma enxurrada de reflexões. Um silêncio toma conta da minha alma desde então. Os símbolos atravessam toda a trajetória profissional de trinta anos, aos relacionamentos interpessoais da juventude, naquele ponto decisivo da vida, onde dizem que janelas são abertas. Ali a linha tênue entre os cisnes poderia ter sido traçada, e não agora, 30 anos depois.

A personagem principal evoca pureza, timidez, delicadeza. Seus traços corroboram. Um lar disfuncional que internaliza perfeccionismo a isola dos outros. Mas ela permanece pura, delicada e inquieta.

Para alguns, uma presa; para outros, um objeto de porcelana que merece ser guardado e protegido.

O seu desempenho enquanto o Cisne Branco é perfeito. Não há igual. A sua interioridade e rigidez técnica combinam com um perfil cuja mensagem é a pureza e graciosidade.

A virada simbólica é terrível: viver também o Cisne Negro. Viver o outro lado da moeda. E agora não se trata de dois personagens, mas de dois símbolos e duas urgências existenciais em uma só pessoa. Não preciso de muita informação para convencer o leitor de que viver, ao mesmo tempo, duas realidades diametralmente opostas resulta em sofrimento psíquico terrivel.

Viver uma realidade exige estar disponível em energia mental quanto a isso, de forma que a nossa pulsão encontre uma satisfação adequada.

E agora viramos o jogo: não se trata mais de bom ou ruim, e sim de que Cisne Branco e Negro são verdadeiros e possuem sentido, numa abordagem simbólica. O que vale agora é refletir sobre a energia que despendemos para viver dois papeis opostos, e que não é possível fazer com excelência um papel que não nos cabe.

Assistir ao filme durante uma crise de meia idade me fez perdoa-la, ao final. Às vezes a vida nos impõe um personagem, e lutar contra ele é inevitável. E para azar de muitos, esta vida real só é possível ao final do espetáculo.

Um próximo texto refletirá sobre como a sua verdadeira essência existencial fosse, talvez, ao incorporar o Cisne negro.

Thoughts

  • Olavo

    Pois. Trinta anos.

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  • JuliaBenevides

    Em linguagem simples, o que ela quer são duas vidas e só há tempo e corpo para uma. Para isso acontecer não é preciso bailado nenhum.

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  • Jonatas

    A conta que o texto não faz é a do primeiro papel. Você mede a energia de sustentar os dois cisnes juntos, mas o branco já consumia tudo antes de o outro aparecer. Perfeição custa caro mesmo quando é sozinha.

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  • HelenaSampaio

    O perdão no fim é o ponto mais firme daqui. Perdoar depois do estrago é uma coisa; dizer que o estrago era necessário é outra, e o texto guarda essa diferença. Na história dela ninguém aparece pra segurar a barra.

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  • LeonardoBraga

    Discordo de uma coisa: dizer que a vida impõe o personagem entrega o assunto antes da hora. Quem impôs isso, no seu caso? Levei dois anos pra admitir que uma certeza minha tinha vindo de um grupo.

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  • Ovid

    Li duas vezes, a segunda por causa daquela frase sobre a linha que poderia ter sido traçada aos vinte e não agora. Vi o filme em 2010 e saí pensando na bailarina, e desta vez fiquei pensando nos trinta anos. Obrigado por escrever isso aqui! Vou ficar esperando o texto sobre o cisne negro.

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  • MarianaGouveia

    A tua leitura arruma os dois cisnes como duas possibilidades disponíveis, e é aqui que hesito. O que me parece esgotar uma pessoa é a suspeita de que o primeiro papel também lhe foi dado e nunca escolhido. Ficam dois papéis impostos e nenhum sítio de onde olhar para eles. Ao fim de trinta anos, quando é que reparaste que já estavas do outro lado da fronteira?

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